“O Al­que­va cor­re o ris­co de não ser uti­li­zá­vel já a par­tir de 2019”

Edição Público Lisboa - - DESPORTO -

Car­va­lho saís­se mes­mo? A me­lhor so­lu­ção era adi­ar o que es­tá em cau­sa e es­tu­dar me­lhor. Não sei o que vai acon­te­cer no sá­ba­do. Só o que ve­jo é uma coi­sa de que não gos­to: é tur­bu­lên­cia que não aju­da. Se for, se fos­se, à AG, vo­ta­ria con­tra? Se fos­se ten­ta­ria o adi­a­men­to. Se não fos­se o ca­so, vo­ta­ria con­tra. Há so­lu­ção pa­ra a pre­si­dên­cia do Sporting, se ele sair? Não ve­jo. Há sem­pre à vol­ta des­te ti­po de lí­de­res al­gu­ma de­ser­ti­fi­ca­ção. Mas há uma coi­sa que não pos­so, de for­ma ne­nhu­ma, acei­tar: é que as so­lu­ções pa­ra o Sporting se­jam só uma pes­soa. da­vid.di­nis@pu­bli­co.pt Es­pa­nha tem mais de 700 des­sa­li­ni­za­do­ras ins­ta­la­das que, só por si, pro­du­zi­ri­am água uti­li­zá­vel pa­ra Portugal in­tei­ro. E por cá, os po­lí­ti­cos nem fa­lam des­sa so­lu­ção, la­men­ta o em­pre­sá­rio. En­quan­to em­pre­sá­rio e mem­bro da As­so­ci­a­ção Me­lhor Alen­te­jo tem ma­ni­fes­ta­do pre­o­cu­pa­ção com a si­tu­a­ção de se­ca que o país vi­ve. O que é que de­vía­mos es­tar a fa­zer e não es­ta­mos? A ques­tão da se­ca é uma a que não pos­so fu­gir, por­que es­tou no olho do fu­ra­cão — no que res­pei­ta ao Alen­te­jo e re­la­ti­va­men­te às pre­vi­sões so­bre as al­te­ra­ções cli­má­ti­cas. É um pro­ble­ma em que se não hou­ver ca­pa­ci­da­de pa­ra an­te­ci­par o que po­de vir a acon­te­cer, com pro­ba­bi­li­da­de gran­de, quan­do che­gar a al­tu­ra já é tar­de. E já es­tá a fa­zer o seu ca­mi­nho. De­pois do ano hí­dri­co mui­to com­pli­ca­do em 2016/17, já es­ta­mos no 2017/18 sem ha­ver in­di­ca­ção de pos­sa ha­ver uma me­lho­ria. Es­ta­mos a 14 de Fe­ve­rei­ro, a hi­pó­te­se de ha­ver al­gu­ma chu­va só apa­re­ce a 24 — e mes­mo apa­re­cen­do es­ta chu­va a es­pa­ços não che­ga pa­ra en­char­car a ter­ra. O Es­ta­do tem ins­tru­men­tos, fa­ce à di­men­são do pro­ble­ma, pa­ra o mi­ni­mi­zar? No que res­pei­ta ao Alen­te­jo, es­ta ques­tão es­tá ain­da em es­ta­do de ne­ga­ção. Não é tra­ta­da com o sen­ti­do de emer­gên­cia — até, se ca­lhar, pelo efei­to trau­má­ti­co dos in­cên­di­os ... Não acon­te­ce que se­ja le­va­da em li­nha de con­ta a pro­ba­bi­li­da­de (que é ci­en­tí­fi­ca) de o Al­que­va... Pa­ra mui­tos o Al­que­va te­ria re­sol­vi­do o pro­ble­ma de se­ca no Alen­te­jo. Mas não... Não é as­sim e in­fe­liz­men­te, se es­te for um ano hí­dri­co pa­re­ci­do com o an­te­ri­or, o Al­que­va cor­re o sé­rio ris­co de não ser uti­li­zá­vel já a par­tir de 2019. Por­que o Al­que­va não é uti­li­zá­vel abai­xo da cha­ma­da quo­ta 135, cer­ca de 1000 hec­tó­me­tros cú­bi­cos de água.

Is­so le­va-nos à con­clu­são de

que es­ta po­lí­ti­ca ba­se­a­da em bar­ra­gens não é já o su­fi­ci­en­te? Não há tan­to uma ques­tão de adi­ar bar­ra­gens, há uma ques­tão con­cre­ta da água em si. Só faz sen­ti­do ter bar­ra­gens se elas pu­de­rem en­cher. A si­tu­a­ção a Nor­te é um bo­ca­di­nho me­lhor, mas não é mui­to me­lhor do que abai­xo do Te­jo. Mas o que é pre­ci­so é en­ten­der que o pro­ble­ma é mes­mo a en­tra­da da água. Nas su­as nas­cen­tes, o Dou­ro e o Te­jo já se­ca­ram. Fa­ce a es­se ce­ná­rio, o que é que se po­de fa­zer? Se não cho­ve, só há uma al­ter­na­ti­va: é ir bus­car a água on­de ela es­tá, que é o mar. E em Portugal fa­lar de des­sa­li­ni­za­ção é uma coi­sa que ain­da es­tá lá por trás do sol pos­to, ig­no­ran­do que a Es­pa­nha é o quar­to país do mun­do na pro­du­ção de água des­sa­li­ni­za­da. A Es­pa­nha tem mais de 700 des­sa­li­ni­za­do­ras ins­ta­la­das que, só por si, pro­du­zi­ri­am água uti­li­zá­vel pa­ra Portugal in­tei­ro. Aqui em Portugal, que eu sai­ba, te­mos uma mui­to pe­que­ni­na em Por­to San­to. Mas o que não exis­te é a per­cep­ção... é que po­dia di­zer­se: “Tal­vez pa­ra o ano”. Mas es­ta ques­tão não se põe, é o tal es­ta­do de ne­ga­ção.

