A que­da de um im­pé­rio

Jo­seph Roth, no­me mai­or da li­te­ra­tu­ra aus­tría­ca do sé­cu­lo XX, é ago­ra re­cu­pe­ra­do em Por­tu­gal atra­vés da edição da sua obra-pri­ma, “A Mar­cha de Ra­detzky”.

Jornal de Negócios - - WEEKEND NEGOCIOS - FER­NAN­DO SOBRAL

Na es­cri­ta de Jo­seph Roth, há re­a­lis­mo e cla­ri­da­de. E mui­tas ve­zes as su­as fra­ses são me­tá­fo­ras ines­pe­ra­das. Es­te no­tá­vel ro­man­cis­ta aus­tría­co, que mos­trou to­do o seu ta­len­to nas dé­ca­das de 1920 e 1930, evi­den­ci­ou-se pe­los de­ta­lhes e ima­gens. Há quem com­pa­re a sua pro­sa à do gran­de po­e­ta rus­so Osip Man­dels­tam, no seu grau tan­to de abs­trac­ção co­mo de ca­pa­ci­da­de de ver cer­tei­ro. O seu grau de ma­gia cri­a­ti­va po­de ser en­con­tra­do em to­das as su­as no­ve­las, des­de “The Spi­der’s Web” (1923) até à úl­ti­ma, “The String ofPe­arls” (pu­bli­ca­da em 1939, mas es­cri­ta en­tre 1936-37). “Ho­tel Sa­voy” (1924) é tal­vez o iní­cio a sua fa­se ma­du­ra e con­ta-nos a his­tó­ria de Ga­bri­el Dan que, de­pois de ter es­ta­do num cam­po de con­cen­tra­ção na Si­bé­ria, após a guer­ra, vai re­si­dir pa­ra o enor­me Ho­tel Sa­voy, cheio de re­fu­gi­a­dos de guer­ra. As me­tá­fo­ras es­tão sem­pre lá: “O meu quar­to – um dos mais ba­ra­tos – fi­ca no sex­to an­dar, nú­me­ro 703. Gos­to do nú­me­ro – sou su­pers­ti­ci­o­so com eles – e o ze­ro do meio é co­mo uma se­nho­ra la­de­a­da por dois se­nho­res, um mais ve­lho, outro mais no­vo”. Tal co­mo Karl Kraus fo­ra um mes­tre na ar­te dos fo­lhe­tins, pe­que­nas obras de fic­ção, Roth se­guiu es­sa ló­gi­ca que se po­de ver nal­guns dos seus ro­man­ces. Era uma das fór­mu­las tí­pi­cas da cri­a­ção li­te­rá­ria de Vi­e­na nes­sa al­tu­ra. Aí, Roth apren­deu o va­lor de ca­da fra- se, fa­zen­do com que ti­ves­se uma ener­gia su­pe­ri­or. Por is­so mes­mo os afo­ris­mos e as me­tá­fo­ras ga­nham aqui tam­bém gran­de sen­ti­do, tal co­mo su­ce­de nos li­vros de Roth. E is­so é igual­men­te muito vi­sí­vel na­que­la que é a sua obra-pri­ma, “A Mar­cha de Ra­detzky”. Ca­da fra­se é uma ex­plo­são de sig­ni­fi­ca­do e cor. Quando se che­ga qua­se ao fi­nal do li­vro, há uma que exem­pli­fi­ca is­so mes­mo: “A chu­va, fi­na e in­can­sá­vel en­vol­via o Pa­lá­cio de Schon­brunn, co­mo o ma­ni­có­mio de Stei­nhof.” Tu­do se as­se­me­lha ao fim: da fa­mí­lia, do im­pe­ra­dor, do Im­pé­rio Aus­tro-Hún­ga­ro. As três ge­ra­ções da mesma fa­mí­lia que aqui se­gui­mos, na sua dis­so­lu­ção, sim­bo­li­zam as do im­pé­rio, tam­bém ele a ru­mar à sua in­sol­vên­cia po­lí­ti­ca e ge­o­grá­fi­ca. O des­ti­no da fa­mí­lia Trot­ta é pa­ra­le­lo à do im­pe­ra­dor Fran­cis­co Jo­sé: tu­do ca­mi­nha pa­ra o seu fim: “O se­nhor Von Trot­ta foi pe­la ave­ni­da, a mesma ave­ni­da que há muito, muito tem­po, per­cor­re­ra pa­ra a au­di­ên­cia se­cre­ta so­bre o ca­so do fi­lho. O fi­lho ti­nha mor­ri­do. E tam­bém o Im­pe­ra­dor es­ta­va a mor­rer. E, pe­la pri­mei­ra vez des­de que o se­nhor Von Trot­ta ha­via re­ce­bi­do a no­tí­cia da mor­te, achou que sa­bia que o fi­lho não mor­re­ra por aca­so. O im­pe­ra­dor não po­dia so­bre­vi­ver aos Trot­tas, pen­sou o co­mis­sá­rio dis­tri­tal. Eles ti­nham-no sal­vo, e ele não ia so­bre­vi­ver aos Trot­tas.” É o fim de um tem­po que Roth, com bri­lhan­tis­mo, des­cre­ve. Re­cor­de-se que Jo­seph Roth nas­ceu em 1894, nas mar­gens do im­pé­rio, nu­ma par­te que ago­ra per­ten­ce à Ucrâ­nia. É uma sen­sa­ção de de­sin­te­gra­ção. Afi­nal, Jo­seph Ra­detzky, um ve­te­ra­no de vá­ri­as ba­ta­lhas das guer­ras na­po­leó­ni­cas, foi uma das gló­ri­as do im­pé­rio. O seu su­ces­so, ele que foi che­fe dos exér­ci­tos do im­pé­rio, foi tal que só oca­si­o­nal­men­te ga­nhou uma ba­ta­lha. De­pois da sua mor­te vi­e­ram os di­as ter­rí­veis: a Áus­tria foi der­ro­ta­da por Na­po­leão, por Bis­mack, e fi­nal­men­te pe­la I Guer­ra Mun­di­al. Aqui, os gran­des acon­te­ci­men­tos re­flec­tem ape­nas a vi­da das per­so­na­gens, a dos três Trot­tas que se­gui­ram o im­pe­ra­dor, ape­sar das su­as li­mi­ta­ções. Tu­do ru­mo ao fim de uma era.

J OSE PH ROTH A Mar­cha de Ra­detsky Ve­ga, 288 pá­gi­nas, 2 018

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