“OS ALU­NOS, AGO­RA, SÃO MUI­TO BONS: NÃO SA­BEM A TA­BU­A­DA, TE­RÃO DE­FI­CI­ÊN­CI­AS NO PORTUGUÊS, MAS TÊM UMA DE­ZE­NA DE PRE­DI­CA­DOS QUE NÃO TE­NHO E NUN­CA TI­VE”

JN História - - Entrevista -

Em que as­pe­tos?

Por exem­plo, o nú­me­ro de pu­bli­ca­ções – não a qualidade, mas o nú­me­ro: dez va­le mais do que no­ve. Se eu ti­ver dez artigos de pa­lha e um de qualidade (o Sti­glitz ga­nhou o No­bel da Economia com um ar­ti­go de dez pá­gi­nas), não in­te­res­sa. É a pe­so. E pu­bli­ca­do em re­vis­tas, de pre­fe­rên­cia es­tran­gei­ras e com ar­bi­tra­gem ce­ga: há du­as pes­so­as, que não co­nhe­ce­mos, que vêm e di­zem que sim. É re­la­ti­va­men­te fá­cil eu man­dar um ar­ti­go pa­ra uma re­vis­ta es­tran­gei­ra de se­gun­da ou ter­cei­ra ca­te­go­ria, cheio de as­nei­ras de His­tó­ria por­tu­gue­sa, e os ár­bi­tros es­tran­gei­ros não per­ce­be­rem e dei­xa­rem pas­sar. De­pois, é a ob­ses­são do in­glês, que es­tá a fa­zer mui­to mal à his­to­ri­o­gra­fia por­tu­gue­sa. Faz bem, no sen­ti­do de ser mais bem di­vul­ga­da, mas o in­glês é um in­glês de con­gres­so, com vo­ca­bu­lá­rio mui­to po­bre, sem ne­nhu­ma cons­tru­ção es­ti­lís­ti­ca, na­da. É um ins­tru­men­to de co­mu­ni­ca­ção mí­ni­mo.

Is­so di­fi­cul­ta-lhes o de­sen­vol­vi­men­to da ex­pres­são em português, a com­pre­en­são do fran­cês es­tá per­di­da...

Per­der a his­to­ri­o­gra­fia fran­ce­sa é co­mo uma pes­soa de fi­lo­so­fia não sa­ber ale­mão ou uma pes­soa de Di­rei­to não sa­ber la­tim. A his­to­ri­o­gra­fia fran­ce­sa não é a me­lhor do mun­do, po­de não es­tar com a for­ça que te­ve nou­tros anos, tam­bém ho­je já não vi­ve­mos tem­pos pa­ra os maî­tres a pen­ser, pa­ra os Le Goffs, pa­ra o Mi­chel Vo­vel­le, pa­ra o Bour­di­eu, mas a quan­ti­da­de e a qualidade do que se faz em Fran­ça continua a ser ex­ce­ci­o­nal.

Fa­le-me das su­as re­fe­rên­ci­as. Sei, por exem­plo, que guar­da uma me­mó­ria es­pe­ci­al de Ar­min­do de Sousa, de qu­em foi as­sis­ten­te mui­tos anos.

Uma vez, eu es­ta­va num co­ló­quio em Es­pa­nha, com uma sé­rie de gen­te, e um de­les per­gun­tou- me qual era o meu mes­tre. Eu nun­ca ti­nha pos­to a ques­tão as­sim, he­si­tei, he­si­tei e dis­se que não ti­nha um mes­tre, mas vá­ri­os. Ti­ve vá­ri­os pro­fes­so­res que me mar­ca­ram mui­to, e po­nho à fren­te Ro­me­ro Ma­ga­lhães, por­que foi o que co­me­çou mais ce­do e que de­ci­diu a mi­nha vi­da.

E que se tor­nou ami­go...

