3.1. Só­cra­tes

3. PO­LÍ­TI­CA, ÉTI­CA E MORALIDADE EM SÓ­CRA­TES, PLA­TÃO E ARISTÓTELES

Superguia Enem - Sociologia e Filosofia - - Filosofia -

3.1.1. Vi­da

Só­cra­tes vi­veu em Ate­nas, en­tre 470 / 569 a.C. e 399. a.C. Ele com­ple­tou a edu­ca­ção ju­ve­nil em sua ci­da­de na­tal, ten­do es­tu­da­do, pro­va­vel­men­te, ge­o­me­tria e as­tro­no­mia.

Só­cra­tes se man­te­ve afas­ta­do da vi­da po­lí­ti­ca. Sua vo­ca­ção, a tarefa à qual se de­di­cou e foi fi­el até o fi­nal de sua vi­da, foi a fi­lo­so­fia que ele en­ca­rou co­mo um exa­me in­ces­san­te de si e dos ou­tros. Por es­ta tarefa, a que de­di­cou to­do seu tem­po, Só­cra­tes vi­veu po­bre­men­te com sua mu­lher, Xan­ti­pa, e seus fi­lhos.

Acu­sa­do, por Âni­to, um po­lí­ti­co, Me­li­to, um po­e­ta, e Lí­con, um ora­dor, de não acre­di­tar nos cos­tu­mes e nos deu­ses gre­gos, de unir-se a deu­ses ma­lig­nos que gos­ta­vam de des­truir as ci­da­des e de cor­rom­per os jo­vens com su­as idei­as, Só­cra­tes foi jul­ga­do por um tri­bu­nal com­pos­to por 501 ci­da­dãos de Ate­nas, que o con­de­nou ou ao exí­lio, ou a ter a lín­gua cor­ta­da. Co­mo ele se ne­gou a cum­prir a de­ci­são ju­di­ci­al, foi sen­ten­ci­a­do à mor­te. Aos 70 anos, em 399 a.C., Só­cra­tes mor­reu após be­ber uma taça com ci­cu­ta.

3.1.2. Na­tu­re­za dos Diá­lo­gos So­crá­ti­cos

Só­cra­tes não dei­xou qual­quer tex­to es­cri­to.

A mis­são de Só­cra­tes con­sis­te em pro­mo­ver, no ho­mem, a in­ves­ti­ga­ção acer­ca do ho­mem. Es­ta in­ves­ti­ga­ção ten­de a le­var o ho­mem, ca­da ho­mem in­di­vi­du­al, ao co­nhe­ci­men­to de­le mes­mo, a tor­ná-lo jus­to, is­to é, so­li­dá­rio com os ou­tros. Foi por es­te mo­ti­vo que Só­cra­tes ado­tou, co­mo sua di­vi­sa, aque­la que cons­ta­va no pór­ti­co do Tem­plo de Del­fos: Co­nhe­ce-te a ti pró­prio.

3.1.3. A Iro­nia

A pri­mei­ra con­di­ção pa­ra que o exa­me so­crá­ti­co te­nha lu­gar con­sis­te no re­co­nhe­ci­men­to por ca­da ho­mem de sua pró­pria ig­no­rân­cia. Ne­nhum de nós sa­be ver­da­dei­ra­men­te na­da, mas só é sá­bio uni­ca­men­te aque­le que sa­be que não sa­be. Na re­a­li­da­de, só qu­em sa­be que não sa­be é que pro­cu­ra al­can­çar o sa­ber.

Con­tra os so­fis­tas, que fa­zem pro­fis­são pú­bli­ca de se­rem de­ten­to­res de sa­be­do­ria, Só­cra­tes faz pro­fis­são de ig­no­rân­cia. Pa­ra ele, o úni­co meio de pro­mo­ver nos ou­tros o re­co­nhe­ci­men­to de sua ig­no­rân­cia, que é a con­di­ção ne­ces­sá­ria pa­ra a pes­qui­sa, é a iro­nia. A iro­nia é a in­ter­ro­ga­ção que pre­ten­de aban­do­nar o ho­mem à dú­vi­da e à in­qui­e­ta­ção pa­ra o obri­gar à pes­qui­sa.

