Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho, ca­dá­ver me­tra­lha­do

Valor Econômico - - POLÍTICA - Cé­sar Fe­lí­cio

Ofim do Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho re­tra­ta, mais que uma po­si­ção ad­mi­nis­tra­ti­va ou ide­o­ló­gi­ca, uma cons­ta­ta­ção de na­tu­re­za po­lí­ti­ca: há uma decadência ní­ti­da, que não es­tá res­tri­ta ao Bra­sil, da ca­pa­ci­da­de de tra­ba­lha­do­res ur­ba­nos em sin­di­ca­tos in­flu­en­ci­a­rem nas es­fe­ras de po­der.

Se o Bra­sil vai aca­bar com uma ins­ti­tui­ção que cum­pri­rá 88 anos de ida­de no dia 26, a Ar­gen­ti­na já o fez es­te ano. Mau­ri­cio Ma­cri fun­diu o Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho com o da Pro­du­ção no país vi­zi­nho.

Me­nos pres­si­o­na­dos, go­ver­nos aban­do­nam a fun­ção de me­di­a­do­res de con­fli­tos so­ci­ais. Len­ta­men­te, vol­ta-se ao ver­da­dei­ro sig­ni­fi­ca­do de uma fra­se di­ta na dé­ca­da de 20 pe­lo en­tão go­ver­na­dor de São Pau­lo, fu­tu­ro pre­si­den­te Washing­ton Luiz. “A agi­ta­ção ope­rá­ria é um ques­tão que in­te­res­sa mais à or­dem pú­bli­ca do que à or­dem so­ci­al, representa o es­ta­do de es­pí­ri­to de al­guns ope­rá­ri­os, mas não de to­da a so­ci­e­da­de”.

Ma­cri es­tá lon­ge de ser um es­quer­dis­ta e Bol­so­na­ro per­ten­ce ao uni­ver­so da ul­tra­di­rei­ta, mas o sa­po não pu­la por bo­ni­te­za, mas por precisão, co­mo uma vez es­cre­veu Gui­ma­rães Ro­sa. Ou­tros fos­sem os tem­pos e di­fi­cil­men­te Bol­so­na­ro dei­xa­ria de pre­en­cher a va­ga do Tra­ba­lho. Do mes­mo mo­do co­mo a cri­a­ção de va­ga, na es­tei­ra da re­vo­lu­ção de 1930, não en­con­tra ex­pli­ca­ção em uma op­ção ide­o­ló­gi­ca de Ge­tú­lio Var­gas. Aten­deu-se a uma de­man­da his­tó­ri­ca. Fal­cão, cos­tu­ma­va subs­ti­tuir Ge­tú­lio em dis­cur­sos nas pri­mei­ras trans­mis­sões do que ho­je é a “Voz do Bra­sil”. Foi em sua ges­tão que se cri­ou a Jus­ti­ça Trabalhista. Na de­mo­cra­ti­za­ção em 1945, tor­nou-se o pre­si­den­te do Tri­bu­nal Su­pe­ri­or Elei­to­ral. Seu su­ces­sor, Alexandre Mar­con­des Fi­lho, foi mar­ca­do pe­la pro­mul­ga­ção da CLT, em 1943. Da pas­ta sai­ria pa­ra es­tru­tu­rar o PTB var­guis­ta. Mas nos anos 50 foi mi­nis­tro da Jus­ti­ça de Ca­fé Fi­lho, ali­nha­do com a UDN.

O co­me­ço da his­tó­ria do Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho ex­pli­ca por­que ele du­rou até ho­je, so­bre­vi­ven­do ao re­gi­me mi­li­tar. Era um freio, um ga­ran­ti­dor da or­dem so­ci­al, mon­ta­do por li­de­ran­ças mui­to con­ser­va­do­ras.

O Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho só es­te­ve no ei­xo de uma gui­na­da po­lí­ti­ca, con­cen­tran­do so­bre si o fo­go de to­da a opo­si­ção, nos idos de 1953, quan­do co­man­da­do por João Gou­lart. O en­tão mi­nis­tro de Var­gas de­fi­ni­ti­va­men­te emu­lou Pe­rón e man­dou do­brar o sa­lá­rio mí­ni­mo. Sol­ta­va-se a vál­vu­la: o país vi­nha em uma on­da de gre­ves ma­ci­ças e vi­o­len­tas, que au­men­ta­vam a in­fluên­cia co­mu­nis­ta no meio sin­di­cal. A ação de Jan­go mo­via o PTB pa­ra a es­quer­da e con­ti­nha a ação do pros­cri­to PCB.

A pas­ta vol­tou a ga­nhar pa­pel pro­ta­go­nis­ta na ges­tão de Luiz Marinho, no go­ver­no Lu­la. Da­ta daí a cri­a­ção da po­lí­ti­ca de re­a­jus­te do sa­lá­rio mí­ni­mo em vi­gor. O ins­tru­men­to foi fer­ra­men­ta im­por­tan­te pa­ra ga­ran­tir al­guns anos de cal­ma­ria pa­ra o pe­tis­mo, de­pois do tu­mul­to do men­sa­lão.

É des­ne­ces­sá­ria a crônica dos úl­ti­mos dez anos. Os mo­vi­men­tos so­ci­ais fo­ram pa­ra a pe­ri­fe­ria po­lí­ti­ca de­pois do ad­ven­to da mi­li­tân­cia po­la­ri­za­da in­su­fla­da pe­las re­des e a pas­ta tor­nou-se pou­co mais que um ni­nho de ca­va­ções e si­ne­cu­ras de po­lí­ti­cos de se­gun­do ti­me. A atu­a­ção do Mi­nis­té­rio na tra­mi­ta­ção da re­for­ma trabalhista de­mons­tra a te­se.

Bol­so­na­ro ma­ta o que já es­ta­va mor­to. Não há mais re­des de pro­te­ção, no uni­ver­so ins­ti­tu­ci­o­nal, pa­ra con­fli­tos so­ci­ais de qu­al­quer na­tu­re­za, mui­to me­nos ca­pi­tal e tra­ba­lho. Bol­so­na­ro é um pro­du­to des­ta ano­mia, não sua cau­sa.

Com seus me­ga­mi­nis­té­ri­os e en­tu­si­as­ma­dos ama­do­res na ges­tão pú­bli­ca à fren­te de­les, o go­ver­no Bol­so­na­ro lem­bra o de Fer­nan­do Col­lor. Nem mes­mo fal­ta a ani­mo­si­da­de em re­la­ção à im­pren­sa.

Col­lor cri­ou uma su­per­pas­ta da In­fra­es­tru­tu­ra, ou­tra de Eco­no­mia e en­xu­gou tam­bém área so­ci­ais. Bol­so­na­ro tam­bém vai por aí. Os dois eram de­sa­cre­di­ta­dos no iní­cio de su­as cam­pa­nhas. Os dois usa­ram à larga o an­ti­co­mu­nis­mo e o dis­cur­so an­ti­cor­rup­ção du­ran­te o pro­ces­so elei­to­ral. Há três diferenças es­sen­ci­ais en­tre o go­ver­no de 1990 e o que toma for­ma ago­ra.

Não exis­te um Pau­lo Cé­sar Fa­ri­as, pa­ra, en­tre ou­tras coi­sas, cons­truir uma ani­mo­si­da­de en­tre o po­der pú­bli­co e a eli­te em­pre­sa­ri­al. Não há um fenô­me­no econô­mi­co de­ses­ta­bi­li­za­dor da so­ci­e­da­de co­mo era a hi­pe­rin­fla­ção de en­tão. E Bol­so­na­ro na sua equi­pe mi­nis­te­ri­al mon­ta um ei­xo na far­da e na to­ga, du­as áre­as ne­gli­gen­ci­a­das na ges­tão col­lo­ri­da. São diferenças es­sen­ci­ais e o in­su­ces­so de Bol­so­na­ro, se so­bre­vi­er, não to­ma­rá a for­ma que to­mou a des­gra­ça de Col­lor. Tols­toi já di­zia que ca­da um é infeliz à sua ma­nei­ra.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.