Um ano de­pois, 650 pes­so­as não re­cu­pe­ra­ram os em­pre­gos

Os incêndios de Ou­tu­bro de 2017 afec­ta­ram 470 em­pre­sas e pu­se­ram em pe­ri­go 5000 pos­tos de tra­ba­lho. O Es­ta­do com­par­ti­ci­pou com 100 mi­lhões de eu­ros pro­jec­tos de re­cons­tru­ção de em­pre­sas

Edição Público Lisboa - - FRONT PAGE - Luísa Pin­to e Ca­mi­lo Sol­da­do

No dia em que fi­zer um ano em que os 94 em­pre­ga­dos da fá­bri­ca de cal­ça­do OQ-Fá­bri­ca do Ar­da, de Cas­te­lo de Pai­va, vi­ram as cha­mas re­du­zir a es­com­bros os seus pos­tos de tra­ba­lho, cer­ca de du­as de­ze­nas de tra­ba­lha­do­res vol­tam a pi­sar o chão da fá­bri­ca. No mes­mo sí­tio, mas em ins­ta­la­ções novas e com um pa­trão no­vo: Rei­nal­do Tei­xei­ra, o do­no do gru­po Ca­ri­té, de Fel­guei­ras, foi quem res­pon­deu ao rep­to do pre­si­den­te da Câ­ma­ra de Cas­te­lo de Pai­va e apa­re­ceu ao la­do do Go­ver­no em No­vem­bro a apre­sen­tar a li­nha Re­por. Com 100 mi­lhões de eu­ros dis­po­ní­veis, num fi­nan­ci­a­men­to mon­tan­do com re­em­bol­sos do an­ti­go QREN, es­te era o prin­ci­pal ins­tru­men­to com o qu­al o Go­ver­no pre­ten­dia apoi­ar a re­po­si­ção da ca­pa­ci­da­de pro­du­ti­va nas cer­ca de 470 em­pre­sas que fo­ram atingidas pe­los incêndios de 15 de Ou­tu­bro.

Um ano de­pois, nem to­das as em­pre­sas re­cor­re­ram a es­ta li­nha de fi­nan­ci­a­men­to, que pres­su­pu­nha uma can­di­da­tu­ra ao sis­te­ma de in­cen­ti­vos e que po­de­ria per­mi­tir a atri­bui­ção de 85% do in­ves­ti­men­to pre­vis­to. A re­cu­pe­ra­ção da fá­bri­ca de Cas­te­lo de Pai­va foi a pri­mei­ra a ser anun­ci­a­da, mas não foi is­so que per­mi­tiu que o pro­ces­so fos­se mais cé­le­re. “Tu­do le­va o seu tem­po. Foi pre­ci­so ad­qui­rir o ter­re­no, reconstruir a fá­bri­ca — e não foi fá­cil en­con­trar em­pre­sas de cons­tru­ção —, com­prar má­qui­nas e dar for­ma­ção ao pes­so­al. Mas no dia 15 po­de­re­mos sim­bo­li­ca­men­te co­me­çar. Va­mos co­me­çar com cer­ca de du­as de­ze­nas e meia de pes­so­as. As ou­tras re­gres­sa­rão mais tar­de”, ex­pli­cou Rei­nal­do Tei­xei­ra. O em­pre­sá­rio ten­ci­o­na man­ter to­dos os pos­tos de tra­ba­lho, e re­fe­re que os fun­ci­o­ná­ri­os es­ti­ve­ram en­tre­tan­to a fa­zer cur­sos de for­ma­ção fi­nan­ci­a­dos pe­lo IEFP.

As em­pre­sas que con­se­gui­ram ar­ran­jar ins­ta­la­ções pa­ra re­co­me­çar a la­bo­rar tra­ta­ram de o fa­zer no ime­di­a­to — por­que é con­ti­nu­ar a ac­ti­vi­da­de que per­mi­te pa­gar as con­tas e

As em­pre­sas que con­se­gui­ram ar­ran­jar ins­ta­la­ções pa­ra re­co­me­çar a la­bo­rar tra­ta­ram de o fa­zer no ime­di­a­to

con­ti­nu­ar a as­se­gu­rar a estrutura de cus­tos que di­mi­nuiu pou­co. O Go­ver­no tam­bém isen­tou os em­pre­sá­ri­os de pa­gar o con­tri­bu­to pa­ra a Se­gu­ran­ça So­ci­al dos fun­ci­o­ná­ri­os du­ran­te um ano.

