O NA­MO­RA­DO

« NÃO LHE VI­RA­RIA AS COS­TAS POR TER ME­DO DE A PER­DER »

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - SAÚDE -

Fui ca­sa­do 25 anos me­nos um dia. Na fa­se fi­nal do meu ca­sa­men­to es­ta­va com um gran­de pro­ble­ma de saú­de e pen­sou-se que eu fi­ca­ria nu­ma ca­dei­ra de ro­das. Ao ou­vir es­sa hi­pó­te­se, a mãe dos meus fi­lhos dis­se, pe­ran­te mim e o mé­di­co, que não que­ria atu­rar um ve­lho nu­ma ca­dei­ra de ro­das pa­ra o res­to da vi­da. Pos­so viver mais 150 anos e nun­ca me es­que­ce­rei da­que­las pa­la­vras. Nu­ma ou­tra re­la­ção, uma fís­tu­la le­vou-me ao hos­pi­tal. A mi­nha na­mo­ra­da dis­se-me que se ia em­bo­ra e vol­ta­ria quan­do eu es­ti­ves­se me­lhor. Nun­ca mais vol­tou.

Sei o que é não estar bem e pre­ci­sar de aju­da pa­ra sair do bu­ra­co, mas ser aban­do­na­do pe­los que es­tão à nos­sa vol­ta... Não sei se o ma­ri­do da Ro­sa­ri­nho Martins te­ve o mes­mo pen­sa­men­to que a mãe dos meus fi­lhos, mas o cer­to é que a dei­xou no mo­men­to em que nin­guém deve ser dei­xa­do, após o di­ag­nós­ti­co de um me­la­no­ma na ca­be­ça. Eu co­nhe­ci a Ro­sa­ri­nho quan­do vi­si­ta­va uma ami­ga no IPO e fi­ze­mos con­ver­sa por cau­sa do meu car­ro. Ela es­ta­va em tra­ta­men­tos e ti­ra­va fo­to­gra­fi­as em fren­te ao meu Jaguar, co­lo­can­do -as depois nas re­des so­ci­ais. Brin­quei com ela di­zen­do-lhe que te­ria de pagar um im­pos­to. Ela pe­diu-me pa­ra ir­mos dar uma vol­ta. Na­mo­ra­mos há cer­ca de um ano. Ela es­tá no Car­re­ga­do e eu em Vi­seu, mas es­ta­mos jun­tos de quin­ze em quin­ze di­as, de­sen­vol­ve­mos um ri­tu­al ro­mân­ti­co de be­ber vi­nho pe­lo mes­mo co­po, fa­ze­mos pro­je­tos de fé­ri­as jun­tos e te­mos pla­nos de viver jun­tos depois de fi­na­li­za­do o tra­ta­men­to de­la. Te­nho-a acom­pa­nha­do no que é pos­sí­vel com as li­mi­ta­ções da dis­tân­cia. Ela es­tá bem, a do­en­ça evo­lui de for­ma fa­vo­rá­vel.

Te­nho 62 anos, sou mais ve­lho do que ela se­te anos, mas pen­so que is­so não sig­ni­fi­ca que eu vá pri­mei­ro do que ela. Não que­ria per­dê-la, mas sei que ela tem uma do­en­ça que a qual­quer mo­men­to po­de vol­tar. Não me as­sus­to, não te­nho es­se con­cei­to de vi­da. Não lhe vi­ra­ria as cos­tas por co­bar­dia, por ter me­do de a per­der. O mais ne­ces­sá­rio pa­ra ela nes­te mo­men­to é sa­ber que tem al­guém a quem po­de re­cor­rer em to­das as cir­cuns­tân­ci­as da vi­da. É cons­tan­te ela di­zer-me que me ama, que sou im­por­tan­te na vi­da de­la. Se as­sim é, fi­co fe­liz. Fa­ço sem­pre tu­do no sen­ti­do de a ver bem, de a ver sau­dá­vel e ale­gre. Não o fa­ço com sen­ti­do de re­co­lher ne­nhum di­vi­den­do. A mé­di­ca diz que a nos­sa re­la­ção lhe tem fei­to bem, que es­tá mais ani­ma­da, que tem ou­tra von­ta­de de viver. Co­me­çou por uma brin­ca­dei­ra e de­sen­vol­veu-se co­mo uma se­men­te, um em­brião que vai ga­nhan­do cor­po e que ho­je tem a for­ma de um amor efe­ti­vo en­tre duas par­tes que se res­pei­tam, se amam e se que­rem ver mais jun­tos. Con­se­gui até que ela co­me­ças­se a tor­cer pe­lo Ben­fi­ca.

Le­o­nel Bran­dão sa­be o que é ser aban­do­na­do por estar do­en­te. A na­mo­ra­da tam­bém.

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