A Pai­xão se­gun­do qual­quer um

O Diario do Norte do Parana - - CULTURA -

Amor­te é ven­ci­da a ca­da dia que ama­nhe­ce. O Sol quan­do bri­lha não sim­ples­men­te aque­ce; tam­bém anun­cia. Há tan­tos e tão pou­cos, que nem se per­ce­be que os cam­pos ávi­dos pe­la co­lhei­ta são o co­ra­ção da hu­ma­ni­da­de. 1. No Si­né­drio O cor­dei­ro imo­la­do do sa­cri­fí­cio de Abraão se­rá re­vi­vi­do no to­po do Cal­vá­rio. Lá, on­de Adão foi en­ter­ra­do, to­dos se­rão per­do­a­dos no san­gue der­ra­ma­do, pois as­sim, so­men­te as­sim, as se­men­tes ger­mi­na­rão e as ár­vo­res fru­ti­fi­ca­rão. 2. A ceia Co­mun­go os fa­re­los des­te pão. A Dor e a Trai­ção anun­ci­a­das co­brem-me nes­ta es­pes­sa so­li­dão. O jar­ro em­bri­a­ga-me os sen­ti­dos. Es­tra­nho ca­la­frio per­cor­re-me to­do. 3. No Get­sê­ma­ne A noi­te es­tá quen­te, rou­ba-te or­va­lho das têm­po­ras, ala­gan­do o chão de vi­nho hu­ma­no. So­fres e pro­cu­ras o er­mo co­mo fos­se o úni­co com­pa­nhei­ro. Sen­tes o pul­so mais rá­pi­do. Se­rá a ho­ra? 4. Ju­das Em um ins­tan­te es­ta­rá per­pe­tu­a­do no ga­lho de uma fi­guei­ra. Ar ra­re­fei­to. Nu­vens es­cas­sas. 5. He­ro­des Na ve­lhi­ce sou mais ga­li­leu do que ro­ma­no. Co­nhe­ço o teu po­vo da mes­ma for­ma que sei de meus ca­va­los. O que fa­ço de ti? Fa­ze al­go pa­ra mim: con­ver­te em oce­a­no dou­ra­do o pran­to da Ju­déia. Vá! O úl­ti­mo que aqui es­te­ve, dei­xou-me co­mo re­cor­da­ção a ca­be­ça com par de olhos as­sus­ta­dos. 6. Pi­la­tos As mãos não atin­gem o céu, mui­to me­nos a cul­pa de quem não a pos­sui. 7. A co­ro­a­ção On­de es­tão os sú­di­tos? Me­re­ces o es­pi­nho que te co­bre, co­mo o céu plúm­beo a es­te chi­quei­ro. 8. Pe­dro Não co­nhe­ço, cen­tu­rião, es­te a cair en­quan­to in­sis­te se­guir com o pe­so do mundo nos om­bros. Nun­ca o vi nem ou­vi. Sou um re­les mer­ca­dor sem es­pe­ran­ça, por aca­so em fren­te ao Gól­go­ta pa­ra ver mais ou­tro a ser sa­cri­fi­ca­do por rou­bar as ove­lhas do se­na­do. 9. O al­goz Pre­go. Es­cu­to o fer­ro fu­rar-te, pe­ne­tran­do len­to, re­che­a­do em dor. Con­tor­ce, ge­me. Aper­ta os den­tes e não vês que te cos­pem, es­car­ram? Não di­fe­ren­ci­as o cus­pe do su­or e da lá­gri­ma? Não ima­gi­nas o tra­ba­lho que é o de le­van­tar-te. És car­ne e ma­dei­ra em um só Ho­mem. 10. Al­guém aos pés do madeiro Se­gui pas­so a pas­so tu­as ver­da­des, con­tra­di­zen­do mi­nhas men­ti­ras. Su­pli­cas o fim, co­mo não sou­bes­se ser o co­me­ço. És Gen­te quan­do te que­ri­am Fi­lho. Es­tás com se­de? O vi­na­gre a quei­mar-te, ex­pul­sa as fe­zes dos ho­mens e per­do­a­os quan­do de­vi­as odiá-los. 11. Arimatéia No ru­far dos tro­vões os par­cos ou­vin­tes de teu úl­ti­mo sus­pi­ro des­cem-te nu en­vol­to por chu­va ra­la. Na­da nos res­ta, a não ser a vi­gí­lia. 12. Mãe To­ma o teu fru­to, Mu­lher. Em­ba­la-o na der­ra­dei­ra can­ção de ni­nar. Aque­ce com lá­gri­mas mor­nas o resquí­cio do que é ho­je o re­ben­to proi­bi­do. Na­da se com­pa­ra à tua dor. Não im­por­ta se es­te é o Sal­va­dor ou um sim­ples Pes­ca­dor. An­tes de ser um ou ou­tro é o teu fi­lho so­fre­dor. Abra­ça-o co­mo nun­ca. Com­par­ti­lha com ele a mor­te que é um tan­to tua. 13. To­mé O ala­ri­do das es­tre­las re­ve­la, no li­mi­ar da ma­dru­ga­da, tua su­bi­da. Quem viu? To­dos e Nin­guém. 14. No Si­né­drio Pa­ra al­guns foi rou­ba­do. Pa­ra ou­tros, res­sus­ci­tou. Os dois la­dos fa­zem a mo­e­da e os olhos são fan­to­ches da al­ma: ve­em o que lhes con­vêm. E tu, es­cri­ba? Acre­di­tas em quê?

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