Só­cra­tes não en­si­na na­da, não co­mu­ni­ca uma dou­tri­na ou um con­jun­to de dou­tri­nas. Ele ape­nas pre­ten­de es­ti­mu­lar em ca­da um o in­te­res­se pe­la pes­qui­sa.

3.1.4. A Mai­êu­ti­ca

Se­gun­do Só­cra­tes, o ho­mem não con­se­gue ver cla­ro por si só. A pes­qui­sa não po­de co­me­çar ne­le e ter­mi­nar ne­le, em sua es­tri­ta in­di­vi­du­a­li­da­de. O ho­mem, pa­ra che­gar à ver­da­de, tem que di­a­lo­gar con­ti­nu­a­men­te com os ou­tros sem se es­que­cer de di­a­lo­gar con­si­go pró­prio. A mai­êu­ti­ca que, nas obras platô­ni­cas é com­pa­ra­da por Só­cra­tes à me­di­ci­na, não se pre­o­cu­pa em cau­sar mo­lés­ti­as ao pa­ci­en­te, des­de que es­te res­ta­be­le­ça ou con­ser­ve a saú­de. Ao in­di­vi­du­a­lis­mo dos so­fis­tas, Só­cra­tes con­tra­põe en­tre os ho­mens os vín­cu­los da so­li­da­ri­e­da­de e da jus­ti­ça. O uni­ver­sa­lis­mo so­crá­ti­co mais não é do que o re­co­nhe­ci­men­to de que o va­lor do in­di­ví­duo só po­de ser com­pre­en­di­do e re­a­li­za­do nas re­la­ções in­ter­sub­je­ti­vas.

A bus­ca que ca­da ho­mem tem que fa­zer acer­ca de si pró­prio é, si­mul­ta­ne­a­men­te, a bus­ca do ver­da­dei­ro sa­ber e da me­lhor ma­nei­ra de vi­ver. Ela é tam­bém in­ves­ti­ga­ção do sa­ber e da vir­tu­de. Pa­ra Só­cra­tes, uma ci­ên­cia que per­ca o sen­ti­do hu­ma­no de su­as re­a­li­za­ções e que aban­do­ne o ho­mem aos ca­pri­chos dos im­pul­sos sen­sí­veis nem se­quer me­re­ce ser con­si­de­ra­da co­mo ci­ên­cia. Se o ho­mem se en­tre­ga àque­les im­pul­sos, is­so sig­ni­fi­ca que ele sa­be ou acre­di­ta sa­ber que es­sa é a coi­sa mais útil ou mais con­ve­ni­en­te pa­ra ele. Um er­ro de juí­zo, is­to é, a ig­no­rân­cia, é a ba­se de to­da a cul­pa e de to­dos os ví­ci­os.

Aque­le que sa­be ver­da­dei­ra­men­te faz bem seus cál­cu­los e es­co­lhe em ca­da ca­so o me­lhor pra­zer, ou se­ja, aque­le que não po­de oca­si­o­nar nem dor, nem mal. Es­se pra­zer é o pra­zer da vir­tu­de. A vir­tu­de não é, pa­ra Só­cra­tes, a ne­ga­ção da vi­da hu­ma­na. Ela con­sis­te, pelo con­trá­rio, na vi­da hu­ma­na per­fei­ta: en­glo­ba o pra­zer e é, aci­ma de tu­do, o pra­zer má­xi­mo. A di­fe­ren­ça en­tre o ho­mem vir­tu­o­so e aque­le que não o é re­si­de na ca­pa­ci­da­de de ava­li­a­ção dos pra­ze­res e na es­co­lha do mai­or pra­zer, pelo pri­mei­ro ti­po de ho­mem, en­quan­to o se­gun­do ti­po de ho­mem, ou se­ja, aque­le que não é vir­tu­o­so, não sa­ben­do fa­zer a ava­li­a­ção cor­re­ta, se en­tre­ga aos pra­ze­res do mo­men­to.

A vir­tu­de não é o pu­ro pra­zer nem se­quer é o pu­ro es­for­ço. Pa­ra Só­cra­tes, a vir­tu­de é o cál­cu­lo in­te­li­gen­te. Nes­te cál­cu­lo, não po­de ter lu­gar a de­fe­sa da in­jus­ti­ça, por­que a in­jus­ti­ça não pas­sa de um cál­cu­lo er­ra­do.

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