Do cres­ci­men­to da hos­pi­ta­li­za­ção pri­va­da

Co­mo for­ne­cer um ser­vi­ço de qua­li­da­de quan­do se de­ci­de uni­la­te­ral­men­te bai­xar os pre­ços em 10%?

Edição Público Lisboa - - ESPAÇO PÚBLICO - Paul Ga­ras­sus

Ahos­pi­ta­li­za­ção pri­va­da eu­ro­peia es­tá a cres­cer, mas es­ta­rá a ser re­co­nhe­ci­da e res­pei­ta­da na sua atu­a­ção? Aten­da­mos, pois, às re­co­men­da­ções do Re­la­tó­rio do Pai­nel de Pe­ri­tos so­bre For­mas Efe­ti­vas de In­ves­tir na Saú­de. Quais são? Os in­ves­ti­men­tos de­vem ser ori­en­ta­dos pe­la qua­li­da­de e se­gu­ran­ça dos cui­da­dos. To­das as re­for­mas in­ter­na­ci­o­nais em cur­so fa­vo­re­cem a com­bi­na­ção de fi­nan­ci­a­men­to que te­nha por ba­se a ati­vi­da­de de pres­ta­ção de cui­da­dos, mas tam­bém in­clua in­di­ca­do­res de qua­li­da­de. Em qua­se to­dos os paí­ses eu­ro­peus, a saú­de tem um cus­to que atin­giu os seus li­mi­tes e o se­tor pri­va­do cus­ta me­nos do que o pú­bli­co... Porquê fa­vo­re­cer, en­tão, o mais ca­ro que é o pú­bli­co?

As re­du­ções ta­ri­fá­ri­as no se­tor pri­va­do são uma ten­ta­ção fre­quen­te. O exem­plo de Portugal é tão mau que se tor­na cho­can­te. Co­mo for­ne­cer um ser­vi­ço de qua­li­da­de quan­do se de­ci­de uni­la­te­ral­men­te bai­xar os pre­ços em 10%? Que se­tor, se­ja es­te pú­bli­co ou pri­va­do, po­de ab­sor­ver es­se cho­que, que põe em cau­sa uma es­tra­té­gia de for­ma­ção, de in­ves­ti­men­to e de or­ga­ni­za­ção, sem ine­vi­ta­vel­men­te de­gra­dar o ser­vi­ço pres­ta­do?

De­ve­mos re­to­mar os prin­cí­pi­os da te­o­ria dos con­tra­tos e a in­de­pen­dên­cia dos ato­res. Nos “Es­ta­dos re­gu­la­do­res”, a in­de­pen­dên­cia en­tre o re­gu­la­dor e o pres­ta­dor é uma obri­ga­ção. Lem­bran­do o prin­cí­pio sim­ples da equi­da­de, porquê su­jei­tar ape­nas o se­tor pri­va­do a uma res­tri­ção eco­nó­mi­ca não re­a­lis­ta, sem que, por um la­do, os in­di­ca­do­res de qua­li­da­de se­jam pri­o­ri­za­dos e, por ou­tro la­do, sem que os es­for­ços se­jam equi­va­len­tes ou par­ti­lha­dos, in­de­pen­den­te­men­te da na­tu­re­za ju­rí­di­ca das ins­ti­tui­ções?

A União Eu­ro­peia de Hos­pi­ta­li­za­ção Pri­va­da (UEHP) es­tá en­vol­vi­da em to­das as ba­ta­lhas ao ser­vi­ço do pa­ci­en­te — o res­pei­to da sua li­vre es­co­lha —, mas ain­da é ne­ces­sá­rio que uma “con­cor­rên­cia le­al” se­ja re­co­nhe­ci­da en­tre os se­to­res e que as es­tra­té­gi­as de in­ves­ti­men­to e as com­pe­tên­ci­as de ges­tão, que é um dos pon­tos for­tes do nos­so se­tor pa­ra a ino­va­ção or­ga­ni­za­ci­o­nal, se­jam va­lo­ri­za­das pa­ra que se man­te­nha o ci­clo de in­ves­ti­men­to.

