7. EDU­CA­ÇÃO E DESIGUALDADES SO­CI­AIS

Superguia Enem - Sociologia e Filosofia - - Sumário -

As desigualdades ve­ri­fi­ca­das nos re­sul­ta­dos es­co­la­res de alu­nos de di­fe­ren­tes clas­ses so­ci­ais é um te­ma clás­si­co da so­ci­o­lo­gia con­tem­po­râ­nea. Tra­ta-se de um de­ba­te so­bre o pa­pel dos sis­te­mas edu­ca­ti­vos na promoção da igual­da­de so­ci­al e de opor­tu­ni­da­des em so­ci­e­da­des de­mo­crá­ti­cas ou, ain­da, na re­pro­du­ção das desigualdades. O pri­mei­ro es­tu­do, re­a­li­za­do nes­te âm­bi­to, é da au­to­ria de Pi­er­re Bour­di­eu e Je­an-Clau­de Pas­se­ron. Se tra­ta da obra A Re­pro­du­ção – Ele­men­tos pa­ra Uma Te­o­ria do Sis­te­ma de En­si­no, pu­bli­ca­da em 1964.

Des­de o sé­cu­lo XIX, a edu­ca­ção sem­pre cons­ti­tuiu um dos cam­pos de es­tu­do pri­vi­le­gi­a­dos pe­la so­ci­o­lo­gia. O pai fun­da­dor da dis­ci­pli­na, Émi­le Durkheim, foi pro­fes­sor de pe­da­go­gia. Pa­ra ele, a es­co­la é uma das ins­ti­tui­ções so­ci­ais de­ter­mi­nan­tes pa­ra a boa mar­cha da so­ci­e­da­de. Ela di­fe­ren­cia e hi­e­rar­qui­za os in­di­ví­du­os, ao mes­mo tem­po que lhes in­cul­ca va­lo­res fun­da­men­tais e lhes ofe­re­ce um sa­ber mí­ni­mo (FERRÉOL & NORECK, 2007, p. 129).

Não é so­men­te o sis­te­ma econô­mi­co que ex­clui as pes­so­as, mas tam­bém a es­co­la se ela não es­ti­ver or­ga­ni­za­da a par­tir de prin­cí­pi­os de­mo­crá­ti­cos, cu­jos va­lo­res re­si­dem na promoção in­di­vi­du­al, cul­tu­ral e so­ci­al das pes­so­as. Des­te mo­do, a edu­ca­ção tor­na-se um ins­tru­men­to de promoção do ser hu­ma­no, mas se tais prin­cí­pi­os e va­lo­res não es­ti­ve­rem con­tem­pla­dos ocor­re o con­trá­rio: a edu­ca­ção pas­sa a ser um ins­tru­men­to de re­pro­du­ção das desigualdades.

Es­sa per­ver­sa de­si­gual­da­de na for­ma­ção edu­ca­ci­o­nal, quan­do com­bi­na­da com a de­pen­dên­cia da ren­da de uma pes­soa adul­ta com seu ní­vel de es­co­la­ri­za­ção, fecha um cír­cu­lo vi­ci­o­so ex­tre­ma­men­te per­ver­so. Em va­lo­res apro­xi­ma­dos, se­gun­do vá­ri­os le­van­ta­men­tos fei­tos por es­pe­ci­a­lis­tas, ca­da ano de es­co­la­ri­da­de a mais de uma pes­soa im­pli­ca em um au­men­to de ren­da da or­dem de 10% a 20% (va­ri­a­ção es­sa de­vi­da à épo­ca, à sis­te­má­ti­ca ado­ta­da no le­van­ta­men­to dos da­dos e aos ní­veis es­co­la­res con­si­de­ra­dos). A qua­li­da­de da edu­ca­ção, por sua vez, me­di­da, por exem­plo, pelo ní­vel es­co­lar do pro­fes­sor, po­de con­tri­buir com uma di­fe­ren­ça de cer­ca de 50% na ren­da de pes­so­as com mes­mos ní­veis de for­ma­ção edu­ca­ci­o­nal (HELENE, 2010, s.p., tex­to di­gi­tal).

Rom­per com a de­si­gual­da­de so­ci­al pas­sa pe­la exis­tên­cia de um sis­te­ma edu­ca­ci­o­nal de­mo­crá­ti­co e com­pro­me­ti­do em aca­bar com es­se cír­cu­lo vi­ci­o­so. Quan­do não há es­se com­pro­mis­so, a edu­ca­ção aca­ba con­tri­buin­do pa­ra a ma­nu­ten­ção e o au­men­to das desigualdades, en­tre as quais é de sa­li­en­tar aque­la que se ma­ni­fes­ta pri­mei­ro e de mo­do mais cla­ro: a de­si­gual­da­de econô­mi­ca.

