Ará­bia Sau­di­ta

O Estado de S. Paulo - - Internacional - GILLES LAPOUGE EMAIL: GILLES.LAPOUGE@WANADOO.FR / TRA­DU­ÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Prín­ci­pe her­dei­ro to­ma me­di­das pa­ra usar lo­go a co­roa.

Em ju­nho, o ve­lho prín­ci­pe da Ará­bia Sau­di­ta, sen­tin­do-se can­sa­do, trans­fe­riu to­dos os po­de­res pa­ra seu fi­lho Moha­med Bin Sal­man, que, ao con­trá­rio, não se sen­te nem um pou­co fa­ti­ga­do. Tem ape­nas 32 anos. E se agi­ta. Há pou­cos di­as, na lu­xu­o­sa ca­pi­tal sau­di­ta, Ri­ad, on­de pro­li­fe­ram os prín­ci­pes, Bin Sal­man or­de­nou a pri­são de de­ze­nas de­les, co­mo tam­bém de vá­ri­os mi­nis­tros, to­dos con­fi­na­dos no Pa­la­ce Carl­ton Ritz.

Bin Sal­man deu iní­cio as­sim à mo­der­ni­za­ção des­se rei­no car­co­mi­do e gro­tes­co na sua re­ve­rên­cia ao pas­sa­do. No meio do ano, as mu­lhe­res fo­ram au­to­ri­za­das a con­du­zir seu car­ro. Uma re­vo­lu­ção! A re­li­gião tam­bém pas­sa por um re­ju­ve­nes­ci­men­to. Bin Sal­man a res­pei­ta, mas pre­ten­de dei­xar pa­ra trás as raí­zes “waha­bi­tas” do re­gi­me. Sua ideia é fo­men­tar um Is­lã mo­de­ra­do, aber­to às ou­tras re­li­giões e sen­sí­vel aos eflú­vi­os do mun­do. Hos­til aos ex­tre­mis­mos, ele de­cla­rou: “Des­trui­re­mos o mo­do de pen­sar dos ex­tre­mis­tas”.

Ou­tro de­se­jo de mo­der­ni­da­de: a eco­no­mia pros­pe­ra, mas é iner­te, com ba­se ape­nas nas re­cei­tas do pe­tró­leo. Ele de­se­ja cri­ar uma eco­no­mia vi­bran­te, ar­ris­ca­da, ima­gi­na­ti­va. Subs­ti­tuir a eco­no­mia de fun­ci­o­ná­ri­os por uma de em­pre­sá­ri­os.

Só po­de­mos nos con­gra­tu­lar com es­sa “re­to­ma­da” da Ará­bia Sau­di­ta e sua re­vi­ta­li­za­ção cul­tu­ral. Em com­pen­sa­ção, quan­do nos in­ter­ro­ga­mos so­bre as de­ci­sões di­plo­má­ti­cas do jo­vem Bin Sal­man, fi­ca­mos atô­ni­tos. O novo ho­mem for­te, nes­te do­mí­nio es­sen­ci­al e pe­ri­go­so, re­pro­duz as mes­mas in­con­gruên­ci­as de seus pre­de­ces­so­res.

Exem­plo: na se­ma­na pas­sa­da o pri­mei­ro-mi­nis­tro do Lí­ba­no, Sa­ad Ha­ri­ri, foi cha­ma­do a Ri­ad e, mais tar­de, com voz dé­bil, leu uma de­cla­ra­ção ab­sur­da anun­ci­an­do sua de­mis­são do car­go e afir­man­do que re­tor­na­rá ao Lí­ba­no. Dez di­as de­pois, Ha­ri­ri con­ti­nua em Ri­ad.

A in­for­ma­ção é que ele es­tá em li­ber­da­de, vol­ta­rá a Bei­ru­te, mas os des­men­ti­dos e as pro­mes­sas não con­ven­cem. Se­gun­do es­pe­ci­a­lis­tas, o pre­miê li­ba­nês é uma ma­ri­o­ne­te do prín­ci­pe Sal­man. E, ao que pa­re­ce, a “ope­ra­ção Ha­ri­ri” se­ria uma no­va má­qui­na de gu­er­ra di­ri­gi­da con­tra o ini­mi­go da mo­nar­quia sau­di­ta: o Irã, que tem to­dos os de­fei­tos, mas prin­ci­pal­men­te dois.

