O DO­EN­TE

« A MI­NHA FE­LI­CI­DA­DE É DE OU­TRO TI­PO. UMA FE­LI­CI­DA­DE COM CONS­CI­ÊN­CIA DO FIM »

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - SAÚDE -

Um dia, quan­do ti­rei a ca­mi­so­la pa­ra to­mar ba­nho, a mi­nha mu­lher dis­se: «Tens aí um si­nal es­tra­nho.» No dia se­guin­te ti­rei- o. Ti­ve al­gu­ma es­pe­ran­ça de que não fos­se me­la­no­ma. Mas era. Me­nos de um mês depois es­ta­va a ser ope­ra­do. Fui acom­pa­nha­do no pri­va­do e co­mo não ha­via cé­lu­las me­la­no­cí­ti­cas no gân­glio que me foi re­ti­ra­do pen­sei que não vol­ta­ria a ter mais ne­nhum si­nal de me­la­no­ma. Qua­tro anos depois, num raio -x nor­mal, fo­ram de­te­ta­das man­chas no ló­bu­lo in­fe­ri­or do pul­mão di­rei­to. Eram me­tás­ta­ses do me­la­no­ma. A mé­di­ca dis­se -me que eu ti­nha de con­tar à fa­mí­lia as­sim que che­gas­se a ca­sa e eu dis­se -lhe que is­so não ia acon­te­cer. No dia do di­ag­nós­ti­co, o meu filho mais ve­lho ia fa­zer o exa­me da es­pe­ci­a­li­da­de no cur­so de Me­di­ci­na e es­ta­va mui­to ner­vo­so.

Eu sou tri­pu­lan­te de vo­os de lon­go cur­so e os tri­pu­lan­tes são mui­to so­li­tá­ri­os. Por is­so pre­ci­so do meu tem­po pa­ra con­se­guir re­a­gir às coi­sas. Fiz uma sé­rie de exa­mes sem nin­guém sa­ber que eu es­ta­va do­en­te. Ao fim de três di­as, o meu filho che­gou a ca­sa eu­fó­ri­co por­que ti­nha aca­ba­do de per­ce­ber que ia ter uma no­ta ex­tra­or­di­ná­ria. Apro­vei­tei aque­le mo­men­to em que es­ta­va a ce­le­brar com ele e a mi­nha mu­lher. «Foi uma no­tí­cia maravilhosa, que me traz uma ale­gria enor­me à vi­da, mas ago­ra te­nho de vos di­zer uma coi­sa.» Aqui­lo caiu co­mo uma bom­ba. Depois dis­se-lhe: «A no­tí­cia que aca­bas de me dar é um com­bus­tí­vel pa­ra a for­ça de que pre­ci­so.» A mi­nha ati­tu­de deu-lhes âni­mo.

Com o meu filho mais no­vo foi di­fe­ren­te. Ele tem um co­ra­ção do ta­ma­nho do mun­do, pen­sou que me ia per­der e de­fen­deu-se afas­tan­do -me e hos­ti­li­zan­do -me. Um dia dis­se -lhe: «Olha bem pa­ra mim, es­tás a pôr-me na co­va e eu es­tou a fu­gir de­la a se­te pés. Eu não vou mor­rer nem que a va­ca tus­sa.» A par­tir daí tu­do mu­dou e uni­mos for­ças pa­ra lu­tar con­tra a do­en­ça. No pri­va­do dis­se­ram-me que não ti­nha hi­pó­te­se de ser ope­ra­do [uma das me­tás­ta­ses es­ta­va co­la­da à aor­ta]. Por uma sé­rie de cir­cuns­tân­ci­as aca­bo por ir pa­rar ao IPO, o que foi a mi­nha sor­te. Aí, o mé­di­co ci­rur­gião Ví­tor Far­ri­cha de­ci­diu avan­çar pa­ra a ci­rur­gia. Era mui­to ra­di­cal, mas o can­cro dei­xou de cá estar. Ago­ra fa­ço ses­sões de imu­no­te­ra­pia de quin­ze em quin­ze di­as. O cus­to des­sas ses­sões no pri­va­do ron­da os seis mil, se­te mil eu­ros. Ca­da uma! Te­nho al­gu­mas pro­pri­e­da­des, es­tou bem na vi­da, mas era im­pos­sí­vel pagar es­se va­lor. Não há me­lhor no país do que o IPO.

A imu­no­te­ra­pia é uma es­pe­ran­ça de vi­da e ter a do­en­ça ho­je é mui­to di­fe­ren­te de a ter há cin­co anos quan­do me foi di­ag­nos­ti­ca­do o me­la­no­ma pri­má­rio. Fa­ço uma vi­da nor­mal. Por ve­zes acor­do e lá es­tá o can­cro, a pai­rar na mi­nha ca­be­ça. Aca­bei por atri­buir um sig­ni­fi­ca­do ao meu di­ag­nós­ti­co. O can­cro apa­re­ceu e mu­dou o meu con­cei­to de fe­li­ci­da­de, que é ago­ra mol­da­da com a cons­ci­ên­cia do fim quan­do an­tes era uma fe­li­ci­da­de in­cons­ci­en­te. Já per­di mui­tos ami­gos e co­le­gas pa­ra o can­cro. To­dos os di­as pen­so ne­les. Con­ti­nuo cá e en­quan­to eu ti­ver uma rés­tia de es­pe­ran­ça de que pos­so ga­nhar, ele não ga­nha de for­ma ne­nhu­ma. Pe­lo me­nos no que diz res­pei­to ao meu es­pí­ri­to.

Or­lan­do Gu­er­rei­ro des­co­briu por aca­so que a do­en­ça ti­nha vol­ta­do e pre­ci­sou de tem­po pa­ra dar a no­tí­cia à fa­mí­lia.

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