Os po­lí­ti­cos não es­tão aler­ta?

E, se ver bem, são to­dos os po­lí­ti­cos. Não vê no OE pa­ra 2018, não vê no que es­tá pre­vis­to em ter­mos de fun­dos co­mu­ni­tá­ri­os e nem na pre­vi­são da dé­ca­da 2020/30 na­da a fa­lar da água! A úni­ca coi­sa que vi na in­ter­ven­ção do Go­ver­no, que é uma pon­ta do ice­ber­gue, é ten­tar mo­di­fi­car a cul­tu­ra dos por­tu­gue­ses quan­to aos seus há­bi­tos de con­su­mo da água. Que de­mo­ra mui­to tem­po e se tor­na mui­to com­pli­ca­do na vi­vên­cia diá­ria. E, de­pois, a água que sai das nos­sas ca­sas sai to­da pe­la mes­ma via, as mais su­jas e as ou­tras. Acon­te­ce que é pre­ci­so, pa­ra efei­to de re­cu­pe­ra­ção ade­qua­da (e a sua reu­ti­li­za­ção), por exem­plo em Lis­boa, le­van­tar qua­se a ci­da­de in­tei­ra. Por­que as es­tru­tu­ras es­tão qua­se to­das fei­tas pa­ra dei­xar mis­tu­rar os dois ti­pos de água. É evi­den­te que is­so im­pli­ca in­ves­ti­men­tos mui­to gran­des. No seu ca­so, na Her­da­de do Es­po­rão, on­de a água ser­ve fins agrí­co­las, o que é que já es­tá a ser fei­to? É uma ques­tão que já foi abor­da­da por nós há seis anos. Hoje gas­ta­mos um ter­ço da água — e o tra­ba­lho de ade­gas é al­ta­men­te con­su­mi­dor de água. O que fi­ze­mos foi uma li­nha de re­cu­pe­ra­ção e re­du­ção do que gas­tá­va­mos. Che­gou a ter um pro­jec­to de in­ves­ti­men­to tu­rís­ti­co mui­to am­bi­ci­o­so pa­ra o Al­que­va, que aca­bou por cair com a cri­se e por fal­ta de fi­nan­ci­a­men­to ban­cá­rio. Hoje, com o

tu­rís­ti­co, acha que era pos­sí­vel mon­tar es­se pro­jec­to?

Não. Cla­ra­men­te que se hoje ti­ves­se que ar­ran­car com um pro­jec­to da­que­les, a pers­pec­ti­va de que o Al­que­va pos­sa en­trar em cri­se era fun­da­men­tal... Aque­le era um pro­jec­to-ân­co­ra pa­ra o tu­ris­mo do Alen­te­jo co­mo o Es­po­rão foi pa­ra a vi­ti­vi­ni­cul­tu­ra. Mas com es­tas pers­pec­ti­vas, a mi­nha de­ci­são se­ria, fran­ca­men­te... Não quer di­zer que não pos­sa ha­ver pers­pec­ti­vas no tu­ris­mo, mas não po­de­mos pen­sar que o Al­que­va re­sol­ve. Tem lar­ga ex­pe­ri­ên­cia no sec­tor ban­cá­rio. Acha que ele hoje es­tá mais tran­qui­lo? Co­me­cei no GES, éra­mos seis só­ci­os (...). De­pois vol­tei no BCP (...). Sem que­rer in­sis­tir mui­to na pers­pec­ti­va do po­pu­lis­mo, pos­so pen­sar que o que acon­te­ceu ao eng. Jar­dim Gonçalves ou ao Ri­car­do Sal­ga­do são ma­ni­fes­ta­ções mui­to des­se ti­po. O que is­so aca­bou por con­du­zir à si­tu­a­ção ac­tu­al em que es­ta­mos. Is­to é, pa­ra uma par­te im­por­tan­tís­si­ma do sec­tor, os cen­tros de de­ci­são não es­tão em Portugal. Não po­de­mos pen­sar ou ima­gi­nar que os ban­cos são ins­ti­tui­ções de ca­ri­da­de, hoje até por ra­zões de so­bre­vi­vên­cia. Hoje em dia, te­mos de acei­tar o fac­to de as de­ci­sões já não es­ta­rem aqui. A que­da de Jar­dim Gonçalves e Ri­car­do Sal­ga­do acon­te­ceu por ra­zões po­lí­ti­cas? Não. A for­ma que ca­rac­te­ri­zou o po­pu­lis­mo, de “eu é que sou im­por­tan­te, a ins­ti­tui­ção é me­nos im­por­tan­te” foi, quan­to a mim, uma par­te mui­to im­por­tan­te da­qui­lo que acon­te­ceu. Há du­as coi­sas que mui­tas ve­zes se con­fun­dem: po­der é uma coi­sa, ga­nân­cia é ou­tra. Às ve­zes quan­do se jun­tam os dois, a com­bi­na­ção é um bo­ca­do ex­plo­si­va. As con­sequên­ci­as que vi­e­ram... mas te­mos de di­zer uma coi­sa: o Ban­co de Portugal e as au­to­ri­da­des de su­per­vi­são não fi­ze­ram o tra­ba­lho de ca­sa.

Da­vid Di­nis (PÚ­BLI­CO) e Eu­ni­ce Lou­ren­ço (Re­nas­cen­ça)

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