Um con­do­mí­nio mui­to her­mé­ti­co

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - SUMÁRIO#1363 - TEX­TO Jo­sé Mi­guel Gas­par FO­TO­GRA­FIA Ma­ria João Ga­la / Glo­bal Imagens

Co­me­ça­ram a bro­tar em re­dor das mai­o­res ci­da­des por­tu­gue­sas na dé­ca­da de 1990. En­tre­tan­to, tor­na­ram-se ins­ti­tui­ções pa­ra api­men­tar ma­tri­mó­ni­os, con­su­mar re­la­ções de cir­cuns­tân­cia e tes­tar fan­ta­si­as com ce­ná­ri­os e ape­tre­chos pa­gos à ho­ra. O jor­na­lis­ta Jo­sé Mi­guel Gas­par re­co­lheu his­tó­ri­as pes­so­ais num ne­gó­cio em al­ta. A fo­to­jor­na­lis­ta Ma­ria João Ga­la mos­tra os lu­xos pas­sa­gei­ros por trás de mu­ros al­tos e cor­ti­nas cer­ra­das.

Ri­car­do vai em me­a­dos de 40 e que­ria con­tar tu­do com ex­cru­ci­an­te de­ta­lhe, a ho­ra e a es­tra­da por on­de se­guia, o tem­po que de­mo­rou, o tem­po que fa­zia, o que via, o que ima­gi­na­va que ia ser, o que foi lá fa­zer e afi­nal o que su­ce­deu. De­te­ve-se a de­ta­lhar a mú­si­ca que me­teu pa­ra acom­pa­nhar, uma mis­tu­ra ine­bri­an­te de psi­ca­de­lis­mos que pa­re­ci­am ter nas­ci­do nu­ma ga­ra­gem dos anos 1960, jazz ele­tró­ni­co de van­guar­da, coi­sas sen­so­ri­ais, com ven­to, at­mos­fe­ras de pro­gra­mas de rá­dio pa­ra­nor­mais, noi­tes a gran­de ve­lo­ci­da­de na es­tra­da sem fim de um de­ser­to mis­te­ri­o­so.

Che­gou so­zi­nho, ela iria lá ter, me­teu Tony Pri­ce e

o “Ce­li­ca Ab­so­lu”, veio a mú­si­ca do in­fi­ni­to e do des­vin­cu­la­do, co­me­ça jus­ta­men­te com um mo­tor a ci­lin­drar, um mo­tor nu, e de­pois se­gue su­a­ve em chis­pas e cen­te­lhas nu­ma né­voa de me­tais a tre­mu­lar, cres­ce, en­cor­pa-se, ga­nha gu­la, so­fre­gui­dão, dei­xou-a cor­rer, re­pe­tiu-a, veio mais ou­tra, e quan­do es­ta­va a che­gar ao fim da “He­avy Jas­mi­ne” e co­me­ça­va a dar aque­la par­te que pa­re­ce um so­lo de vá­ri­as ba­te­ri­as no “Whi­plash”, um fil­me so­bre os ca­mi­nhos, os li­mi­tes pa­ra a gran­de­za e a sín­dro­me do tú­nel do car­po, che­gou à en­tra­da do mo­tel. Es­ta­va im­pa­ci­en­te, evi­den­te­men­te, e aguar­dou.

Era a sua pri­mei­ra vez e não era co­mo vi­nha a ima­gi­nar. Ain­da era de dia, a ho­ra do lus­co-fus­co da tar­di­nha, é di­fe­ren­te o cre­pús­cu­lo do di­lú­cu­lo, mas ele não iria fi­car pa­ra ver a ma­nhã al­vo­re­cer. Es­pe­rou uns mi­nu­tos, compôs vá­ri­as coi­sas nos bol­sos e no bra­ço do ban­co pa­ra se fin­gir ocu­pa­do, vol­tou a pôr os ócu­los de sol que ti­nha ti­ra­do e sen­tiu-se es­tra­nho na­que­la es­pe­ra que dá aces­so à ram­pa, ao la­do da es­tra­da, não viu nin­guém, não pas­sou nin­guém, mas sen­tia-se vi­gi­a­do sem sa­ber porquê. E es­pe­rou.

Ao fim de 15 mi­nu­tos man­dou uma men­sa­gem pe­lo WhatsApp a per­gun­tar. Na­da. E uns mi­nu­tos de­pois ou­tra com dois pon­tos de in­ter­ro­ga­ção e de­pois ou­tra com pon­tos a do­brar a mes­ma in­ter­pe­la­ção, de­pois ex­cla­ma­ções, e de­pois na­da. Não pen­sou, não ia fi­car ali no car­ro, o me­lhor se­ria en­trar.

