Mor­te anun­ci­a­da

Correio da Manhã - Weekend - - Opinião -

Es­cre­vo para jor­nais e re­vis­tas há cer­ca de 30 anos. Re­cor­do, com sur­pre­sa, co­mo tu­do se trans­for­mou tão de­pres­sa na im­pren­sa. Co­me­cei por es­cre­ver em ‘lin­gua­dos’, pá­gi­nas for­ma­ta­das para não ex­ce­der o es­pa­ço des­ti­na­do. De­vo ter es­cri­to mi­lha­res de ‘lin­gua­dos’ que en­tre­ga­va ao editor para irem para im­pres­são. Foi já no ‘Diá­rio de Notícias’ que veio o pri­mei­ro gran­de passo: os ‘lin­gua­dos’ ter­mi­na­vam, subs­ti­tuí­dos pe­la dis­que­te. O editor ex­traía o tex­to e de­vol­via a fer­ra­men­ta para, na se­ma­na se­guin­te, le­var no­vo ar­ti­go. Co­la­bo­rei dez anos na­que­le jor­nal. Foi tem­po para ali vi­ver a ou­tra gran­de rup­tu­ra com a che­ga­da da In­ter­net. Es­cre­via em casa e en­vi­a­va o tex­to por email. As re­la­ções pes­so­ais ter­mi­na­ram. O email unia o Mun­do quando fui con­vi­da­do para es­cre­ver nes­te jor­nal. Já lá vai uma dú­zia de anos e jul­go ser o co­la­bo­ra­dor ex­ter­no mais an­ti­go. Nos primeiros anos nun­ca ti­ve ne­ces­si­da­de de en­trar na Re­dac­ção. A In­ter­net re­sol­via tu­do.

Não há mui­tos anos, os jor­nais co­me­ça­ram a des­ma­te­ri­a­li­zar-se. Dei­xou de ser pre­ci­so ir ao quiosque. À dis­tân­cia do cli­que, qual­quer pu­bli­ca­ção. O papel subs­ti­tuí­do pelo mo­ni­tor. A vo­ra­ci­da­de do tem­po a ser mais for­te do que o pra­zer de fo­lhe­ar o pe­rió­di­co e go­zar o odor das notícias, por­que elas têm chei­ro. E co­me­çou a mor­te len­ta de jor­nais e de re­vis­tas. Ape­nas resistem os projectos editoriais mais sólidos. É o início de uma nova Ida­de e o fim de um tem­po, dois sé­cu­los, on­de o jor­nal foi pra­zer e de­vo­ção.

Sur­ge ago­ra a notícia de que o ‘Diá­rio de Notícias’ po­de­rá pas­sar a se­ma­ná­rio, tal é a fra­gi­li­da­de da ven­da em papel. É mais um passo para a mor­te anun­ci­a­da. Com má­goa o es­cre­vo, pe­las bo­as me­mó­ri­as acu­mu­la­das nes­se lu­gar. A tão con­for­tá­vel e ágil In­ter­net es­tá a ma­tar boa par­te das nos­sas afei­ções. Que mun­do no­vo e es­tra­nho, on­de o vir­tu­al do­mi­na a re­a­li­da­de, es­ta­re­mos a cons­truir sem nos dar­mos conta da­qui­lo que morre den­tro de ca­da um de nós.n

APE­NAS RESISTEM OS PROJECTOS EDITORIAIS

MAIS SÓLIDOS.

É O INÍCIO DE UMA

NOVAIDADE

Fran­cis­co Moita Flo­res Pro­fes­sor Uni­ver­si­tá­rio

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