Qual é o se­tor de saú­de apto a im­ple­men­tar pro­gra­mas de in­ves­ti­men­to sus­ten­tá­vel, se as po­lí­ti­cas in­jus­tas de pre­ços re­al­men­te os proí­bem? Pen­sa-se que um in­ves­ti­men­to em equi­pa­men­tos mé­di­cos é de­ci­di­do por um ano, es­pe­ran­do de­pois sa­ber se se­rá sus­ten­tá­vel no ano se­guin­te? Quem é que po­de tam­bém ex­pli­car o que mo­ti­va os go­ver­nos a di­mi­nuí­rem o pre­ço do se­tor mais ba­ra­to, o se­tor pri­va­do?

É ir­re­a­lis­ta acre­di­tar que es­tá a ser ti­do em con­ta o ob­je­ti­vo de re­du­zir o tem­po de es­pe­ra do pa­ci­en­te, quan­do se re­duz dras­ti­ca­men­te o fi­nan­ci­a­men­to hos­pi­ta­lar. Se­rá que um Es­ta­do re­gu­la­dor que to­ma tal de­ci­são te­ve em con­si­de­ra­ção os im­pac­tos qua­li­ta­ti­vos de tais me­di­das e o ris­co que es­tas acar­re­tam? A re­gu­la­men­ta­ção ta­ri­fá­ria pa­re­ce ig­no­rar a ges­tão de ris­cos, a qua­li­da­de dos cui­da­dos e os in­ves­ti­men­tos pro­du­ti­vos.

Saú­de com des­con­to (ou low cost) é uma es­tra­té­gia per­de­do­ra, por­que é o pa­ci­en­te que, em úl­ti­ma ins­tân­cia, não é con­si­de­ra­do. Por­tan­to, a so­lu­ção úni­ca, ver­da­dei­ra e fi­el aos com­pro­mis­sos eu­ro­peus é a da qua­li­da­de dos ser­vi­ços pres­ta­dos. Os pres­ta­do­res pri­va­dos es­ti­ve­ram im­pli­ca­dos em to­das as re­so­lu­ções que co­lo­cam es­sa sim­ples obri­ga­ção an­tes de qual­quer de­ci­são. A for­ça do se­tor pri­va­do é a sua adap­ta­bi­li­da­de às evo­lu­ções: aten­di­men­to de am­bu­la­tó­rio, di­ag­nós­ti­co pre­co­ce, li­vre es­co­lha, ino­va­ção e re­du­ção de lis­tas de es­pe­ra.

A nos­sa pu­bli­ca­ção no Par­la­men­to Europeu, Hos­pi­tais Pri­va­dos na Eu­ro­pa: apoi­ar sis­te­mas de saú­de sus­ten­tá­veis, é o ga­ran­te des­se com­pro­mis­so. Es­pe­ra­mos res­pon­sa­bi­li­da­des par­ti­lha­das e equi­da­de em qual­quer de­ci­são pú­bli­ca que afe­te a or­ga­ni­za­ção dos cui­da­dos de saú­de. Es­tas são ra­zões for­tes pa­ra ter hos­pi­tais pri­va­dos: a qua­li­da­de do ser­vi­ço e o fo­co no pa­ci­en­te. Des­ta for­ma, não po­de­mos acei­tar uma abor­da­gem de cur­to pra­zo e que ape­nas va­lo­ri­ze o pre­ço. É por is­so que a UEHP e a As­so­ci­a­ção Por­tu­gue­sa de Hos­pi­ta­li­za­ção Pri­va­da (APHP) es­tão jun­tas nes­ta lu­ta. Pre­si­den­te da União Eu­ro­peia de Hos­pi­ta­li­za­ção Pri­va­da

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.