Sal­va­ção pa­ra uns e ou­tros

O Diario do Norte do Parana - - CULTURA -

To­das as re­li­giões pos­su­em co­mo cen­tro o ho­ri­zon­te da sal­va­ção. É ma­ra­vi­lho­sa­men­te be­lo e as­sus­ta­do­ra­men­te pre­o­cu­pan­te o que o ser hu­ma­no é ca­paz de fa­zer pa­ra ser sal­vo. Al­guns acre­di­tam que a sal­va­ção se dá por me­re­ci­men­to, ou­tros de­fen­dem que ela é gra­tui­ta, os mais neu­ró­ti­cos cre­em que me­re­ci­men­to e gra­tui­da­de são uma só e a mes­ma coi­sa, pois hão de ser sal­vos pe­la gra­ça, me­di­an­te a fé. Tal­vez, os mais sá­bi­os den­tre to­dos os pro­fe­tas se­jam aque­les que lan­çam su­as vo­zes aos qua­tro can­tos do Bra­sil, di­zen­do que a ar­te é de vi­ver da fé, mas não se sa­be fé em quê. E o bra­si­lei­ro – ex­ce­to o ri­co e o sui­ci­da – traz em sua ces­ta bá­si­ca uma do­se ca­va­lar de fé, pa­ra man­ter a es­pe­ran­ça em um ti­po de vi­da que nun­ca se che­gou a vi­ver. O que não en­ten­do – e não sei se que­ro en­ten­der – é por­que as re­li­giões que­rem sal­var as al­mas de cor­pos po­dres, ado­e­ci­dos pe­la au­sên­cia de for­ça, de go­zo, de ri­so. So­mos cor­pos que de tão do­en­tes exa­lam a co­var­dia de vi­ver um dia igual ao ou­tro, re­pe­tin­do a la­cu­na de vi­da que há no re­ló­gio pon­to, na mar­mi­ta vi­ra­da, no pon­to da cir­cu­lar. Só exis­te vi­da on­de há ri­so e fo­ra do go­zo não há sal­va­ção. Mas, o que me in­tri­ga mais e além e tan­to que mes­mo em fa­ce de mai­or en­can­to me in­tri­ga­rei ain­da ir­ri­ta­do, é do que al­guém po­de que­rer se sal­var. O ser hu­ma­no co­ra­jo­so se li­ber­tou do pe­ca­do quan­do de­ci­diu amar. Só quem ama sa­be que não exis­te amor er­ra­do, o er­ra­do é não amar. O amor jo­ga fo­ra o me­do do des­ti­no, da mor­te e da pró­pria vi­da. O amor tor­na ima­cu­la­do o co­ra­ção que ad­mi­te que não há amor er­ra­do quan­do não es­tá er­ra­do o pró­prio co­ra­ção. Há de se des­con­fi­ar de quem quer sal­var sua al­ma com a mes­ma mão que açoi­ta seu cor­po. A ame­a­ça da cul­pa tira o vi­ço da sua pe­le, apa­ga a cha­ma dos seus olhos, te ma­ta e te lança ao in­fer­no an­tes mes­mo de vo­cê mor­rer. Os po­vos uni­dos der­ru­ba­ri­am os prín­ci­pes, quei­ma­ri­am os cas­te­los e po­ri­am fim aos seus rei­na­dos. Ape­nas a co­ra­gem de quem sa­be ser po­vo é ca­paz de exor­ci­zar ca­da um dos demô­ni­os que es­tá no po­der. Por que é que eles es­tão no po­der? E por que é que tem um ma­cho man­dan­do na sua ca­sa? Por que é que tem um des­ses te olhan­do com des­pre­zo e te di­zen­do o que fa­zer? Lon­ge das mu­lhe­res não há sal­va­ção. Se me que­rem sal­var do in­fer­no, agra­de­ço, mas não há in­fer­no que me quei­ra ne­le se eu não dei­xo flo­res­cer em meu pei­to al­gu­ma no­ção de in­fer­no. In­fer­no pra mim é per­der a ha­bi­li­da­de de sen­tir em ca­da abra­ço um novo so­pro de vi­da. Per­di­ção é dei­xar de sen­tir o frio na bar­ri­ga da pai­xão e a náu­sea da an­gús­tia de es­tar pre­so na mi­nha pró­pria exis­tên­cia por con­ta de al­gum co­ti­di­a­no en­fa­do­nho. Não que­ro me sal­var de coi­sa al­gu­ma a não ser do pe­ri­go de não te ter por per­to. Que­ro que a eter­ni­da­de se­ja rir do seu sor­ri­so, for­mu­lar a di­vi­na equa­ção que sus­ten­ta o de­se­nho de seus lá­bi­os. Não que­ro um co­ral de an­jos bran­cos can­tan­do gló­ri­as nas al­tu­ras. Que um co­ral de vo­zes tu­as sus­sur­ran­do em meu ou­vi­do o man­tra fi­nal, es­tou aqui. Nun­ca se es­que­ça do que diz o can­to sa­gra­do; vi­ver é me­lhor que so­nhar. Vi­va!

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