Ve­te­ri­ná­ria: Hi­per­ti­roi­dis­mo fe­li­no

A do­en­ça mis­té­rio no pas­sa­do que se tor­nou epi­de­mia no pre­sen­te Foi no iní­cio dos anos 70 que co­me­ça­ram a ser di­ag­nos­ti­ca­dos os pri­mei­ros ga­tos com hi­per­ti­roi­dis­mo. Atu­al­men­te, os tes­tes que per­mi­tem di­ag­nos­ti­car a do­en­ça fa­zem par­te do dia-a-dia da clí­ni

Caes & Companhia - - Nesta edição -

Ati­roi­de é uma glân­du­la en­dó­cri­na ca­paz de pro­du­zir hor­mo­nas que re­gu­lam as vá­ri­as ati­vi­da­des que ocor­rem no or­ga­nis­mo a ní­vel ce­lu­lar, com a for­ma­ção de ener­gia a par­tir de nu­tri­en­tes e a for­ma­ção de subs­tân­ci­as a par­tir de ener­gia. Es­tá lo­ca­li­za­da na zo­na fron­tal do pes­co­ço, abai­xo da la­rin­ge e é com­pos­ta por dois lo­bos, um em ca­da la­do da tra­queia. Em con­di­ções nor­mais ge­ral­men­te não se sen­te. Mi­cros­co­pi­ca­men­te é for­ma­da por fo­lí­cu­los que se­cre­tam as hor­mo­nas ti­ro­xi­na (T4) e tri­i­o­do­ti­ro­ni­na (T3). Ape­sar de pe­que­na, a ti­roi­de tem um pa­pel fun­da­men­tal na re­gu­la­ção do me­ta­bo­lis­mo do cor­po.

O que é o hi­per­ti­roi­dis­mo?

O hi­per­ti­roi­dis­mo é a do­en­ça glan­du­lar mais co­mum e im­por­tan­te do ga­to. Foi no iní­cio dos anos 70 que co­me­çou a ser di­ag­nos­ti­ca­da e atu­al­men­te é tes­ta­da de for­ma ro­ti­nei­ra na clí­ni­ca de ga­tos. Aliás é um dos pon­tos-cha­ve do chec­kup ge­riá­tri­co do seu melhor ami­go. Num ga­to com a ti­roi­de dis­fun­ci­o­nal, exis­te cir­cu­la­ção em ex­ces­so de hor­mo­nas ti­roi­dei­as que são res­pon­sá­veis pela apre­sen­ta­ção clí­ni­ca.

O que es­tá na ori­gem?

As cau­sas pa­ra o apa­re­ci­men­to da do­en­ça ain­da não es­tão to­tal­men­te es­cla­re­ci­das. Exis­tem vá­ri­os fa­to­res que de­sem­pe­nham um pa­pel, co­mo a ge­né­ti­ca, a ali­men­ta­ção com di­e­tas co­mer­ci­ais, mas a im­por­tân­cia de ca­da um ain­da é des­co­nhe­ci­da. Na mai­o­ria dos ga­tos, a al­te­ra­ção a ní­vel da ti­roi­de é de ca­rá­ter be­nig­no e de­no­mi­na-se ade­no­ma. Ra­ra­men­te, em me­nos de 2% dos ca­sos, es­tá pre­sen­te um tu­mor ma­lig­no, o ade­no­car­ci­no­ma.

Quais os ga­tos que se en­con­tram em ris­co?

O hi­per­ti­roi­dis­mo po­de acon­te­cer em qual­quer ra­ça, fê­mea ou ma­cho, so­bre­tu­do em ga­tos mais ve­lhos. Me­nos de 6% ocor­re em ga­tos com ida­de in­fe­ri­or a 10 anos e a ida­de mé­dia de co­me­ço dos pri­mei­ros si­nais é por volta dos 12-13 anos.

Quais os si­nais clás­si­cos?

