MI­GUEL CAR­VA­LHO

A Verdade - - PRIMEIRA PÁGINA -

En­tre os pro­ces­sos de­men­ci­ais sen­si­vel­men­te 60-80% dos ca­sos cor­res­pon­dem à do­en­ça de Alzhei­mer. A do­en­ça foi des­cri­ta pe­la pri­mei­ra vez pe­lo Mé­di­co Alois Alzhei­mer, em 1906, o qual iden­ti­fi­cou nu­ma se­nho­ra de 51 anos de ida­de os mes­mos sin­to­mas que num do­en­te de 83 anos.

Ca­ra­te­ri­za-se por um pro­ces­so de­men­ci­al no qual se ve­ri­fi­ca uma de­te­ri­o­ra­ção pro­gres­si­va e ir­re­ver­sí­vel de múl­ti­plas fun­ções cog­ni­ti­vas (memória, aten­ção, con­cen­tra­ção, lin­gua­gem, pensamento, en­tre ou­tras), nu­ma pes­soa, em re­gra, aci­ma dos 50 anos, com evo­lu­ção su­pe­ri­or a 6 me­ses, que te­ve iní­cio num de­fei­to de memória, em que o exa­me neu­ro­ló­gi­co, pa­ra além do de­fei­to cog­ni­ti­vo, é nor­mal. Os exa­mes com­ple­men­ta­res de di­ag­nós­ti­co, pa­ra além de al­gu­ma atro­fia ce­re­bral vi­sí­vel atra­vés de es­tu­do ima­gi­o­ló­gi­co, são nor­mais. Ins­ta­la-se de mo­do in­si­di­o­so, pro­gri­de len­ta­men­te e por pe­río­dos es­ta­ci­o­ná­ri­os, ou fa­ses cu­ja evo­lu­ção não é li­ne­ar.

Du­ran­te a sua pro­gres­são os do­en­tes apre­sen­tam ris­cos acres­ci­dos, aos quais os cui­da­do­res (fa­mí­lia e equi­pa de saú­de) de­vem es­tar aten­tos, co­mo as que­das e fra­tu­ras, es­ta­do de des­nu­tri­ção, de­si­dra­ta­ção, in­con­ti­nên­cia uri­ná­ria e fe­cal e obs­ti­pa­ção. E nos aca­ma­dos, há que dar es­pe­ci­al aten­ção à atro­fia mus­cu­lar, às úl­ce­ras de pres­são, às com­pli­ca­ções car­dio-vas­cu­la­res, à trom­bo­se ve­no­sa pro­fun­da e ao trom­bo­em­bo­lis­mo pul­mo­nar, à in­su­fi­ci­ên­cia res­pi­ra­tó­ria e às pneu­mo­ni­as.

To­das es­tas al­te­ra­ções, le­vam a um es­for­ço acres­ci­do nos cui­da­dos pres­ta­dos, des­de a ori­en­ta­ção pa­ra con­sul­ta de es­pe­ci­a­li­da­de (Neu­ro­lo­gia ou Psi­qui­a­tria), a uma al­te­ra­ção na di­nâ­mi­ca fa­mi­li­ar, à cri­a­ção de um es­pa­ço fí­si­co ade­qua­do às li­mi­ta­ções do pa­ci­en­te, e a uma co­o­pe­ra­ção cons­tan­te en­tre os vá­ri­os ele­men­tos que apoi­am e aju­dam no con­tro­lo da do­en­ça.

Es­ta re­a­li­da­de é tão im­por­tan­te co­mo é a es­pe­ran­ça de vi­da, uma vez que a sua pre­va­lên­cia é, sen­si­vel­men­te, de 1 por ca­da cem pes­so­as aos 60 anos, e do­bra a ca­da 5 anos, até um va­lor de 30-50 pes­so­as em cem aos 85 anos, pe­lo que as de­mên­ci­as re­pre­sen­tam um de­sa­fio pa­ra to­da a So­ci­e­da­de. O nú­me­ro de ca­sos de do­en­ça de Alzhei­mer es­ti­ma­dos em Por­tu­gal em 1991 era de 50000 e em 2010 de 70000. Um au­men­to mui­to sig­ni­fi­ca­ti­vo, com um pa­pel ca­da vez mais re­le­van­te dos Ser­vi­ços de apoio aos do­en­tes com de­mên­cia e uma im­por­tân­cia fun­da­men­tal do cui­da­dor.

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