Des­pro­vi­do de uma for­ma­ção edu­ca­ci­o­nal ade­qua­da, o in­di­ví­duo es­tá à mer­cê de tra­ba­lho mal pa­go ou in­for­mal, sen­do que, nes­te úl­ti­mo, ele não es­tá pro­te­gi­do por ne­nhu­ma lei tra­ba­lhis­ta e es­tá, ao mes­mo tem­po, su­jei­to à ex­plo­ra­ção e a uma re­mu­ne­ra­ção que é in­ca­paz de lhe ga­ran­tir uma vi­da dig­na. Es­ta si­tu­a­ção, mui­tas ve­zes, aca­ba for­çan­do as cri­an­ças a dei­xa­rem pre­co­ce­men­te a es­co­la e cai­rem na ex­plo­ra­ção do tra­ba­lho in­fan­til, pois a fa­mí­lia não tem con­di­ções de sus­ten­tá-las.

A de­si­gual­da­de so­ci­al não é al­go na­tu­ral, mas é pro­du­zi­da na so­ci­e­da­de e pe­la so­ci­e­da­de, de­pen­den­do do mo­do co­mo as su­as or­ga­ni­za­ções es­tão es­tru­tu­ra­das, in­clu­si­ve, o Es­ta­do. En­quan­to ins­ti­tui­ção res­pon­sá­vel pe­la se­gu­ran­ça, or­dem e bem-es­tar do país, o Es­ta­do tem a res­pon­sa­bi­li­da­de de pro­mo­ver po­lí­ti­cas pú­bli­cas edu­ca­ci­o­nais que ofe­re­çam um en­si­no público de qua­li­da­de pa­ra aten­der as ne­ces­si­da­des de to­dos os in­di­ví­du­os sem dis­tin­ção de clas­se so­ci­al, de ra­ça, de se­xo ou de con­fis­são re­li­gi­o­sa atra­vés de uma edu­ca­ção in­clu­si­va, ca­paz de pro­mo­ver o de­sen­vol­vi­men­to in­te­lec­tu­al, cul­tu­ral, ci­en­tí­fi­co e ar­tís­ti­co atra­vés de va­lo­res só­li­dos.

A so­ci­e­da­de ci­vil não é a res­pon­sá­vel pe­la promoção de uma edu­ca­ção in­clu­si­va e de qua­li­da­de, mas po­de e de­ve cobrar do Es­ta­do, que é o res­pon­sá­vel le­gí­ti­mo pa­ra su­prir es­sa ne­ces­si­da­de. Quan­do o Es­ta­do fa­lha nes­sa ques­tão, in­di­re­ta­men­te ele com­pro­me­te a or­ga­ni­za­ção sau­dá­vel da ins­ti­tui­ção fa­mi­li­ar. A fa­mí­lia de­ses­tru­tu­ra­da por fa­to­res econô­mi­cos em vir­tu­de de uma ren­da in­su­fi­ci­en­te pa­ra ofe­re­cer uma vi­da dig­na a to­dos os seus mem­bros ge­ral­men­te as­sis­te à bai­xa es­co­la­ri­da­de dos mais jo­vens, que fu­tu­ra­men­te, re­pe­ti­rão o mes­mo ci­clo em re­la­ção às su­as pró­pri­as fa­mí­li­as. A mé­dio e a lon­go pra­zo, es­ta si­tu­a­ção pro­vo­ca de­ses­tru­tu­ra­ção da so­ci­e­da­de com­pos­ta por uma quan­ti­da­de sig­ni­fi­ca­ti­va de pes­so­as vi­ven­do na mi­sé­ria, com a fal­ta de cul­tu­ra, ali­e­na­das e vi­o­len­tas.

A edu­ca­ção é um ins­tru­men­to fun­da­men­tal de so­ci­a­li­za­ção e de in­ser­ção so­ci­al. O pró­prio ti­po de so­ci­e­da­de em que as pes­so­as vi­vem é o re­fle­xo da edu­ca­ção de um po­vo. Quan­do se diz que um po­vo é cul­to sig­ni­fi­ca que nes­se país a edu­ca­ção tem qua­li­da­de e a mai­or par­te da po­pu­la­ção do país tem aces­so e se em­pe­nha na­qui­lo que a es­co­la e a Uni­ver­si­da­de pro­cu­ram en­si­nar.

Ge­ral­men­te, os me­lho­res pos­tos de tra­ba­lhos são al­can­ça­dos por aque­les in­di­ví­du­os com mai­or grau de es­co­la­ri­za­ção. A po­si­ção ocu­pa­da no cam­po la­bo­ral tem re­fle­xos di­re­tos no sa­lá­rio. Es­ta si­tu­a­ção re­ve­la a im­por­tân­cia da edu­ca­ção não só por­que au­men­ta o ga­nho fi­nan­cei­ro in­di­vi­du­al ou fa­mi­li­ar, mas por­que per­mi­te uma me­lhor qua­li­da­de de vi­da e aces­so à cul­tu­ra, ao co­nhe­ci­men­to, a con­di­ções es­sen­ci­ais pa­ra o de­sen­vol­vi­men­to sau­dá­vel do in­di­ví­duo, da so­ci­e­da­de e do país.

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