Um ca­fé

O Diario do Norte do Parana - - CULTURA -

Às ve­zes, uma xí­ca­ra de ca­fé po­de ser a me­lhor par­te do seu dia. Sem per­ce­ber, sem pla­ne­jar, sem ao me­nos en­ten­der os mo­ti­vos que te le­vam a tal ato, vo­cê ape­nas pe­ga a xí­ca­ra e se de­li­cia. E so­mos mui­to mais ca­pa­zes de per­ce­ber o que há de ruim do que de sen­tir o pra­zer que pro­vém do que é bom. O ri­co com seu ca­fé de ri­co, o po­bre com seu po­bre ca­fé. In­de­pen­den­te­men­te do pre­ço, há o chei­ro, a cor, o va­por, o gos­to e o des­gos­to. Há tu­do is­so nu­ma xí­ca­ra de ca­fé. Cos­tu­mo di­zer que, as­sim co­mo a vi­da, o ca­fé de­ve ser do­ce e amar­go na me­di­da cer­ta. E exis­tem pes­so­as – não sei por que exis­tem es­sas pes­so­as – que te tra­zem al­ter­na­ti­vas, ca­mi­nhos, ado­çan­tes ruins em be­los sa­qui­nhos, que co­lo­cam su­as co­lhe­res su­jas em nos­sas xí­ca­ras pa­ra nos di­zer qual é o gos­to mais per­fei­to. Mas, per­fei­to, bem sei, é que as coi­sas sai­am do meu jei­to. Só eu sei o que eu que­ro sa­ber, só eu en­ten­do o que há de me­lhor pra mim nes­se mundo, qual a re­al gra­ça de se exis­tir nes­sa tí­mi­da exis­tên­cia. Por is­so te­mo, des­con­fio que não é fe­liz de ver­da­de quem não as­su­me os ris­cos de sua pró­pria de­si­lu­são. É tris­te quem se es­for­ça mui­to pra ser fe­liz, quem to­ma num go­le se­co a sen­sa­ção de cal­ma­ria, a sen­sa­ção de se ter con­tro­le so­bre o co­ti­di­a­no de to­do dia. Quem se so­ne­ga a si pró­prio não po­de ser fe­liz. Que­rer-se é o ca­mi­nho. E não há quem te­nha se pro­cu­ra­do que não en­con­tre um si pró­prio, com um pou­co de dor e al­gum so­fri­men­to. Mas do­er é ne­ces­sá­rio. É ne­ces­sá­rio que o tris­te vi­va to­da sua tris­te­za, pois só as­sim se­rá fe­liz. O tris­te que não sen­tiu o gos­to de seu pró­prio ser, não é nin­guém. Não sou­be ser. O ri­so exis­te pa­ra o dia da alegria, mas o cho­ro é o que há de mais cer­to pa­ra o dia do pran­to. Ser fe­liz é ser in­tei­ro. É ter to­dos os de­fei­tos que se tem e to­das as qua­li­da­des que se po­de ter. É sa­ber ler que seu no­me não é for­ma­do ape­nas por le­tras, mas por san­gue, su­or e vir­tu­de de sé­cu­los e sé­cu­los. So­mos cor­po, e fo­ra do cor­po não há sal­va­ção. Sal­ve­mo-nos do ris­co de pas­sar a vi­da sem sen­tir o to­que for­te de cen­te­nas de nos­sos an­te­pas­sa­dos em nos­sas vi­das. Não mor­ra­mos com ver­go­nha de­les. An­tes dis­so, não mor­ra­mos alhei­os a eles. Pa­ra fa­zer seu ca­fé, se­pa­re os grãos bons dos grãos ruins. Ca­da um tem seu mo­men­to. Ca­so con­trá­rio, vo­cê to­ma­rá sem­pre um ca­fé con­ta­mi­na­do com o que há de pi­or. Sen­te-se e sir­va-se. Mas não es­que­ça: não é pre­ci­so ter me­do do tem­po. É cer­to que o tem­po pas­sa. Mas, pa­ra quem sa­be sen­tir a si mes­mo, não há na­da que não pos­sa, e até mes­mo uma po­bre xí­ca­ra de ca­fé po­de se tor­nar me­tá­fo­ra do in­fi­ni­to.

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