Sim, e continua a ser o meu men­tor. É o gran­de dis­cí­pu­lo do Vi­to­ri­no Ma­ga­lhães Go­di­nho e, pa­ra mim, é um dos mai­o­res his­to­ri­a­do­res por­tu­gue­ses. Na fa­cul­da­de, eu he­si­ta­va en­tre a ar­que­o­lo­gia, pa­ra des­co­brir o tú­mu­lo do In­di­a­na Jo­nes, e a con­tem­po­râ­nea, pe­las gre­ves, mo­vi­men­to ope­rá­rio, etc. E ti­ve o dou­tor Ba­que­ro Mo­re­no no pri­mei­ro e no se­gun­do anos e mu­dei pa­ra me­di­e­val. De­le apren­di mui­to, co­mo do prof. Jo­sé Mar­ques, o res­pei­to pe­lo do­cu­men­to. Sou mui­to um his­to­ri­a­dor de ar­qui­vo e de do­cu­men­tos. Do Ar­min­do de Sousa, de qu­em fui as­sis­ten­te mui­tos anos (eu acho que fui sem­pre as­sis­ten­te de­le), não me pos­so nem me de­vo con­si­de­rar dis­cí­pu­lo, por­que não é dis­cí­pu­lo qu­em quer. Se ele fos­se vi­vo, ele di­ria se me con­si­de­ra­va ou não, e cer­ta­men­te não con­si­de­ra­ria. Eu era mui­to ami­go de­le, ti­nha uma ad­mi­ra­ção sem limites por ele, do pon­to de vis­ta in­te­lec­tu­al, co­mo professor, co­mo pen­sa­dor, co­mo pro­sa­dor e co­mo his­to­ri­a­dor. Ten­to co­pi­ar bo­ca­di­nhos, mas fal­ta-me tu­do, fal­ta-me o ta­len­to, fal­ta-me gé­nio, fal­ta-me a pre­pa­ra­ção que ele ti­nha. A ou­tro ní­vel, aqui na ca­sa, tam­bém o Prof. Armando Luís de Carvalho Ho­mem: fo­mos alu­nos de­le e es­tá­va­mos a ter a me­lhor bi­bli­o­gra­fia que es­ta­va a sair em Fran­ça. Ele acom­pa­nha­va, co­nhe­cia as pes­so­as pes­so­al­men­te, ele in­tro­du­ziu o es­tu­do da pro­so­po­gra­fia em Por­tu­gal quan­do ele es­ta­va a ser in­tro­du­zi­do em Fran­ça, e ele fazia par­te des­se gru­po. Do pon­to de vis­ta da bi­bli­o­gra­fia e da aten­ção aos pro­ble­mas, de­vo-lhe mui­to a ele. De­vo mui­to à prof. Iria Gonçalves, pe­lo mé­to­do, pe­la ma­nei­ra de es­tar na car­rei­ra e na vi­da... se qui­ser, eu rou­bei ins­pi­ra­ção a mui­ta, mui­ta gen­te.

E sen­te-se mes­tre de al­guém?

Não, não, acho que não. To­dos os dias eu aju­do ori­en­tan­dos, é o meu pa­pel. Há pes­so­as que pre­ci­sam de um ori­en­ta­dor dis­ci­pli­na­dor, e mui­ta gen­te faz is­so mui­to bem, mas eu não sei nem gos­to de fa­zer is­so. Sou o ori­en­ta­dor me­nos di­re­ti­vo que po­de ha­ver. Não qu­e­ro for­mar dis­cí­pu­los. Qu­e­ro aju­dar pes­so­as e o mais ce­do pos­sí­vel vê-las vo­ar e vo­ar ra­pi­da­men­te mui­to mais al­to do que eu, e te­nho ti­do es­sa sa­tis­fa­ção mui­tas vezes.

É is­so a re­a­li­za­ção de um professor?

Acho que sim. Eu gos­ta­va de ins­pi­rar os alu­nos e fa­ço o que pos­so. Se não ins­pi­ro é por­que não pos­so mais. Não dou mais do que is­so.

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