En­fi­ou pe­lo ar­co bran­co que anun­ci­a­va Mo­tel Emo­ções, es­co­lheu o Emo­ções de San­ta Ma­ria da Fei­ra por

ser dis­tan­te do Por­to e por ter o no­me mais va­go dos 15 mo­téis à vol­ta do Por­to, e avan­çou a des­li­zar len­ta­men­te por en­tre as lu­zes de gló­bu­los ver­me­lhos que se acen­di­am nas cur­vas e as es­tá­tu­as se­rá­fi­cas bran­cas, nu­as e pe­que­nas, de­co­ra­das com ban­dei­ri­nhas de Por­tu­gal, até che­gar à re­ce­ção.

UM MENU CO­MO NO “DRIVE THRU”

O gui­ché é uma ja­ne­la de vi­dro opa­co pre­to com du­as ra­nhu­ras, um ga­ve­tão de me­tal por bai­xo e um ecrã ilu­mi­na­do a le­tras ver­me­lhas e vi­o­le­ta com um menu de se­te op­ções à al­tu­ra dos olhos, mui­to se­me­lhan­te aos me­nus do “drive thru”. Bai­xou o vo­lu­me do rá­dio do car­ro, leu a pro­mo­ção: Suí­tes Lo­vers, Ro­meu e Ju­li­e­ta, Adão e Eva e Pai­xão têm des­con­to vá­li­do pa­ra as en­tra­das das 8 ho­ras de do­min­go às 20 ho­ras de sex­ta-fei­ra, du­as ho­ras 39 eu­ros, qua­tro ho­ras 49 eu­ros, 12 ho­ras 69 eu­ros, sor­riu com a par­te es­quer­da da bo­ca, 24 ho­ras 115 eu­ros. Das se­te op­ções, a mais ba­ra­ta por du­as ho­ras é a Suí­te Eco a 30 eu­ros e as mais ca­ras são a 59 eu­ros, a Fly, a Dan­ce Ro­om e a suí­te que tem um col­chão de água, lu­zes azuis e fo­to­gra­fi­as da Sophia Loren quan­do era no­va gravadas num es­pe­lho por ci­ma da ca­ma, co­mo ti­nha vis­to na in­ter­net. Bai­xou o vi­dro do car­ro.

Boa noi­te, já es­co­lheu?, per­gun­tou uma voz que ele não via vin­da de trás do vi­dro. Res­pon­deu que que­ria

o quar­to da Sophia Loren e se­gun­dos de­pois a voz abriu

o ga­ve­tão que con­ti­nha uma cha­ve com o nú­me­ro 113

BOA NOI­TE, JÁ ES­CO­LHEU? PER­GUN­TOU A VOZ. RES­PON­DEU QUE QUE­RIA O QUAR­TO DA SOPHIA LOREN

que ele agar­rou es­ti­can­do o bra­ço pe­la ja­ne­la do car­ro. Re­co­lheu-a, ati­rou-a pa­ra o ban­co va­zio ao la­do, dis­se boa noi­te e obri­ga­do, de­pois de a voz lhe di­zer que o pa­ga­men­to é à saí­da, e se­guiu pe­la cur­va de ar­bus­tos de pinho apa­ra­do, a apon­tar os fa­róis do car­ro à pa­re­de que re­fle­tia de bran­co as se­tas e nú­me­ros que di­vi­di­am as suí­tes pa­ra ca­da la­do. Me­teu pe­la es­quer­da, en­trou num pá­tio in­te­ri­or ro­de­a­do de ga­ra­gens com por­tões fe­cha­dos e pri­mei­ros an­da­res com ja­ne­las de cor­ti­nas cor­ri­das, co­mo se fos­se um con­do­mí­nio mui­to her­mé­ti­co, e viu uma ga­ra­gem que se abria ao fun­do pa­ra on­de se en­ca­mi­nhou e es­ta­ci­o­nou. O por­tão fe­chou ime­di­a­ta­men­te de­sen­ca­ra­co­lan­do-se do te­to. O cli­que do alar­me fe­chou as por­tas e o vi­dro do car­ro e fi­cou a eco­ar no si­lên­cio da ga­ra­gem. En­ca­mi­nhou-se pa­ra a ou­tra por­ta com o te­le­fo­ne e a cha­ve do quar­to na mão, abriu-a, es­ta­va des­tran­ca­da, su­biu as es­ca­das de luz pro­gres­si­va a olhar pa­ra o te­to on­de se re­ve­la­va um céu es­pes­so de pe­nas dou­ra­das que aba­na­ram quan­do lhes so­prou e as­so­mou a ou­tra por­ta. Abriu-a com a cha­ve, en­trou, en­fi­ou o car­tão bran­co que tam­bém vi­nha pen­du­ra­do na ra­nhu­ra da luz à di­rei­ta e o quar­to ilu­mi­nou-se de azuis ne­gros e néo­nes e mos­trou o bus­to da Sophia Loren a olhar do al­to de uma gri­nal­da de di­a­man­tes. Ela tem um olhar in­cli­na­do, co­mo um de­sa­fio som­brio, e é um da­que­les olha­res com olhos que nos se­guem pa­ra to­do o la­do, pa­re­ce que os olhos es­tão vi­vos, os olhos de­pois do golpe de “Fi­ve Mi­les to Mid­night” e da fron­tei­ra da

