Pá­gi­na em bran­co

O Estado de S. Paulo - - Metrópole - RENATA CAFARDO E-MAIL: renata.cafardo@estadao.com É RE­PÓR­TER ES­PE­CI­AL DO ES­TA­DO E FUN­DA­DO­RA DA AS­SO­CI­A­ÇÃO DE JOR­NA­LIS­TAS DE EDU­CA­ÇÃO (JEDUCA)

Edi­to­ras e au­to­res de li­vros di­dá­ti­cos não ima­gi­nam que fu­tu­ro te­rão no go­ver­no que co­me­ça em 1.º de ja­nei­ro. De­cla­ra­ções de mem­bros da equi­pe do pre­si­den­te elei­to, Jair Bol­so­na­ro (PSL), so­bre uma al­me­ja­da “re­vi­são da bi­bli­o­gra­fia” dei­xou o mer­ca­do em es­ta­do de aler­ta. So­ma-se a is­so a pos­si­bi­li­da­de de apro­va­ção do pro­je­to Es­co­la sem Par­ti­do, que tam­bém te­ria im­pac­to nos ma­te­ri­ais.

To­dos os li­vros de to­das as es­co­las pú­bli­cas do País são com­pra­dos pe­lo Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção (MEC). É uma me­ga­o­pe­ra­ção, com nú­me­ros anu­ais que gi­ram em tor­no de 150 mi­lhões de li­vros e R$ 1 bi­lhão. Há edi­to­ras cu­jo vín­cu­lo com o pro­gra­ma é de vi­da ou mor­te. Pa­ra al­gu­mas, as ven­das pa­ra o go­ver­no re­pre­sen­tam 50% do fa­tu­ra­men­to.

Ape­sar da com­pra uni­fi­ca­da, ca­da es­co­la tem di­rei­to a es­co­lher o ma­te­ri­al que vai uti­li­zar com os alu­nos, le­van­do em con­ta seu pro­je­to pe­da­gó­gi­co e di­fe­ren­ças re­gi­o­nais. As op­ções de li­vros são apre­sen­ta­das a pro­fes­so­res e diretores por um ma­nu­al com re­se­nhas.

An­tes disso, es­sa bi­bli­o­gra­fia pas­sa pe­lo cri­vo de es­pe­ci­a­lis­tas que se­le­ci­o­nam quais li­vros, en­tre os ins­cri­tos, po­de­rão par­ti­ci­par do Pro­gra­ma Na­ci­o­nal do Li­vro Di­dá­ti­co (PNLD), co­mo é cha­ma­do pe­lo MEC. Os edi­tais do go­ver­no dei­xam cla­ro que os con­teú­dos não po­dem ex­pres­sar pre­con­cei­tos ou er­ros con­cei­tu­ais, por exem­plo. No pro­gra­ma de 2018, que se­le­ci­o­na li­vros pa­ra o en­si­no médio, há a exi­gên­cia de que se abor­de “a te­má­ti­ca de gê­ne­ro, vi­san­do à cons­tru­ção de uma so­ci­e­da­de não se­xis­ta, jus­ta e igua­li­tá­ria, in­clu­si­ve no que diz res­pei­to ao com­ba­te à ho­mo e trans­fo­bia”.

Nes­te ano, 98 co­le­ções fo­ram apro­va­das – 58% das can­di­da­tas de vá­ri­as edi­to­ras do País. Pa­ra 2019, o de­sa­fio até en­tão era o de adap­tar o ma­te­ri­al à Ba­se Na­ci­o­nal Co­mum Cur­ri­cu­lar, apro­va­da no fin­zi­nho de 2017, que in­di­ca as no­vas di­re­tri­zes pa­ra ca­da ano do en­si­no infantil e fun­da­men­tal. Ago­ra, de­cla­ra­ções de mem­bros do no­vo go­ver­no pa­re­cem in­di­car que po­dem ser ne­ces­sá­ri­as mais mu­dan­ças.

O que mais pre­o­cu­pa são as fa­las do ge­ne­ral Alés­sio Ribeiro Sou­to, que se apre­sen­ta­va co­mo mem­bro do gru­po que dis­cu­tia edu­ca­ção no fu­tu­ro go­ver­no. Ao Es­ta­do, ele dis­se que “é mui­to for­te a ideia” de se fa­zer am­pla re­vi­são das bi­bli­o­gra­fi­as pa­ra evi­tar que cri­an­ças se­jam ex­pos­tas a ide­o­lo­gi­as e con­teú­do im­pró­prio. Afir­mou ain­da que os pro­fes­so­res de­ve­ri­am con­tar a “verdade” so­bre o “re­gi­me de 1964”.

A en­tre­vis­ta foi an­tes da eleição e o ge­ne­ral não apa­re­ceu na lis­ta da equi­pe de tran­si­ção, divulgada semana pas­sa­da, o que po­de­ria de­mons­trar en­fra­que­ci­men­to de su­as de­cla­ra­ções. Mas ele con­ti­nua ci­ta­do en­tre as inú­me­ras es­pe­cu­la­ções pa­ra che­fi­ar o MEC.

Re­pre­sen­tan­tes de as­so­ci­a­ções do se­tor têm di­to que mu­dan­ças ar­bi­trá­ri­as na bi­bli­o­gra­fia não serão fei­tas sem re­sis­tên­cia. De­fen­dem o ób­vio: que os ma­te­ri­ais se­jam sempre pro­du­zi­dos com ba­se em pes­qui­sas com ri­gor ci­en­tí­fi­co e aca­dê­mi­co. Mesmo as­sim, a re­pór­ter do Es­ta­do Isa­be­la Pa­lha­res apu­rou que há au­to­res que já co­me­ça­ram a pra­ti­car uma es­pé­cie de au­to­cen­su­ra, ti­ran­do ter­mos co­mo gê­ne­ro e se­xu­a­li­da­de em li­vros que pre­ten­dem sub­me­ter à ava­li­a­ção do MEC. Ou mesmo ex­cluin­do a pa­la­vra “gol­pe” ao fa­lar da di­ta­du­ra mi­li­tar.

O que se es­pe­ra de edi­to­ras, au­to­res e do go­ver­no é que nem in­te­res­ses fi­nan­cei­ros nem ide­o­ló­gi­cos pre­va­le­çam so­bre o que diz a pro­du­ção aca­dê­mi­ca. É ela que de­ve ba­li­zar o que es­tá nos nos­sos li­vros di­dá­ti­cos. Pri­var as cri­an­ças de edu­ca­ção com bi­bli­o­gra­fia de qua­li­da­de e plu­ral é ne­gar a elas o di­rei­to à ci­da­da­nia.

Pri­var cri­an­ças de bi­bli­o­gra­fia de qua­li­da­de e plu­ral é ne­gar o di­rei­to à ci­da­da­nia

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