Os si­nais clí­ni­cos que um ga­to hi­per­ti­roi­deu po­de apre­sen­tar são va­ri­a­dís­si­mos, mas ge­ral­men­te, nu­ma fa­se ini­ci­al po­dem ser mui­to sub­tis e tor­na­rem-se mais gra­ves à me­di­da que a do­en­ça avan­ça. Por ou­tro la­do, es­tes ga­tos, por se­rem mais ve­lhos, po­dem ter ou­tras do­en­ças a com­pli­car ou mes­mo ocul­tar os si­nais clí­ni­cos. Ape­sar da apre­sen­ta­ção tí­pi­ca ser o ga­to que tem imen­so ape­ti­te e ati­vi­da­de, mas não en­gor­da, há ga­tos que se apre­sen­tam fra­cos, le­tár­gi­cos e com pou­co ape­ti­te.

Co­mo se di­ag­nos­ti­ca a do­en­ça?

O seu mé­di­co ve­te­ri­ná­rio irá re­a­li­zar um exa­me fí­si­co ela­bo­ra­do, que in­clui­rá a pal­pa­ção da ti­roi­de, a frequên­cia car­día­ca e a pres­são ar­te­ri­al. Em ca­so de sus­pei­ta de hi­per­ti­roi­dis­mo, irá su­ge­rir aná­li­ses san­guí­ne­as, co­mo he­mo­gra­ma e bi­oquí­mi­cas, as­sim co­mo o va­lor da hor­mo­na da ti­roi­de em cir­cu­la­ção. A mai­o­ria dos ga­tos com a do­en­ça apre­sen­ta um va­lor de T4 ele­va­do, uma mi­no­ria sur­ge com es­te va­lor den­tro do in­ter­va­lo de re­fe­rên­cia. Em ca­so de sus­pei­ta for­te de do­en­ça es­tá in­di­ca­do a re­a­li­za­ção de tes­tes adi­ci­o­nais. Não exis­te um tes­te per­fei­to ca­paz de

Ape­sar de pe­que­na, a glân­du­la da ti­roi­de tem um pa­pel fun­da­men­tal na re­gu­la­ção do me­ta­bo­lis­mo do cor­po

di­ag­nos­ti­car a do­en­ça em todos os ga­tos afe­ta­dos e des­car­tar em ga­tos não afe­ta­dos. Ca­da tes­te tem li­mi­ta­ções que de­vem ser con­si­de­ra­das na in­ter­pre­ta­ção dos re­sul­ta­dos.

Quais as com­pli­ca­ções da do­en­ça?

Co­mo o hi­per­ti­roi­dis­mo po­de pre­dis­por a ou­tras con­di­ções, é fun­da­men­tal ava­li­ar a saú­de do ga­to, com par­ti­cu­lar im­por­tân­cia pa­ra os rins e co­ra­ção. Uma do­en­ça des­con­tro­la­da po­de le­var a con­sequên­ci­as car­día­cas, pois há o au­men­to do rit­mo car­día­co, as­sim co­mo al­te­ra­ções a ní­vel da pa­re­de mus­cu­lar do co­ra­ção que po­dem cul­mi­nar em fa­lên­cia car­día­ca. A hi­per­ten­são, um au­men­to da pres­são san­guí­nea, que po­de cul­mi­nar com le­são de ou­tros ór­gãos co­mo co­ra­ção, olhos, rim e cé­re­bro. A do­en­ça re­nal cró­ni­ca, ge­ral­men­te, não é con­sequên­cia di­re­ta do hi­per­ti­roi­dis­mo, mas as du­as do­en­ças ocor­rem em si­mul­tâ­neo em ga­tos mais ve­lhos.

Em que con­sis­te o tra­ta­men­to?

O seu mé­di­co ve­te­ri­ná­rio irá dis­cu­tir as qua­tro mo­da­li­da­des de tra­ta­men­to: o me­ti­ma­zol, a re­mo­ção ci­rúr­gi­ca da ti­roi­de, a te­ra­pia ra­di­o­a­ti­va com io­do e uma di­e­ta com bai­xos ní­veis de io­do. A gran­de com­pli­ca­ção as­so­ci­a­da ao tra­ta­men­to é o apa­re­ci­men­to de hi­po­ti­roi­dis­mo. Se es­te for acom­pa­nha­do por si­nais clí­ni­cos co­mo obe­si­da­de, le­tar­gia e pe­lo em mau es­ta­do, po­de ha­ver a ne­ces­si­da­de de su­ple­men­tar com hor­mo­nas.