noi­te on­de ela cor­re com o Anthony Per­kins, foi em 1962, em Pa­ris, dois anos de­pois do “Psi­co”, tal­vez ele ain­da não sou­bes­se com exa­ti­dão que ele e o mo­tel de­le, o mais as­sus­ta­dor sar­có­fa­go ci­ne­ma­to­grá­fi­co de sem­pre, iri­am fi­car gra­va­dos pa­ra a eter­ni­da­de no top do hi­po­cam­po mun­di­al, com gri­tos da cor­ti­na de um chu­vei­ro a abrir, são olhos que nos se­guem pa­ra to­do

o la­do de on­de quer que se olhe ela a olhar, as mãos no peito, de lau­réo­la, no­me de Daf­ne, de tro­vis­co e das ti­me­leá­ce­as ve­ne­no­sas.

Sentou-se na ca­ma, on­du­lou, es­cre­veu 113 no ecrã do An­droid, car­re­gou no íco­ne ver­de de en­vi­ar men­sa­gem do WhatsApp e de­pois dei­xou-se cair de­sam­pa­ra­do pa­ra trás e fi­cou a ver-se ali re­fle­ti­do nou­tro es­pe­lho do te­to, de bra­ços aber­tos, der­ra­ma­do, a on­du­lar.

Já ti­nha pas­sa­do qua­se uma ho­ra des­de a ho­ra mar­ca­da com ela, ela é uma co­le­ga de tra­ba­lho, são am­bos sol­tei­ros, ou me­lhor, ele é sol­tei­ro, ela é se­pa­ra­da, foi ali que com­bi­na­ram que se iam en­con­trar, era a pri­mei­ra vez, no Emo­ções, No­guei­ra da Re­ge­dou­ra, aci­ma da Go­da, do Go­do e de Er­mil, ao la­do da A41, e ago­ra, no meio da­que­le si­lên­cio ce­rú­leo neó­nio, Ri­car­do não sa­be o que há de fa­zer. Sem sa­ber porquê pen­sou em Tom Hanks a nau­fra­gar so­zi­nho na­que­la ce­na lan­ci­nan­te em que ele per­de a bo­la de vó­lei Wil­son em al­to mar. E na­da.

Ou­tra ho­ra de­pois, ou uns mi­nu­tos an­tes pa­ra a ta­ri­fa do quar­to não du­pli­car, Ri­car­do ha­ve­ria de sair so­zi­nho no car­ro por ou­tro ca­mi­nho oblí­quo do mo-

tel sem ver nin­guém. Pa­rou pa­ra­le­lo em pon­to mor­to nou­tro gui­ché igual ao pri­mei­ro, is­to é só com voz e ga­ve­tão, e a voz fez lo­go sair um ter­mi­nal TPA sem fi­os que ele agar­rou de­pois de ter pas­sa­do o car­tão. Cli­cou OK, 59 eu­ros, di­gi­tou qua­tro nú­me­ros, ou­tra vez OK, e es­pe­rou pe­lo ba­ru­lho do pa­pel a im­pri­mir, que de­pois ras­gou, guar­dou e arrancou no car­ro. Du­ran­te o ca­mi­nho to­do até ao Por­to, ou­tra vez com Tony Pri­ce a bra­mar, a mú­si­ca pa­re­cia que ti­nha cio, uma gui­tar­ra al­tis­so­nan­te, ele a alas­trar sí­la­bas co­la­das, exal­ta­das, “I pre­fer Co­ca-Co­la”, e du­ran­te to­do

o ca­mi­nho, me­ti­do de­bai­xo da­que­le som re­tro elé­tri­co, a es­vo­a­çar de ja­ne­las aber­tas na A41, pen­sou co­mo é que no dia se­guin­te, quan­do a vol­tas­se a en­con­trar, co­mo é que ia fa­zer pa­ra se vin­gar. De­zas­se­te mi­nu­tos de­pois no Go­o­gle Maps, che­gou a ca­sa con­tra­di­ta­do e sem qual­quer con­clu­são. Viu três epi­só­di­os se­gui­dos do Ray Do­no­van na Ap­ple TV, ce­ou uma comida es­que­ci­da fria, e de­pois pôs-se à va­ran­da, o ar­co da pon­te bran­ca ilu­mi­na­do, a igre­ja da Afu­ra­da cin­ti­lan­do, a co­ris­car, pa­re­cia que der­re­tia no rio, e fi­cou ali in­so­ne a fu­mar.

