Re­no­var o con­tra­to so­ci­al: em Por­tu­gal e na Eu­ro­pa

A cri­se de re­gi­me está lon­ge de es­tar de­be­la­da e obri­ga a re­pen­sar o con­tra­to so­ci­al em Por­tu­gal e na Eu­ro­pa

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - Pau­lo Tri­go Pe­rei­ra

À Te­re­za Ar­ri­a­ga (1915-2013)

1.A eco­no­mia por­tu­gue­sa não pro­duz ri­que­za su­fi­ci­en­te para ge­rar as re­cei­tas fis­cais ne­ces­sá­ri­as para as res­pon­sa­bi­li­da­des de des­pe­sa as­su­mi­das e qui­çá ga­ran­ti­das cons­ti­tu­ci­o­nal­men­te. Es­sa des­pe­sa pú­bli­ca con­cen­tra-se em três áre­as: pres­ta­ções so­ci­ais, sa­lá­ri­os da fun­ção pú­bli­ca e ju­ros da dí­vi­da. O dé­fi­ce das ad­mi­nis­tra­ções pú­bli­cas, que ago­ra in­clui o dé­fi­ce do sec­tor público em­pre­sa­ri­al (re­clas­si­fi­ca­do), acres­ci­do de ou­tras ope­ra­ções fi­nan­cei­ras es­po­rá­di­cas (e. g. re­ca­pi­ta­li­za­çao da ban­ca) fa­zem cres­cer o peso, e a in­sus­ten­ta­bi­li­da­de da dí­vi­da. O cres­ci­men­to do PIB de 1,1% no se­gun­do tri­mes­tre é agra­dá­vel, mas ha­ve­rá à mes­ma re­ces­são es­te ano e a dí­vi­da pú­bli­ca e o seu peso con­ti­nu­a­rão a au­men­tar. A cri­se em Por­tu­gal e na Eu­ro­pa está lon­ge de es­tar de­be­la­da. Se há me­di­das ime­di­a­tas que têm de ser dis­cu­ti­das há ou­tras, mais es­tru­tu­rais, que são ur­gen­tes de­ba­ter. A cri­se de re­gi­me obri­ga a re­pen­sar o con­tra­to so­ci­al em Por­tu­gal e na Eu­ro­pa.

2. Se a so­lu­ção de mé­dio e lon­go pra­zo (5 a 10 anos) pas­sa ob­vi­a­men­te pe­lo cres­ci­men­to, ele não exis­te por de­cre­to e não se­rá con­si­de­rá­vel e sus­ten­ta­do (4% ou 5% de cres­ci­men­to no­mi­nal) com po­lí­ti­cas de con­so­li­da­ção or­ça­men­tal nos pró­xi­mos anos. Por isso te­nho de­fen­di­do al­gu­mas me­di­das ime­di­a­tas: i) re­ne­go­ci­a­ção da dí­vi­da e di­mi­nui­ção dos ju­ros (não ex­cluin­do um per­dão par­ci­al da dí­vi­da); ii) au­men­to da re­cei­ta fis­cal pe­las ta­xas, o com­ba­te à eva­são, o alar­ga­men­to das ba­ses tri­bu­tá­ri­as e a ex­por­ta­ção fis­cal; iii) di­mi­nui­ção sus­ten­ta­da dos pre­juí­zos no sec­tor público em­pre­sa­ri­al; iv) re­a­fec­ta­ção de fun­dos co­mu­ni­tá­ri­os para as pres­ta­ções so­ci­ais; v) re­for­ma do fi­nan­ci­a­men­to au­tár­qui­co e re­gi­o­nal; vi) di­mi­nui­ção mo­de­ra­da, pro­gres­si­va e per­ma­nen­te (até que a eco­no­mia cres­ça sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te) do equi­va­len­te a um sa­lá­rio e uma pen­são, pre­ser­van­do os mais bai­xos ren­di­men­tos. O Go­ver­no fez ii) e iii), não vê a im­por­tân­cia de i) e fez tí­mi­das al­te­ra­ções de iv) e v) qua­se sem im­pac­to no dé­fi­ce.

