A san­ti­nha

Destak - - Atualidade - LUÍ­SA CASTEL-BRAN­CO Es­cri­to­ra

Ami­nha avó ti­nha vá­ri­os san­tos que ado­ra­va. Mas nin­guém se com­pa­ra­va à São­zi­nha. Era uma ra­pa­ri­ga sor­ri­den­te, mui­to bo­ni­ta, com um ar cal­mo de quem se aca­bou de vestir para ir dar um pas­seio. Mas com a São­zi­nha era tu­do di­fe­ren­te. Eu de­via ser mui­to no­va a pri­mei­ra vez que fiz a viagem Ti­ve­mos que fi­car bem cá em bai­xo e su­bir a pé até à casa da san­ta, sim por­que era aí que ía­mos, aten­den­do ao grande número de pes­so­as que iam ao mes­mo. Eram fi­las e fi­las or­dei­ras. Ho­mens e mu­lhe­res com a me­lhor rou­pa, a rou­pa de ver a Deus que le­va­vam à mis­sa. Cri­an­ças em si­lên­cio que não ha­via ali lugar para brin­ca­dei­ras ou coi­sas mun­da­nas. A mal­di­ta saia de fa­zen­da com um ca­sa­co a con­di­zer da­va-me vontade de me co­çar a to­da a ho­ra. Mas a mi­nha avó man­ti­nha-nos na or­dem sem ter que abrir a bo­ca. De­pois de uma su­bi­da na­da fá­cil che­gá­mos à casa da São­zi­nha. E não é que era mes­mo uma casa igual a qual­quer ou­tra? Per­cor­ria-se o cor­re­dor e de­pois vi­ra­va-se e en­trá­va­mos di­re­ta­men­te no quarto de­la. A ca­ma fei­ta co­mo se a me­ni­na se ti­ves­se aca­ba­do de le­van­tar. As bo­ne­cas. O ar­má­rio com rou­pa e inú­me­ras ima­gens de Cris­to e Jesus. O sol en­tra­va pe­la ja­ne­la com for­ça e ba­tia no es­pe­lho do ar­má­rio. Ha­via de­pois o res­to da casa a vi­si­tar. E sem­pre em si­lên­cio as pes­so­as ca­mi­nha­vam em bi­cos dos pés até vol­ta­rem a sair para a rua. Veio-me isto à me­mó­ria. O sen­ti­men­to, um mis­to de me­do e pra­zer por fa­zer parte da história, a cu­ri­o­si­da­de que as cri­an­ças têm. E re­cor­do que mui­tos anos de­pois fui pro­cu­rar informações so­bre a san­ti­nha da mi­nha avó Con­cei­ção, que afi­nal não era san­ta ne­nhu­ma. Ape­nas al­guém que fi­ze­ra o bem e, se­gun­do re­zam as cró­ni­cas de quem es­ta­va lá, deu a sua vi­da pe­la con­ver­são do pai. Nun­ca sou­be se o se­nhor se con­ver­teu ou não. Mas ain­da ho­je re­ve­jo a ino­cên­cia da­que­las gen­tes to­das, da mi­nha avó e nós pe­la mão de­la a olhar o re­tra­to da me­ni­na. Eram tem­pos de pu­re­za. Eram tem­pos de so­nhos cor de ro­sa mes­mo que para tal al­guém ti­ves­se que mor­rer a pra­ti­car o bem.

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