Ques­tão de tem­po

Ain­da é um mis­té­rio qual se­rá a es­tra­té­gia de Ma­du­ro pa­ra con­ven­cer cre­do­res a re­fi­nan­ci­ar dí­vi­da ex­ter­na

O Estado de S. Paulo - - Internacional -

Os in­ves­ti­do­res não ques­ti­o­nam mais se ha­ve­rá um de­fault da dí­vi­da so­be­ra­na da Ve­ne­zu­e­la, mas quan­do is­so vai ocor­rer. No dia 2, Ni­col ás Ma­du­ro anun­ci­ouo “re­fi­nan­ci­a­men­to e re­es­tru­tu­ra­ção” da dí­vi­da ex­ter­na cu­joa US $105 bi­lhões. Os títulos do go­ver­no já­são co­ta­dos des eu va­lor. O bre­ve co­mu­ni­ca­do do pre­si­den­te foi in­con­clu­si­vo qu­an­to às me­di­das con­cre­tas que ado­ta­rá.

As san­ções de­cre­ta­das pe­los EUA im­pe­dem en­ti­da­des ame­ri­ca­nas de com­prar qual­quer novo tí­tu­lo de dí­vi­da emi­ti­do pela Re­pú­bli­ca da Ve­ne­zu­e­la com­pra­zo su­pe­ri­o­ra 30 di­as, ou 90 no ca­so da es­ta­tal de pe­tró­leo Pe­tro­le­os de Ve­ne­zu­e­la (PDVSA). É um pro­ble­ma se, di­ga­mos, a re­es­tru­tu­ra­ção en­vol­ver uma tro­ca de títulos não res­ga­ta­dos por no­vos pa­péis emi­ti­dos. Te­o­ri­ca­men­te, o pre­si­den­te Do­nald Trump po­de­ria mo­di­fi­ca­ras re­gras, mas ain­da im­pe­di­ra re­mes sa­de no­vos re­cur­sos fi­nan­cei­ros a Ma­du­ro. Mas, no momento, ne­nhu­ma pro­pos­ta de mu­dan­ças no pa­co­te de san­ções foi ven­ti­la­da.

Ca­so a Ve­ne­zu­e­la fi­que sem flu­xo de cai­xa e não ob­ti­ver um acor­do, dei­xa­rá de pa­gar su­as dí­vi­das. O que é ar­ris­ca­do, pois a PDVSA de­tém pro­pri­e­da­des va­li­o­sas no ex­te­ri­or, in­cluin­do a re­fi­na­ria Cit­go nos EUA, e uma fro­ta de pe­tro­lei­ros. No ca­so de um de­fault, os cre­do­res po­dem se apo­de­rar des­ses ati­vos, o que per­tur­ba­rá se­ve­ra­men­te as ope­ra­ções da es­ta­tal e de­vas­ta­rá ain­da mais a eco­no­mia do país, que en­co­lheu mais de um ter­ço des­de 2013.

Por­tan­to, o plano de Ma­du­ro – se é que ele tem – é um mis­té­rio. No dia em que anun­ci­ou o re­fi­nan­ci­a­men­to, afir­mou tam­bém que a PDVSA efe­tu­a­ria o pa­ga­men­to fi­nal de US$ 1,2 bi­lhão de um tí­tu­lo ven­ci­do. O di­nhei­ro ain­da de­ve che­gar às mãos dos cre­do­res, mas a mai­or par­te do va­lor te­ria de sair das con­tas da es­ta­tal. As san­ções ame­ri­ca­nas de­sen­co­ra­ja­ram os ban­cos, pois cri­a­ram obs­tá­cu­los lo­gís­ti­cos que atra­sam as trans­fe­rên­ci­as de re­cur­sos.

Se a Ve­ne­zu­e­la não pre­ten­de res­ga­tar sua dí­vi­da, o va­lor extra de US$ 1,2 bi­lhão cer­ta­men­te vi­ria a ca­lhar. Uma in­ter­pre­ta­ção da mis­te­ri­o­sa es­tra­té­gia de Ma­du­ro é que ele tal­vez pre­ten­da con­ti­nu­ar a amor­ti­zar a dí­vi­da da PDVSA, mas não as con­traí­das pe­lo Es­ta­do. É a PDVSA que de­tém ati­vos vul­ne­rá­veis no ex­te­ri­or. E os títulos da em­pre­sa, mais do que os da Re­pú­bli­ca, não con­têm cláu­su­las de “ação co­le­ti­va”, o que­torn aim pos­sí­vel for­çar cre­do­res re­ni­ten­tes a um acor­do acei­to por uma mai­o­ria de de­ten­to­res de títulos.

Mas os tri­bu­nais no ex­te­ri­or pro­va­vel­men­te re­pro­va­rão qual­quer ten­ta­ti­va de Ma­du­ro de es­co­lher os cre­do­res que dei­xa­rá de la­do. Outra te­o­ria, de Rafael Guz­mán, de­pu­ta­do de opo­si­ção, é que Ma­du­ro tal­vez pre­ten­da fa­zer uma li­qui­da­ção dos títulos so­be­ra­nos. A Ve­ne­zu­e­la,ou seus pa­tro­ci­na­do­res es­tran­gei­ros, es­pe­ci­al­men­te Rús­sia e Chi­na, po­de­ri­am ad­qui­ri-los apre­ços bai­xos e o país con­se­gui­ria sal­dar sua dí­vi­da, ou dei­xá-la nas mãos de ali­a­dos.

Além de abu­sar dos pe­río­dos de gra­ça es­ta­be­le­ci­dos nos con­tra­tos, a Ve­ne­zu­e­la tam­bém des­cum­priu um pa­ga­men­to. E seus títulos ain­da vêm sen­do ne­go­ci­a­dos, na mai­or par­te, a US$ 0,20 e US$ 0,30 – uma enor­me re­du­ção, mas bem aci­ma do va­lor de um dí­gi­to no qual uma dí­vi­da não pa­ga com frequên­cia nau­fra­ga. Em par­te es­ses pre­ços re­fle­tem os fun­da­men­tos de lon­go pra­zo da sua eco­no­mia. O país tem as mai­o­res re­ser­vas de pe­tró­leo com­pro­va­das do mun­do. Um go­ver­no que ado­tas­se po­lí­ti­cas econô­mi­cas sen­sa­tas pro­va­vel­men­te con­se­gui­ria pa­gar su­as dí­vi­das em pou­cos anos.

Mas os pre­ços re­la­ti­va­men­te al­tos su­ge­rir que al­guns in­ves­ti­do­res acham que Ma­du­ro es­tá ble­fan­do. Os mai­o­res pa­ga­men­tos que de­ve­ri­am ser fei­tos pela Ve­ne­zu­e­la em 2017 es­tão atra­sa­dos e o pre­ço do pe­tró­leo su­biu re­cen­te­men­te. Além dis­so, or­ga­nis­mos con­tro­la­dos por rus­sos já for­ne­ce­ram pe­lo­me no sUS $17 bi­lhões de fi­nan­ci­a­men­to ao país. Se Pu­tin per­ce­ber que há um avan­ta­gem co­mer­ci­al pa­ra a Rús­sia es­co­rar seu ali­a­do an­ti­a­me­ri­ca­no, m es­mo­ques eja ao cus­to­de al­guns bi­lhões de dó­la­res, as­su­mi­ra dí­vi­da ve­ne­zu­e­la­na por um va­lor bai­xo po­de­rá aca­bar se tor­nan­do um óti­mo ne­gó­cio.

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