Os dois la­dos

O Diario do Norte do Parana - - CULTURA -

Só exis­tem dois ti­pos de pes­so­as no mun­do. Is­so é uma ver­da­de. Na ver­da­de, es­sa é a úni­ca cer­te­za da vi­da. Há qu­em di­ga que a úni­ca cer­te­za da vi­da é a mor­te, mas a mor­te é al­go que não se vi­ve, ape­nas se es­pe­ra. Só exis­tem dois ti­pos de pes­so­as no mun­do: as pes­so­as que di­zem temer a mor­te e as ou­tras que não se im­por­tam. Eu, par­ti­cu­lar­men­te, creio que temer se­ja sem­pre mais co­var­de. Por con­vic­ção, até te­mo, mas não con­to. O mun­do é di­vi­di­do en­tre aque­les que gos­tam de Har­ry Pot­ter e aque­les que o des­pre­zam, en­tre as pes­so­as que co­mem a co­xi­nha pe­la pon­ta e as pes­so­as que co­mem a co­xi­nha pe­la ba­se. Ima­gi­no, ape­nas, que qu­em gos­ta de Har­ry Pot­ter de­ve co­mer a co­xi­nha a par­tir de sua ba­se. Ima­gi­no, ape­nas, mas ima­gi­no as­sen­ta­do na mais am­pla ob­vi­e­da­de. Qual­quer pes­soa do­ta­da de al­gu­ma ra­ci­o­na­li­da­de sa­be que é um con­tras­sen­so as­sis­tir Har­ry Pot­ter e co­mer a co­xi­nha pe­la pon­ta. Não acre­di­to que is­so pos­sa ser me­nos do que uma for­ma de ex­pres­são es­qui­zo­frê­ni­ca. Só exis­tem as pes­so­as que são de es­quer­da e aque­las ou­tras que são de di­rei­ta. E as pes­so­as que são de di­rei­ta de­vem, ne­ces­sa­ri­a­men­te, an­dar com um ca­sa­co aco­mo­da­do so­bre os om- bros, res­guar­da­dos por um nó bem da­do so­bre seu pei­to. O nó do ca­sa­co é uma es­pé­cie de car­tei­ri­nha. As pes­so­as de es­quer­da de­vem dei­xar a bar­ba cres­cer. Mes­mo as mu­lhe­res. Até por­que a pes­soa de es­quer­da é proi­bi­da de ser vai­do­sa. Es­tá no pac­to de san­gue que fa­zem com o ca­bri­to. Sim, aos ri­cos o bo­de, aos po­bres o ca­bri­ti­nho em sua pri­são de ven­tre. Vo­cê já viu al­gum xam­pu do Che no mer­ca­do? Al­gum io­gur­te do Fi­del? Não. Exis­te xam­pu da tur­ma da Monica e do Bob es­pon­ja, mas nunca vi al­gu­ma lo­ção com a ima­gem do Hu­go Chá­vez. Os es­quer­dis­tas são en­si­na­dos no QG que la­var o ca­be­lo é ali­e­na­ção. Es­pe­ci­al­men­te du­ran­te a fa­cul­da­de. Acho que tem al­go a ver, sim. Tal­vez se­ja até ge­né­ti­co. Mas, em ge­ral, to­do es­quer­dis­ta tam­bém é abor­tis­ta e ma­co­nhis­ta, mes­mo que se­ja um pa­dre ca­tó­li­co, sem que se es­que­ça do ca­be­lo ole­o­so. Só exis­tem dois ti­pos de pes­so­as no mun­do, aque­las que têm me­do da mor­te e aque­las que ain­da não pen­sa­ram di­rei­to so­bre sua ine­vi­ta­bi­li­da­de. As pes­so­as de es­quer­da es­pe­ram an­si­o­sa­men­te pe­lo bol­sa-cai­xão, en­quan­to que os de di­rei­ta es­tão re­co­lhen­do as­si­na­tu­ras – de seus su­bor­di­na­dos – pa­ra a pro­po­si­ção do pro­je­to “mi­nha tum­ba, meu már­mo­re”. As pes­so­as que fa­lam bem do Lu­la, fa­lam mal do Mo­ro, e as pes- so­as que fa­lam bem do Mo­ro, fa­lam mal do Lu­la. To­das elas tem me­do da mor­te. As­su­min­do ou – co­mo eu – não, há al­go ali a se temer. A fi­lha que eu não te­nho cer­to dia me per­gun­tou o quan­to eu a ama­va, e eu não sou­be res­pon­der. Exa­ta­men­te por is­so não a te­nho, por ques­tão de não sa­ber. Mas eu não sei amar nin­guém. A mim se­ria jus­to que to­dos vis­sem que im­por­ta mais vi­ver do que amar. Mais do que que­rer vi­ver sem­pre ao teu la­do, que­ro di­vi­dir uma úni­ca co­xi­nha con­ti­go, mas di­vi­di-la com to­do o mais san­to pra­zer. Não que­ro ser es­se ti­po de gen­te que é um dos dois la­dos do mun­do. O meu la­do é sem­pre o mais po­bre. O po­bre é o pro­fe­ta de sua pró­pria li­ber­ta­ção. O ri­co é es­cra­vo da li­ber­da­de que pensa ter. Temer é te­me­rá­rio. Não que­ro es­tar em um dos la­dos. Que­ro es­tar do la­do de qu­em vi­ve a vi­da de ver­da­de, on­de ca­da um é um ape­nas, e não seu gru­po; o la­do on­de se espreita a mor­te além da es­qui­na, mas não di­mi­nui o pas­so por me­do de mor­rer. Que­ro ou­vir as mú­si­cas mais bo­ni­tas e sen­tir o mais per­fei­to to­que de seus lá­bi­os. Que­ro o la­do de qu­em não se di­vi­de em la­dos, o la­do de qu­em sa­be que tu­do faz par­te do mes­mo. Meu mes­mo é vo­cê. Meu ou­tro é vo­cê.

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