A ex­pli­ca­ção

O Estado de S. Paulo - - Primeira Página - LUIS FER­NAN­DO VERISSIMO ES­CRE­VE ÀS QUIN­TAS-FEI­RAS E AOS DO­MIN­GOS

Ma­ri­do fo­ge no car­na­val e vol­ta, na quin­ta-fei­ra, com uma ex­pli­ca­ção ri­dí­cu­la. Is­so é pu­ra nos­tal­gia.

Ele só che­gou em ca­sa na quin­ta-fei­ra. Ber­mu­da su­ja, ca­mi­se­ta de um blo­co da Bahia. Qu­an­do ia co­me­çar a fa­lar, a mu­lher le­van­tou a mão e dis­se:

– Es­pe­ra. Vou cha­mar as cri­an­ças.

As “cri­an­ças”, na ver­da­de ti­nham 18 e 17 anos. Olha­ram o pai com cu­ri­o­si­da­de.

– On­de vo­cê an­dou, pa­pai?

– Eu...

A mu­lher o de­te­ve ou­tra vez. Foi cha­mar os vi­zi­nhos. Só qu­an­do já ti­nha uma dú­zia de pes­so­as den­tro da sa­la, in­cluin­do o seu Eu­cli­des do an­dar de bai­xo, ele po­de co­me­çar a fa­lar. Mas es­tra­nhou a ca­ra da mu­lher. Não era a ca­ra de uma mu­lher in­dig­na­da com um ma­ri­do que de­sa­pa­re­ce­ra de ca­sa na sex­ta-fei­ra an­tes do car­na­val e só vol­ta­ra na quin­ta, de ber­mu­da su­ja e ca­mi­se­ta do “Mu­que­ca com fa­ro­fa”. Ela es­ta­va sor­rin­do. Ela es­ta­va olhan­do pa­ra ele com ca­ri­nho.

*

– Que ca­ra é es­sa, mu­lher?

– Vo­cê não exis­te, sa­bia?

– Co­mo, não exis­to?

– Vo­cê é uma ane­do­ta an­ti­ga. Ma­ri­do que fo­ge no car­na­val e vol­ta com uma ex­pli­ca­ção ri­dí­cu­la. Is­so é pu­ra nos­tal­gia. Só vo­cê, mes­mo...

– Dei­xa ele dar a ex­pli­ca­ção, mãe. Ele he­si­tou. De­pois con­tou que ti­nha si­do se­ques­tra­do por ali­e­ní­ge­nas e, qu­an­do vi­ra, es­ta­va atrás de um trio elé­tri­co em Sal­va­dor. Fo­ra tra­zi­do de vol­ta pe­los mes­mos ali­e­ní­ge­nas.

*

Foi aplau­di­do. O seu Eu­cli­des, do an­dar de bai­xo, era o mais emo­ci­o­na­do. Aqui­lo lhe lem­bra­va o seu tem­po, qu­an­do ele tam­bém es­ca­pa­va no car­na­val e de­pois pre­ci­sa­va in­ven­tar uma des­cul­pa pa­ra a pa­troa. Bons tem­pos. Não vol­ta­vam mais. A não ser as­sim, co­mo re­cons­tru­ção his­tó­ri­ca, pa­ra as cri­an­ças.

*

A mu­lher es­ta­va abra­çan­do o ma­ri­do, di­zen­do “Vá to­mar seu ba­nho, vá”. Ele de­via es­tar can­sa­do, de­pois de pu­lar to­dos aque­les di­as atrás de um trio elé­tri­co. Sem fa­lar nas vi­a­gens de ida e vol­ta, na es­pa­ço­na­ve. Só ele mes­mo...

Qu­an­do ar­rom­ba­ram a por­ta do ba­nhei­ro, ho­ras de­pois, ele ti­nha saí­do pe­la ja­ne­la. Ain­da bem que a na­ve dos ali­e­ní­ge­nas fi­ca­ra por per­to. Ele iria pe­gar no mí­ni­mo mais três di­as em Sal­va­dor, on­de, co­mo se sa­be, o car­na­val nun­ca aca­ba.

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