UMA GRACIOSA SUR­PRE­SA

Da vi­si­ta a uma ma­ris­quei­ra pa­ra on­de pa­re­cem con­fluir os aman­tes da boa me­sa na pe­que­na ilha aço­ri­a­na, o crí­ti­co apro­vei­ta pa­ra te­cer uma apre­ci­a­ção do mo­men­to da res­tau­ra­ção no ar­qui­pé­la­go.

Jornal de Notícias - JN + Evasões - - CRÍTICA - POR FRAN­CIS­CO SEI­XAS DA COS­TA EM­BAI­XA­DOR E GASTRÓFILO (es­cre­ve na Eva­sões nas úl­ti­mas sex­tas-fei­ras do mês)

Os Aço­res es­tão na mo­da. De há uns tem­pos pa­ra cá, o tu­ris­mo que tem Por­tu­gal co­mo destino, can­sa­do do ób­vio, do sol-e-praia e das igre­jas que a his­tó­ria nos dei­xou, pas­sou a olhar a nos­sa na­tu­re­za com ou­tros olhos. De iní­cio, eram uns bri­tâ­ni­cos e nór­di­cos des­lum­bra­dos com os ca­mi­nhos mon­ta­nho­sos da Ma­dei­ra e, por ve­zes, do Ge­rês. De­pois, foi a des­co­ber­ta do ca­mi­nho flu­vi­al pa­ra o Dou­ro. Ago­ra, com as low-cost a aju­dar, os Aço­res emer­gi­ram no meio do Atlân­ti­co. O Por­tu­gal ver­de es­tá ca­da vez mais re­co­men­dá­vel.

Sou do tem­po em que co­mer nos Aço­res – des­cul­pem-me os aço­ri­a­nos! – era uma aven­tu­ra sem um fim mui­to gra­ti­fi­can­te à vis­ta. Das di­ver­sas ve­zes que por lá an­dei nas úl­ti­mas qua­tro dé­ca­das, re­cor­do-me de es­cas­sas me­sas de­cen­tes em Pon­ta Del­ga­da e em An­gra do He­roís­mo, qua­se na­da no Fai­al e al­guns ou­tros pou­cos lo­cais a «ar­mar ao tí­pi­co», com a ine­vi­tá­vel al­ca­tra e um so­frí­vel vi­nho do Pi­co. Va­lia-nos o quei­jo! Mas nin­guém ia aos Aço­res pa­ra co­mer bem. Pon­to.

Tu­do mu­dou? Mui­ta coi­sa mu­dou, pa­ra me­lhor. É cla­ro que a ofer­ta gas­tro­nó­mi­ca ain­da es­tá a mi­lhas de jus­ti­fi­car uma des­lo­ca­ção ao ar­qui­pé­la­go, mas co­me­ça a acom­pa­nhar o sur­to de tu­ris­mo que, nos úl­ti­mos anos, inun­dou as prin­ci­pais ilhas. Nem sem­pre is­so su­ce­de de uma for­ma qua­li­ta­ti­va­men­te acer­ta­da. Há al­gu­ma mas­si­fi­ca­ção a ge­rir me­lhor, pa­re­ce ha­ver um dé­fi­ce na qua­li­da­de mé­dia do ser­vi­ço nos res­tau­ran­tes a que há que es­tar aten­to. Mas as coi­sas vão no bom ca­mi­nho.

Há se­ma­nas, fui à ilha da Graciosa. Ape­te­ceu-me es­ca­par ao ho­tel, pe­lo que per­gun­tei on­de se po­dia ter uma boa re­fei­ção por ali. As op­ções eram mui­to es­cas­sas. So­mei as re­fe­rên­ci­as vin­das de to­das as fon­tes e to­das coin­ci­di­ram em que «no Jo­sé João é que se co­me bem». Nem se­quer foi ne­ces­sá­rio se­guir o mé­to­do in­fa­lí­vel que cos­tu­mo usar nu­ma ter­ra on­de na­da co­nhe­ço, e que dei­xo co­mo se­gre­do aos lei­to­res: per­gun­tar qual é o me­lhor res­tau­ran­te da lo­ca­li­da­de a uma pes­soa, si­mul­ta­ne­a­men­te, com ar abas­ta­do nas pos­ses e bem ana­fa­do no cor­po. Nun­ca fa­lha! En­si­na­ram-me tam­bém, há tem­pos, um mé­to­do cu­mu­la­ti­vo: in­qui­rir qual é a me­sa lo­cal pre­fe­ri­da do pre­si­den­te da câ­ma­ra. Se as du­as re­fe­rên­ci­as coin­ci­di­rem, me­lhor é, se­gu­ra­men­te, im­pos­sí­vel.

Com um con­ver­sa­dor ta­xis­ta a aju­dar, lá fo­mos à Ma­ris­quei­ra Jo­sé João. O rús­ti­co da ca­sa não au­gu­ra­va na­da de es­pe­ci­al. A Dé­bo­ra, sim­pá­ti­ca e bo­ni­ta fi­lha do do­no da ca­sa, te­ra­peu­ta de pro­fis­são a aju­dar a fa­mí­lia, em cri­se de mão-de-obra, gui­ou-nos por uma lis­ta à par­ti­da pou­co ape­la­ti­va, um tan­to «can­sa­da» na apre­sen­ta­ção, com al­gu­ma es­cas­sez na va­ri­e­da­de dos vinhos. Mas a lin­gui­ça da Graciosa lo­go nos con­quis­tou, com um ex­ce­len­te quei­jo tem­pe­ra­do a aju­dar. As op­ções de car­ne eram apre­ciá­veis, dos di­ver­sos bi­fes à clás­si­ca pos­ta. E por aí fo­mos, por­que a car­ne aço­ri­a­na é mag­ní­fi­ca. Es­tá­va­mos, con­tu­do, nu­ma ma­ris­quei­ra e o ma­ris­co dis­po­ní­vel era es­cas­so. Te­ria si­do pru­den­te ter en­co­men­da­do cra­cas, ca­va­co e la­pas. Que fa­zer? Vol­tar, cla­ro! As­sim fi­ze­mos no dia se­guin­te, pa­ra uma re­fei­ção so­ber­ba de ma­ris­co. Quem ha­ve­ria de di­zer que nu­ma re­mo­ta ilha iría­mos co­mer de uma for­ma que nos fi­ca­rá na mais po­si­ti­va me­mó­ria de uma vi­si­ta aos Aço­res?

MA­RIS­QUEI­RA JO­SÉ JOÃO

Rua Fon­tes Pe­rei­ra de Mel­lo, 148 San­ta Cruz da Graciosa, Ilha Graciosa Tel.: 295732855

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