Elei­ções e dis­so­nân­cia cog­ni­ti­va do mer­ca­do

Stress de 2002 po­de não ocor­rer, mas ce­ná­rio ró­seo do Fo­cus não é re­a­lis­ta. Por Cle­mens Nu­nes e Marcelo Kfoury

Valor Econômico - - OPINIÃO -

Elei­ções ti­pi­ca­men­te ge­ram vo­la­ti­li­da­de no pre­ço dos ati­vos e nas va­riá­veis ma­cro­e­conô­mi­cas. Es­ta vo­la­ti­li­da­de cos­tu­ma ser mai­or em paí­ses emer­gen­tes do que em paí­ses de­sen­vol­vi­dos. Nos paí­ses de­sen­vol­vi­dos, a in­cer­te­za de­ri­va es­sen­ci­al­men­te do re­sul­ta­do elei­to­ral: qu­em se­rá o ven­ce­dor? Re­sol­vi­da es­ta in­cer­te­za, re­duz-se a vo­la­ti­li­da­de. Co­mo as pre­fe­rên­ci­as econô­mi­cas do in­cum­ben­te e do de­sa­fi­an­te são co­nhe­ci­das, a di­re­ção da po­lí­ti­ca econô­mi­ca es­tá da­da. Por sua vez, nos paí­ses emer­gen­tes, a in­cer­te­za elei­to­ral é su­per­pos­ta à in­cer­te­za so­bre a pre­fe­rên­cia econô­mi­ca dos can­di­da­tos. As­sim são co­muns epi­só­di­os on­de o dis­cur­so econô­mi­co pré-elei­ção di­fe­re di­a­me­tral­men­te da po­lí­ti­ca econô­mi­ca ado­ta­da pos­te­ri­or­men­te.

Exem­plos co­nhe­ci­dos são as elei­ções pre­si­den­ci­ais bra­si­lei­ras de 2014 e 2002. Nes­te con­tex­to, os si­nais de­ri­va­dos dos re­sul­ta­dos das pes­qui­sas elei­to­rais e das pos­sí­veis es­co­lhas de po­lí­ti­ca econô­mi­ca pe­los can­di­da­tos são de di­fí­cil in­ter­pre­ta­ção. Es­tes si­nais ti­pi­ca­men­te exi­bem al­ta frequên­cia, mui­to ruí­do e di­re­ção e sen­ti­do de pro­pa­ga­ção ir­re­gu­lar.

A di­fi­cul­da­de de in­ter­pre­tar es­tes si­nais em ter­mos de pre­ços de ati­vos e va­riá­veis ma­cro­e­conô­mi­cas con­fun­de os agen­tes e po­de ge­rar o fenô­me­no da dis­so­nân­cia cog­ni­ti­va. A dis­so­nân­cia cog­ni­ti­va ocor­re quan­do se es­ta­be­le­ce uma cren­ça so­bre al­go, po­rém se age de for­ma dis­tin­ta da­qui­lo que se acre­di­ta. Ou se­ja, as con­vic­ções do agen­te in­ter­fe­rem na sua per­cep­ção da re­a­li­da­de. Nes­te ar­ti­go, ar­gu­men­ta­mos que há uma dis­so­nân­cia en­tre as ex­pec­ta­ti­vas de mer­ca­do pa­ra a eco­no­mia e os pre­ços dos ati­vos bra­si­lei­ros.

No Bra­sil, elei­ções ti­pi­ca­men­te ge­ram mui­ta vo­la­ti­li­da­de na eco­no­mia. No grá­fi­co, es­tá re­pre­sen­ta­da a evo­lu­ção da vo­la­ti­li­da­de na ta­xa de câm­bio re­al-dó­lar no pe­río­do elei­to­ral (ajus­ta­da em re­la­ção à mé­dia da ta­xa no pe­río­do). O ho­ri­zon­te elei­to­ral tem co­mo pon­to de re­fe­rên­cia a da­ta do 1o tur­no das elei­ções pre­si­den­ci­ais. Po­de­mos ob­ser­var que a vo­la­ti­li­da­de nes­te ano tem si­do su­pe­ri­or àque­la ob­ser­va­da nas 3 úl­ti­mas elei­ções e ape­nas in­fe­ri­or àque­la que ocor­reu em 2002.

Nes­te ano, o re­al já se des­va­lo­ri­zou 24,7 % fren­te ao dó­lar. Dois fa­to­res con­tri­buí­ram pa­ra is­so. O pri­mei­ro fa­tor es­tá li­ga­do à pi­o­ra do ce­ná­rio ex­ter­no. Fa­to­res co­mo a re­du­ção do di­fe­ren­ci­al de ju­ros en­tre Bra­sil e EUA; as cres­cen­tes pres­sões pro­te­ci­o­nis­tas con­tra o li­vre co­mér­cio e a pi­o­ra da per­cep­ção do ris­co de paí­ses emer­gen­tes com as cri­ses na Ar­gen­ti­na e na Tur­quia. Des­te o iní­cio do ano, o dó­lar va­lo­ri­zou-se fren­te à li­ra tur­ca e ao pe­so ar­gen­ti­no, res­pec­ti­va­men­te 60,5% e 112,7%.