3. O Acór­dão do Tri­bu­nal Cons­ti­tu­ci­o­nal ao im­pe­dir o cor­te de um sub­sí­dio a fun­ci­o­ná­ri­os e 90% a pen­si­o­nis­tas in­vi­a­bi­li­zou a me­di­da vi) e le­vou o Go­ver­no a ter que op­tar ou por uma su­bi­da de im­pos­tos ou por me­di­das ain­da mais in­jus­tas e pro­va­vel­men­te in­cons­ti­tu­ci­o­nais. Uma, o cor­te no em­pre­go público só se fa­rá a uma es­ca­la sig­ni­fi­ca­ti­va, se for pos­sí­vel co­lo­car tra­ba­lha­do­res que ti­nham no­me­a­ção de­fi­ni­ti­va em 2008 (pro­fes­so­res, mé­di­cos, en­fer­mei­ros, etc.), na re­qua­li­fi­ca­ção e ao fim de 12 me­ses even­tu­al­men­te no de­sem­pre­go. Is­to nun­ca pas­sa­rá, a meu ver bem, no Cons­ti­tu­ci­o­nal. Ou­tra, o cor­te pro­por­ci­o­nal de 10% nu­ma das com­po­nen­tes das pen­sões da Cai­xa Ge­ral de Apo­sen­ta­ções, que pro­va­vel­men­te tam­bém não pas­sa­rá. Des­de lo­go a ar­gu­men­ta­ção de que me­xer nas pen­sões CGA e não na Se­gu­ran­ça So­ci­al se jus­ti­fi­ca pe­la di­fe­ren­ça no mon­tan­te mé­dio das pen­sões não tem ca­bi­men­to (as pro­fis­sões, qua­li­fi­ca­ções e sa­lá­ri­os, en­quan­to no ac­ti­vo, são mais ele­va­dos nos da CGA). Mas mes­mo que se acei­tas­se uma me­di­da ex­clu­si­va para pen­si­o­nis­tas ac­tu­ais da CGA há me­di­das al­ter­na­ti­vas de cor­tes con­si­de­ran­do a car­rei­ra con­tri­bu­ti­va, com o mes­mo im­pac­to fi­nan­cei­ro e mui­to mais jus­tas. A CGA não fez as con­tas às car­rei­ras con­tri­bu­ti­vas de quem des­con­tou para ou­tros re­gi­mes para além do Es­ta­do, mas po­de e de­ve fa­zê-lo.

4. Se as de­ci­sões de acor­do com as re­gras não nos per­mi­tem sair da si­tu­a­ção em que es­ta­mos olhe­mos para a plau­si­bi­li­da­de das re­gras. Aqui en­tra­mos nas ques­tões es­tru­tu­rais. A re­gra de vo­ta­ção em vi­gor para de­ci­sões no Tri­bu­nal Cons­ti­tu­ci­o­nal é a da “plu­ra­li­da­de dos vo­tos”, is­to é mais vo­tos a fa­vor do que con­tra de­ci­dem o re­sul­ta­do. Ora des­de o fi­nal do séc. XIX, com Knut Wick­sell que apren­de­mos que a me­lhor for­ma de ga­ran­tir que uma pro­pos­ta de in­te­res­se ge­ral sa­tis­faz o in­te­res­se público é exi­gir uma mai­o­ria qua­li­fi­ca­da. Ima­gi­ne que a re­gra de de­ci­são do TC para vo­tar pro­pos­tas de lei (da ini­ci­a­ti­va do Go­ver­no) se­ria a mai­o­ria qua­li­fi­ca­da e que para pro­jec­tos de lei a “plu­ra­li­da­de de vo­tos”. Em re­la­ção ao re­gi­me ac­tu­al is­to sig­ni­fi­ca­ria que para se “so­bre­por” a ini­ci­a­ti­vas le­gis­la­ti­vas de gru­pos de de­pu­ta­dos, bas­ta­ria uma mai­o­ria re­la­ti­va de juí­zes, mas para se “so­bre­por” a ini­ci­a­ti­vas de go­ver­nos apro­va­das por uma mai­o­ria de de­pu­ta­dos se­ri­am ne­ces­sá­ri­os, por hi­pó­te­se dois ter­ços dos juí­zes. A apli­ca­ção des­tas no­vas re­gras al­te­ra­ria a dis­tri­bui­ção de po­der en­tre os ór­gãos de so­be­ra­nia e me­re­ce ser dis­cu­ti­da. Em ter­mos prá­ti­cos, sig­ni­fi­ca­ria que o TC, nes­te úl­ti­mo acór­dão so­bre o OE 2013, não te­ria de­cla­ra­do in­cons­ti­tu­ci­o­nal o cor­te do 14.º mês pois não se te­ria atin­gi­do a mai­o­ria de dois ter­ços (no­ve em 13 juí­zes) da­do ha­ver um vo­to de ven­ci­do de cin­co juí­zes (que ape­sar de ven­ci­dos não dei­xam de ter a ra­zão do seu la­do).