Foi o ca­so da em­pre­sa J. Guerra, em Oli­vei­ra do Hos­pi­tal, que tra­tou de com­prar um edi­fí­cio pa­ra co­me­çar a tra­ba­lhar com os mes­mos tra­ba­lha­do­res em um quar­to da área que ti­nha. Apre­sen­tou uma can­di­da­tu­ra de dez mi­lhões de eu­ros, mas ain­da não es­tá apro­va­da. Ou ain­da o ca­so em­pre­sa Le­al & Soares, que faz pro­du­ção de subs­tra­tos e pel­lets na zo­na in­dus­tri­al de Mi­ra e que te­ve pre­juí­zos de tal for­ma sig­ni­fi­ca­ti­vos que é aque­la que vai re­ce­ber o va­lor mais al­to do pro­gra­ma Re­por, com 10,4 mi­lhões de eu­ros atri­buí­dos. Sem es­se va­lor, ex­pli­cou o ad­mi­nis­tra­dor Car­los Soares ao PÚ­BLI­CO, não se­ria pos­sí­vel a re­cons­tru­ção. “Tem si­do um ano de lu­ta”, afir­ma, en­quan­to vai apon­tan­do pa­ra os ves­tí­gi­os ne­gros do in­cên­dio que ain­da se fa­zem no­tar em vá­ri­os pon­tos. Nos cer­ca de 120 mil me­tros qua­dra­dos da área fa­bril tra­ba­lham 108 tra­ba­lha­do­res, nú­me­ro que se man­tém des­de an­tes de 15 de Ou­tu­bro. Pas­sa­da a pri­mei­ra se­ma­na de rescaldo, a pro­du­ção não pa­rou. A em­pre­sa ar­ren­dou ins­ta­la­ções nas ime­di­a­ções e ali con­ti­nu­ou até ao fi­nal de 2017. En­tre­tan­to, os pa­vi­lhões da zo­na de pro­du­ção fo­ram qua­se to­dos de­mo­li­dos pa­ra dar iní­cio ao pro­ces­so de re­cons­tru­ção.

De acor­do com as in­for­ma­ções da­das ao PÚ­BLI­CO pe­lo Mi­nis­té­rio do Pla­ne­a­men­to e In­fra-es­tru­tu­ras, das 470 em­pre­sas atingidas pe­los incêndios de Ou­tu­bro (42 em­pre­sas na re­gião nor­te, com 300 tra­ba­lha­do­res, e 388 em­pre­sas na re­gião cen­tro, com 4700 tra­ba­lha­do­res), já fo­ram apre­sen­ta­das 398 can­di­da­tu­ras e apro­va­das 278. Há ca­sos de em­pre­sas que fi­ca­ram pe­lo ca­mi­nho, e há ou­tros ca­sos de em­pre­sas que apro­vei­ta­ram pa­ra ex­pan­dir as

li­nhas de pro­du­ção e até au­men­tar o nú­me­ro dos pos­tos de tra­ba­lho. Usan­do co­mo re­fe­rên­cia os 329 pro­jec­tos apro­va­dos en­tre as can­di­da­tu­ras ao Re­por apre­sen­ta­das por cau­sa dos incêndios de Ju­nho e Ou­tu­bro con­clui-se que as em­pre­sas em cau­sa ti­nham 3058 pos­tos de tra­ba­lho; com a con­cre­ti­za­ção dos pro­jec­tos apro­va­dos fi­ca­rão com 3335 tra­ba­lha­do­res.

De acor­do com o MPI, ain­da es­tão em aná­li­se 120 can­di­da­tu­ras que, a se­rem apro­va­das, per­mi­ti­rão a sal­va­guar­da de 4657 pos­tos de tra­ba­lho. Con­tas fei­tas, en­tre os 5000 afec­ta­dos em Ou­tu­bro e os cer­ca de 200 em Ju­nho, sig­ni­fi­ca que os apoi­os pú­bli­cos vão per­mi­tir sal­va­guar­dar 89,5% do to­tal de pos­tos de tra­ba­lho afec­ta­dos pe­los incêndios de 2017. Ou que se per­de­ram 650 pos­tos de tra­ba­lho com a tra­gé­dia.