O se­gun­do fa­tor con­tri­buin­te foi o re­sul­ta­do das úl­ti­mas pes­qui­sas elei­to­rais. Ne­las, re­du­ziu-se a per­cep­ção de vi­tó­ria de um can­di­da­to ca­paz de aglu­ti­nar apoio so­ci­al e par­la­men­tar pa­ra im­ple­men­ta­ção do ne­ces­sá­rio ajus­te fis­cal. As chan­ces de um 2o tur­no po­la­ri­za­do en­tre o can­di­da­to do PT e Jair Bol­so­na­ro re­for­çam es­ta per­cep­ção. O cres­ci­men­to da po­la­ri­za­ção e da in­to­le­rân­cia po­lí­ti­ca são re­fle­xos des­te fa­to. Cres­ce tam­bém a pro­pen­são do elei­tor cen­tris­ta no vo­to es­tra­té­gi­co. To­dos es­tes fa­to­res ten­dem a ge­rar mais vo­la­ti­li­da­de no cur­to pra­zo.

En­quan­to os pre­ços dos ati­vos exi­bem al­ta vo­la­ti­li­da­de, as pro­je­ções pa­ra a eco­no­mia bra­si­lei­ra na pes­qui­sa Fo­cus an­te­ci­pam um dé­fi­cit pri­má­rio de 1,5% do PIB em 2019, uma ta­xa de cres­ci­men­to do PIB de 2,5%, um câm­bio de R$ 3,70/US$ e a ta­xa Se­lic em 8% ao ano no fi­nal do mes­mo ano. Um ce­ná­rio ape­nas plau­sí­vel com a elei­ção de um(a) can­di­da­to(a) ca­paz de im­ple­men­tar as re­for­mas. Os pre­ços dos ati­vos ou as pro­je­ções do Fo­cus es­tão em cla­ra dis­so­nân­cia com as chan­ces de vi­tó­ria de um can­di­da­to com pro­pos­tas he­te­ro­do­xas ou com bai­xa ca­pa­ci­da­de de im­ple­men­ta­ção das re­for­mas. Não ne­ces­sa­ri­a­men­te te­re­mos o mes­mo stress ve­ri­fi­ca­do em 2002, mas um ce­ná­rio ró­seo co­mo o pro­je­ta­do pe­la pes­qui­sa Fo­cus não nos pa­re­ce re­a­lis­ta. O mer­ca­do po­de dar o be­ne­fí­cio da dú­vi­da por al­gum tem­po, mas a lua de mel po­de du­rar pou­co, da­da a ne­ces­sá­ria ur­gên­cia da con­so­li­da­ção fis­cal.

Lem­bra­mos que em 2002, o país en­fren­ta­va uma si­tu­a­ção de vul­ne­ra­bi­li­da­de ex­ter­na e fra­gi­li­da­de fis­cal. A re­la­ção en­tre a ne­ces­si­da­de de fi­nan­ci­a­men­to ex­ter­no e os re­ce­bi­men­tos em con­ta cor­ren­te mais re­ser­vas era de 287% em 2002, en­quan­to foi de 65% em 2017. Si­mul­ta­ne­a­men­te, a dí­vi­da do­més­ti­ca, em par­te do­la­ri­za­da, atin­giu 59,8% do PIB em 2002. O ris­co-país (me­di­do pe­lo CDS de 5 anos) atin­giu 3950 pon­tos em 2002 fren­te ao má­xi­mo 304 pon­tos nes­te ano. Em 2002, A ta­xa de câm­bio atin­giu R$ 4/US$, equi­va­len­te ao va­lor atu­a­li­za­do de R$ 7,16 /US$. No en­tan­to, a fra­gi­li­da­de fis­cal per­sis­te na eco­no­mia bra­si­lei­ra. Um ce­ná­rio de bai­xo cres­ci­men­to, ju­ros e es­to­que da dí­vi­da ele­va­dos con­fi­gu­ram uma di­nâ­mi­ca ex­plo­si­va pa­ra o en­di­vi­da­men­to pú­bli­co, se não re­ver­ti­da ra­pi­da­men­te.

Nes­te ce­ná­rio, co­mo evo­lui­rá es­ta dis­so­nân­cia cog­ni­ti­va? Ti­pi­ca­men­te, ela evo­lui de três ma­nei­ras. Na pri­mei­ra, al­te­ram-se as cren­ças pa­ra adequá-la à re­a­li­da­de. Nes­te as­pec­to, as ex­pec­ta­ti­vas da pes­qui­sa Fo­cus não re­fle­tem a vo­la­ti­li­da­de dos ati­vos fi­nan­cei­ros. Al­ta vo­la­ti­li­da­de na eco­no­mia afe­ta ne­ga­ti­va­men­te o in­ves­ti­men­to e a ati­vi­da­de econô­mi­ca.

Na se­gun­da, a re­a­li­da­de al­te­ra-se de for­ma a ali­nhar-se as cren­ças. As­sim, a pes­qui­sa Fo­cus an­te­ci­pa um re­sul­ta­do oti­mis­ta qu­an­to à po­lí­ti­ca econô­mi­ca a ser ado­ta­da pe­lo pró­xi­mo go­ver­no, da­da a vo­la­ti­li­da­de dos ati­vos. Fi­nal­men­te, na ter­cei­ra pos­si­bi­li­da­de, nem a re­a­li­da­de, nem a cren­ça são al­te­ra­das. Es­ta­be­le­cen­do-se um con­fli­to nes­ta re­la­ção dis­so­nan­te, o que acen­tu­a­rá a vo­la­ti­li­da­de e afe­ta­rá so­bre­ma­nei­ra o de­sem­pe­nho da eco­no­mia em 2019.

Pre­ços dos ati­vos ou as pro­je­ções do Fo­cus es­tão em dis­so­nân­cia com as chan­ces de vi­tó­ria de um can­di­da­to he­te­ro­do­xo

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