Pri­mei­ro, é um país po­de­ro­so que de­sa­fia o do­mí­nio dos Saud so­bre uma vas­ta re­gião do Ori­en­te Mé­dio. Em se­gun­do lu­gar, aos olhos sau­di­tas, o Irã co­me­te o pe­ca­do de não ser um país ára­be, ser mu­çul­ma­no xi­i­ta – e não su­ni­ta co­mo a Pe­nín­su­la Ará­bi­ca. Se o pri­mei­ro-mi­nis­tro li­ba­nês foi sa­cri­fi­ca­do por Moha­med Bin Sal­man é por­que go­ver­na o Lí­ba­no com apoio do Hez­bol­lah li­ba­nês, mi­lí­cia xi­i­ta ami­ga de Te­e­rã.

Este não é o úni­co des­li­ze co­me­ti­do em po­lí­ti­ca ex­ter­na pe­lo novo ho­mem for­te de Ri­ad. Em ju­lho, ele pro­vo­cou a ex­co­mu­nhão do mi­nús­cu­lo e riquís­si­mo Ca­tar. For­mou uma ali­an­ça de mo­nar­qui­as ára­bes pa­ra es­tran­gu­lar o emi­ra­do, que in­cluiu um em­bar­go que de­ve­ria ser le­tal pa­ra o rei­no. Foi um fra­cas­so. O mi­nús­cu­lo Ca­tar re­sis­tiu e con­vo­cou sol­da­dos tur­cos co­mo reforço.

A es­sa lis­ta de hor­ro­res é pre­ci­so acres­cen­tar ou­tro, bem mais gra­ve: Moha­med Bin Sal­man, quan­do foi mi­nis­tro da De­fe­sa, em 2015, ini­ci­ou a gu­er­ra do Iê­men (pe­que­na fai­xa de ter­ra ao sul da Pe­nín­su­la Ará­bi­ca). Ata­cou as tri­bos dos houthis, que con­tro­lam Sa­naa, a ca­pi­tal e a mai­or ci­da­de do Iê­men, no nor­te do país. Os aviões sau­di­tas bom­bar­dei­am a re­gião vi­o­len­ta­men­te. Ma­tam. Mas os houthis, po­vo de mon­ta­nha, re­sis­tem.

Hoje, o pe­que­no país vem sen­do es­fo­la­do vi­vo, des­mem­bra­do en­tre os houthis mi­se­rá­veis e os sun­tu­o­sos sau­di­tas. Os mas­sa­cres se su­ce­dem, pro­vo­can­do uma ca­tás­tro­fe sa­ni­tá­ria sem pre­ce­den­tes, acres­ci­da há al­guns me­ses de uma epi­de­mia de có­le­ra.

A ação lan­ça­da con­tra o Iê­men pe­lo bri­lhan­te Bin Sal­man vem se so­mar aos er­ros co­me­ti­dos. Ela se ar­ras­ta e faz le­van­tar a opi­nião pú­bli­ca con­tra es­se de­sas­tre. A ONU já de­nun­ci­ou o ba­nho de san­gue.

As po­tên­ci­as ára­bes va­ci­lam. A ideia da Ará­bia Sau­di­ta, no iní­cio, era cons­ti­tuir uma for­te co­a­li­zão con­tra os re­bel­des houthis. Foi um fra­cas­so, sem dú­vi­da, em ra­zão do hor­ror dos com­ba­tes. Tur­quia, Ar­gé­lia, Tu­ní­sia – e até mes­mo o Pa­quis­tão – não em­bar­ca­ram nes­sa aven­tu­ra. Pra­ti­ca­men­te so­zi­nho, o Egi­to, do ma­re­chal Ab­del Fa­tah al-Sis­si, par­ti­ci­pa da ali­an­ça de­se­ja­da por Ri­ad.

Bin Sal­man quer mo­der­ni­zar o rei­no sau­di­ta, mas sua po­lí­ti­ca ex­ter­na é a mes­ma de an­tes

É CORRESPONDENTE EM PA­RIS

FAYEZ NURELDINE/ AFP

Bin Sal­man. Novo ho­mem for­te tem co­me­ti­do al­guns des­li­zes

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