5. Ou­tra ques­tão es­tru­tu­ral a me­re­cer de­ba­te é o mo­de­lo de se­gu­ran­ça so­ci­al. Só os mais de­sa­ten­tos ain­da não per­ce­be­ram que a com­bi­na­ção de bai­xas ta­xas de na­ta­li­da­de, au­men­to de es­pe­ran­ça de vi­da, e ago­ra emi­gra­ção tor­nam in­sus­ten­tá­vel e in­jus­to o ac­tu­al mo­de­lo de re­par­ti­ção ( pay as you go). A Sué­cia já o com­pre­en­deu há mui­to e mu­dou-o, nós va­mos fa­zen­do re­for­mas in­cre­men­tais sem al­te­rar a fi­lo­so­fia ba­se do sis­te­ma. Se to­dos os di­rei­tos ac­tu­ais fo­rem ad­qui­ri­dos, quem o pa­ga­rá se­rão as ge­ra­ções fu­tu­ras. Mas cor­tar as pen­sões da CGA em na­da de es­tru­tu­ral al­te­ra o sis­te­ma. Não nos po­de­mos fur­tar ao de­ba­te da equi­da­de in­tra e in­ter­ju­ri­di­ci­o­nal e da re­for­ma do mo­de­lo da se­gu­ran­ça so­ci­al.

6. O sis­te­ma po­lí­ti­co e par­ti­dá­rio é a cau­sa do nos­so atra­so e da nos­sa cri­se, não só pe­la má qua­li­da­de de al­gu­ma ac­ti­vi­da­de le­gis­la­ti­va co­mo pe­la sua in­ca­pa­ci­da­de de fis­ca­li­zar o exe­cu­ti­vo. Para quem ne­ces­si­te de pro­vas, ve­ja-se o fo­lhe­tim em tor­no das can­di­da­tu­ras au­tár­qui­cas, ori­gi­na­do pe­la re­cu­sa da as­sem­bleia da re­pú­bli­ca em cla­ri­fi­car uma lei. Ou o ca­so do sis­te­ma elei­to­ral, fe­cha­do e blo­que­a­do, que nem in­cre­men­tal­men­te muda. Não se con­se­gue cri­ar um cír­cu­lo no Alen­te­jo quan­to mais ca­mi­nhar para al­gu­ma per­so­na­li­za­ção de vo­tos.

7. O nos­so fu­tu­ro está in­dis­so­lu­vel­men­te li­ga­do ao fu­tu­ro da Eu­ro­pa e ao nos­so pa­pel ne­le. Há de­ma­si­a­das di­men­sões im­por­tan­tes (eco­nó­mi­cas, am­bi­en­tais, cul­tu­rais, de se­gu­ran­ça, etc.) que só po­de­rão ser re­sol­vi­das à es­ca­la eu­ro­peia. Só na pri­mei­ra, a re­ne­go­ci­a­ção da dí­vi­da, a sua even­tu­al mu­tu­a­li­za­ção par­ci­al, a união ban­cá­ria, o or­ça­men­to eu­ro­peu e os fun­dos es­tru­tu­rais. Tam­bém aqui, ou se de­se­nha um no­vo con­tra­to so­ci­al, ou os paí­ses da pe­ri­fe­ria, com Por­tu­gal no pe­lo­tão da fren­te, sal­ta­rão fo­ra.

Só a re­fle­xão em tor­no da re­no­va­ção do con­tra­to so­ci­al, na di­men­são na­ci­o­nal (acór­dão do Cons­ti­tu­ci­o­nal, sis­te­ma po­lí­ti­co, se­gu­ran­ça so­ci­al, saú­de, de­si­gual­da­des) e eu­ro­peia, per­mi­ti­rá o iní­cio de um per­cur­so de re­fle­xão, de­li­be­ra­ção, con­sen­su­a­li­za­ção ou com­pro­mis­so e ad­vo­cacy que con­tri­bua para trans­por al­guns dos blo­quei­os a que che­gou a III Re­pú­bli­ca. Se tal não acon­te­cer Por­tu­gal per­ma­ne­ce­rá no be­co em que se en­con­tra.

No­ta da Di­rec­ção

Es­te é o pri­mei­ro de três ar­ti­gos de mem­bros da Di­rec­ção do Ins­ti­tu­to de Po­lí­ti­cas Pú­bli­cas TJ-CS, so­bre al­guns dos tó­pi­cos que se­rão abor­da­dos pe­los au­to­res nu­ma con­fe­rên­cia a 6 e 7 de Setembro no ISEG, Lis­boa. No pró­xi­mo do­min­go dia 25 con­ta­re­mos com um ar­ti­go de Ma­ri­na Cos­ta Lo­bo so­bre a re­for­ma do sis­te­ma po­lí­ti­co e a 1 de Setembro de Ricardo Ca­bral em tor­no da re­ne­go­ci­a­ção da dí­vi­da pú­bli­ca.

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