Me­di­ca­ção com me­ti­ma­zol

O me­ti­ma­zol é uma subs­tân­cia ati­va, sob a for­ma de com­pri­mi­dos que re­duz a pro­du­ção e li­ber­ta­ção de hor­mo­nas por par­te da ti­roi­de. Esta mo­da­li­da­de de tra­ta­men­to não pro­duz uma cu­ra da do­en­ça, no en­tan­to pos­si­bi­li­ta um con­tro­lo da mes­ma. A do­sa­gem e frequên­cia da me­di­ca­ção de­pen­de de ca­da ani­mal e, mui­tas ve­zes, re­quer ajus­tes ao lon­go do tem­po.

Re­mo­ção ci­rúr­gi­ca da ti­roi­de

A re­mo­ção ci­rúr­gi­ca da ti­roi­de (ti­roi­dec­to­mia) apre­sen­ta uma boa taxa de su­ces­so e tem a van­ta­gem de pos­si­bi­li­tar uma cu­ra. No en­tan­to, por tra­tar-se de uma ci­rur­gia, nem todos os ga­tos têm in­di­ca­ção pa­ra tal.

Te­ra­pia ra­di­o­a­ti­va com io­do

A te­ra­pia ra­di­o­a­ti­va com io­do tam­bém pro­por­ci­o­na uma cu­ra, ge­ral­men­te com me­lho­ri­as dos ní­veis de hor­mo­nas da ti­roi­de, umas se­ma­nas após o pro­ce­di­men­to, e tem a van­ta­gem de não re­que­rer anes­te­sia. É um pro­ce­di­men­to que re­quer hos­pi­ta­li­za­ção.

Di­e­ta com bai­xos ní­veis de io­do

A di­e­ta com bai­xos ní­veis de io­do é tam­bém uma te­ra­pia pos­sí­vel. O io­do é usa­do pela ti­roi­de pa­ra sin­te­ti­zar as hor­mo­nas, se o io­do da di­e­ta for su­fi­ci­en­te pa­ra for­mar es­sas hor­mo­nas vai con­se­guir-se um con­tro­lo da do­en­ça.

Co­mo é fei­to o con­tro­lo e acom­pa­nha­men­to da do­en­ça?

Após ini­ci­ar a te­ra­pia, o mé­di­co ve­te­ri­ná­rio irá re­a­va­li­ar o seu melhor ami­go no sen­ti­do de per­ce­ber se os si­nais da do­en­ça e os va­lo­res das hor­mo­nas es­tão con­tro­la­dos, pos­sí­veis com­pli­ca­ções as­so­ci­a­das ao tra­ta­men­to ou à pró­pria do­en­ça, as­sim co­mo, no ca­so do tra­ta­men­to re­cor­ren­do ao me­ti­ma­zol, o ajus­te das do­ses e frequên­ci­as da me­di­ca­ção. O hi­per­ti­roi­dis­mo ace­le­ra o flu­xo san­guí­neo dos rins e, por is­so, em mui­tos ga­tos, quan­do ini­ci­am o tra­ta­men­to, pa­re­ce exis­tir uma que­bra a ní­vel re­nal. Con­sul­te o seu mé­di­co ve­te­ri­ná­rio acer­ca da melhor for­ma de mo­ni­to­ri­za­ção da fun­ção re­nal em ga­tos hi­per­ti­roi­deus.

O hi­per­ti­roi­dis­mo é a do­en­ça glan­du­lar mais co­mum e im­por­tan­te do ga­to, e atu­al­men­te é tes­ta­da de for­ma ro­ti­nei­ra

Ana Cas­sa­po Dias Mé­di­ca Ve­te­ri­ná­ria, De­par­ta­men­to de Me­di­ci­na In­ter­na

Na mai­o­ria dos ga­tos, a al­te­ra­ção a ní­vel da ti­roi­de é de ca­rá­ter be­nig­no e de­no­mi­na-se ade­no­ma.

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