Com a tro­ca de po­der, do PT pa­ra Jair Bol­so­na­ro, mu­da a si­tu­a­ção do italiano Bat­tis­ti.

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - ELI­A­NE CAN­TA­NHÊ­DE E-MAIL: ELI­A­NE.CANTANHEDE@ESTADAO.COM TWIT­TER: @ECANTANHEDE ELI­A­NE CAN­TA­NHÊ­DE ES­CRE­VE ÀS TERÇAS E SEX­TAS-FEI­RAS E AOS DO­MIN­GOS

De­pois de uma pro­fu­são de ma­ni­fes­ta­ções equi­vo­ca­das e até cho­can­tes na po­lí­ti­ca ex­ter­na, e de co­me­çar a le­var o tro­co, o pre­si­den­te elei­to, Jair Bol­so­na­ro, já tem uma car­ta na man­ga pa­ra vi­rar o jogo: a ex­tra­di­ção do ter­ro­ris­ta Ce­sa­re Bat­tis­ti. A ideia agra­da a Itá­lia e, por ex­ten­são, a to­da a Europa. E é mais uma es­to­ca­da no PT e na es­quer­da bra­si­lei­ra, com apoio do elei­to­ra­do con­ser­va­dor de Bol­so­na­ro.

A te­se tem o apoio do go­ver­no de Mi­chel Te­mer, pro­fes­sor de Di­rei­to Cons­ti­tu­ci­o­nal. Além de­le, os mi­nis­té­ri­os da Jus­ti­ça e da Re­la­ções Ex­te­ri­o­res já ace­na­ram com o apoio à ex­tra­di­ção de Bat­tis­ti, não por ques­tões de le­ga­li­da­de e di­plo­ma­cia.

Há um pro­ble­ma: a de­ci­são de­pen­de do Su­pre­mo e po­de de­mo­rar, por­que não tem con­sen­so no ple­ná­rio, quan­do os 11 mi­nis­tros pa­re­cem en­fim fa­lar a mesma lín­gua, na de­fe­sa da de­mo­cra­cia, das instituições e do pró­prio Su­pre­mo.

No go­ver­no Lu­la, tan­to o Ita­ma­raty qu­an­to o Mi­nis­té­rio da Jus­ti­ça, via Co­mi­tê Na­ci­o­nal pa­ra Re­fu­gi­a­dos (Co­na­re), re­co­men­da­ram a ex­tra­di­ção de Bat­tis­ti, con­de­na­do à pri­são per­pé­tua no seu país por qua­tro as­sas­si­na­tos quan­do in­te­gra­va um mo­vi­men­to ter­ro­ris­ta e re­fu­gi­a­do no Bra­sil des­de 2004.

O en­tão mi­nis­tro da Jus­ti­ça, Tar­so Gen­ro, do PT, me­xeu mun­dos e fun­dos, mu­dou a po­si­ção do Co­na­re, des­con­si­de­rou a do Ita­ma­raty, con­ven­ceu Lu­la e man­te­ve Bat­tis­ti no Bra­sil, co­mo “pre­so po­lí­ti­co”, não um as­sas­si­no jul­ga­do pe­la Jus­ti­ça ita­li­a­na.

Na Itá­lia, mo­bi­li­zou Jus­ti­ça, po­lí­cia, go­ver­no, par­la­men­to e opi­nião pú­bli­ca. No Bra­sil, vi­rou de­ba­te na­ci­o­nal e foi pa­rar no Su­pre­mo, que che­gou a uma de­ci­são sa­lomô­ni­ca: au­to­ri­zou a ex­tra­di­ção de Bat­tis­ti, mas de­le­gan­do ao pre­si­den­te Lu­la a de­ci­são fi­nal.

No apa­gar das lu­zes do seu go­ver­no, Lu­la con­ce­deu o re­fú­gio ao italiano, dei­xan­do crí­ti­cas no meio ju­rí­di­co, se­que­las na re­la­ção com a Itá­lia e uma nu­vem de in­cer­te­zas so­bre pró­prio Bat­tis­ti, ago­ra ca­sa­do, pai e com ocu­pa­ção re­gu­lar.

A Itá­lia re­ta­li­ou com lu­vas de pe­li­ca, quan­do o ex-di­re­tor do BB Hen­ri­que Piz­zo­la­to fu­giu pa­ra o país após con­de­na­do no men­sa­lão e aca­bou pre­so. Pe­la re­ci­pro­ci­da­de, re­fú­gio de Bat­tis­ti no Bra­sil se­ria igual a re­fú­gio de Piz­zo­la­to na Itá­lia, e seus ad­vo­ga­dos ale­ga­vam que as pri­sões bra­si­lei­ras eram me­di­e­vais (o que não é de to­do men­ti­ra) e ele aca­ba­ria mor­to (im­pro­vá­vel).

Em vez da re­ci­pro­ci­da­de fria e prag­má­ti­ca, a Itá­lia cum­priu to­dos os trâ­mi­tes le­gais e ex­tra­di­tou Piz­zo­la­to pa­ra o Bra­sil, on­de ele cum­priu pe­na, saiu vi­vi­nho da Silva da ca­deia em 2017 e vol­ta à to­na co­mo ar­gu­men­to a fa­vor de de­vol­ver Bat­tis­ti pa­ra Ro­ma.

Sa­be-se lá co­mo os mi­nis­tros do Su­pre­mo vo­ta­rão. O ar­gu­men­to con­tra a ex­tra­di­ção é que a de­ci­são de Lu­la foi um “ato de so­be­ra­nia na­ci­o­nal” e não po­de ser re­vis­ta pe­la cor­te. O ar­gu­men­to a fa­vor é que, se o STF de­le­gou a Lu­la a de­ci­são fi­nal, por que não de­le­ga­ria ago­ra pa­ra Te­mer, até 31 de de­zem­bro, ou pa­ra Bol­so­na­ro, a par­tir de en­tão?

O jul­ga­men­to de Bat­tis­ti e seus des­do­bra­men­tos, qual­quer que se­ja o des­fe­cho, ten­dem a ocu­par a mí­dia, uma es­quer­da em bai­xa e uma di­rei­ta em al­ta. Em vez de fa­lar em sair da ONU e do Acor­do de Pa­ris, dar um che­ga-pra-lá na Chi­na e no Mer­co­sul e mu­dar a em­bai­xa­da pa­ra Je­ru­sa­lém, Bol­so­na­ro po­de­rá ba­da­lar su­as di­fe­ren­ças com o PT.

A União Eu­ro­peia, já sa­tis­fei­ta com o re­cuo na fu­são de Agri­cul­tu­ra e Meio Am­bi­en­te, abai­xa­ria o tom e a apre­en­são com Bol­so­na­ro. No Bra­sil, os bol­so­na­ris­tas en­tra­ri­am em êx­ta­se, a es­quer­da fa­ria ba­ru­lho e o meio ju­rí­di­co se di­vi­di­ria. Bat­tis­ti, por­tan­to, é can­di­da­to a troféu.

Com a tro­ca de po­der, do PT pa­ra Bol­so­na­ro, mu­da a si­tu­a­ção do italiano Bat­tis­ti

Ci­ro. Ao dis­pu­tar a liderança da opo­si­ção, Ci­ro Go­mes bate no PT e em Lu­la com a mesma ên­fa­se com que, na cam­pa­nha, ata­ca­va o PSDB e FHC pa­ra de­fen­der... o PT e Lu­la.

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