“A sal­va­guar­da dos pos­tos de tra­ba­lho era pa­ra o Go­ver­no a com­po­nen­te mais crí­ti­ca. E por is­so fi­co sa­tis­fei­to por re­gres­sar a em­pre­sas que vi com­ple­ta­men­te quei­ma­das há um ano e es­ta­rem ago­ra pron­tas a re­to­mar a ac­ti­vi­da­de”, co­men­tou ao PÚ­BLI­CO Pe­dro Mar­ques, à mar­gem da inau­gu­ra­ção de du­as fá­bri­cas em Mor­tá­gua es­ta se­ma­na. O mi­nis­tro do Pla­ne­a­men­to diz que gostaria de ter ido mais lon­ge, mas não dei­xa de fa­zer um ba­lan­ço po­si­ti­vo na­qui­lo que foi con­se­gui­do ao lon­go do úl­ti­mo ano.

Luís Lagos, pre­si­den­te da As­so­ci­a­ção das Ví­ti­mas do Mai­or In­cên­dio de Sem­pre em Por­tu­gal (AVMISP) su­bli­nha os as­pec­tos po­si­ti­vos da in­ter­ven­ção na re­cu­pe­ra­ção das em­pre­sas, mas não dei­xa de re­lem­brar a dis­cri­mi­na­ção que exis­tiu ini­ci­al­men­te en­tre as em­pre­sas afec­ta­das em Ju­nho e em Ou­tu­bro, com as pri­mei­ras a re­ce­be­rem mais apoi­os do que as se­gun­das. Se es­sa dis­cri­mi­na­ção desapareceu no ca­so das em­pre­sas, man­te­ve-se, re­fe­re Luís Lagos, na ques­tão dos apoi­os à agri­cul­tu­ra, por ter ti­do “um apoio re­si­du­al, num pro­gra­ma que não se en­qua­dra­va de to­do com na­qui­lo que ti­nha acon­te­ci­do aqui”. “O Mi­nis­té­rio da Agri­cul­tu­ra não apoi­ou 20 mil agri­cul­to­res. Apoi­ou 20 mil pro­pri­e­tá­ri­os. Quem tem um pi­nhal é di­fe­ren­te de se ocu­par da agri­cul­tu­ra a ní­vel pro­fis­si­o­nal”, su­bli­nha Luís Lagos.

O pre­si­den­te da AVMISP re­fe­re ain­da “a gran­de ca­pa­ci­da­de de re­si­li­ên­cia dos em­pre­sá­ri­os lo­cais pa­ra con­ti­nu­a­rem a tra­ba­lhar nu­ma si­tu­a­ção mui­to dé­bil”. “Não co­nhe­ço ne­nhum ca­so de al­guém que te­nha pa­ra­do. Co­nhe­ço ca­sos de em­pre­sas sem ac­ti­vi­da­de, mas que não man­da­ram as pes­so­as pa­ra ca­sa. Pro­cu­ra­ram re­to­mar ac­ti­vi­da­de o mais rá­pi­do pos­sí­vel e alu­gar es­pa­ços no­vos. Mas tam­bém não co­nhe­ço ne­nhu­ma em­pre­sa que es­te­ja 100% re­cu­pe­ra­da da­qui­lo que acon­te­ceu”, de­cla­rou.

Não co­nhe­ço ne­nhu­ma em­pre­sa que es­te­ja 100% re­cu­pe­ra­da da­qui­lo que acon­te­ceu Luís Lagos Pre­si­den­te de uma as­so­ci­a­ção das ví­ti­mas

PAU­LO PI­MEN­TA

Car­los Soares, ad­mi­nis­tra­dor de uma em­pre­sa de Mi­ra, re­ce­beu 10,4 mi­lhões de eu­ros de apoio. Tem 108 tra­ba­lha­do­res a car­go

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