O BO­LO NÃO PO­DE FI­CAR SEM UMA CEREJA A CO­RO­AR

Isa­bel fa­la cheia de bran­cu­ra e ex­pli­ca lo­go porquê: pi­men­ta ou piripíri ou os con­di­men­tos que ca­da um qui­ser, is­to é co­mo na comida, e ela sor­ri a pen­sar na ana­lo­gia, se não tem­pe­rar­mos aqui­lo que es­ta­mos a

NÃO SE PO­DE ROTINAR, GASTÁMOS 100 EU­ROS EM DU­AS HO­RAS, É UM IN­VES­TI­MEN­TO MUI­TO BOM

co­mer, a comida é sem­pre igual e de­pois nin­guém co­me e de­pois co­me­çam to­dos a co­mer fo­ra. Ela ar­ca

o pé de unhas pin­ta­das de cin­zen­to Pors­che ba­ço, um pé bem tra­ta­do, alon­ga os de­dos, pes­ta­ne­ja lon­ga­men­te e um se­gun­do de­pois lan­ça uma ca­no­ra gar­ga­lha­da que en­che a sa­la de cla­ri­da­de.

É uma ca­sa nos ar­re­do­res de Avei­ro me­ti­da no meio de um bos­que que po­dia ter du­en­des, ani­mais en­can­ta­dos e fes­tas ocul­tas de zín­ga­ros e ro­ma­nis por­que às ve­zes ou­ve-se na bri­sa, de­pen­de pa­ra on­de so­pra o ven­to, umas la­dai­nhas e umas can­to­ri­as, e as vo­zes ter­mi­nam as fra­ses em oi­ta­vas agu­das mu­si­ca­das sem­pre a su­bir.

Tem 55 anos, Isa­bel, es­tá jun­ta com Pau­lo há mais de uma dé­ca­da, am­bos saí­ram de ca­sa­men­tos go­ra­dos, ela ti­nha 43, ele é dez anos mais no­vo, vi­vem jun­tos des­de 2006, a fa­mí­lia são mais qua­tro fi­lhos na­que­la ca­sa en­so­la­ra­da, um par de 22 anos e 26, vi­vem am­bos com ela, são do ca­sa­men­to an­te­ri­or, e 18 anos e 24, es­tes dois são de­le, vi­vem ali tão bem. Te­mos uma re­la­ção mui­to boa, mui­to franca, mui­to aber­ta, eu fa­lo de tu­do com os meus fi­lhos, diz Isa­bel a so­prar um ba­fo mui­to fino de fu­mo pa­ra o ar, de tu­do, não sou só mais uma ami­ga de­les, sou a mãe de­les, dos ou­tros dois do Pau­lo tam­bém, de tu­do, da pri­mei­ra ida à dis­co­te­ca, do pri­mei­ro na­mo­ri­co, da pri­mei­ra vez que al­guém lhes par­tiu o co­ra­ção, do se­xo, das gan­zas, do ál­co­ol, tu­do, não há na­da de que não pos­sa­mos fa­lar.

Te­rá si­do quan­do a re­la­ção de Isa­bel e Pau­lo já ia pa­ra se­te anos, ou tal­vez fos­se mui­to an­tes, não hou­ve ne- nhu­ma cri­se, não se lem­bra, ne­nhu­ma mu­dan­ça ní­ti­da a as­si­na­lar, que ela co­me­çou a fa­lar nos tem­pe­ros. Por ele nem era pre­ci­so na­da, ele sem­pre foi mui­to ace­so, diz ela, mu­to mais, é mais no­vo dez anos que eu, aos 50 o ape­ti­te não é o mes­mo dos 40, eu até fa­ço re­po­si­ção hor­mo­nal, é uma po­ma­da vi­ta­mí­ni­ca per­so­na­li­za­da pa­ra mim, pas­so-a no pul­so uma vez por dia, mas já não é a mes­ma coi­sa, é a ida­de, diz ela a sor­rir sem qual­quer ago­nia, e de­pois con­ta por­que é que quis le­var o seu ho­mem a um mo­tel.

Ele fa­zia anos. Dei­xa­ram os fi­lhos em ca­sa, fo­ram jan­tar a um sí­tio es­pe­ci­al, vi­e­ram os­tras nu­mas ban­de­jas lar­gas de pra­ta, de­pois vi­e­ram vi­ei­ras, de­pois a pe­le cro­can­te do lei­tão, saí­ram os dois chei­os de ri­so fri­sa­do, abra­ça­dos, um bo­ca­di­nho en­tor­na­dos. Me­te­ram-se no car­ro de vol­ta a ca­sa, mui­to de­va­gar, a pre­zar a noi­te tem­pe­ra­da e as es­tre­las que cre­pi­ta­vam no seu bos­que par­ti­cu­lar. Mas fal­ta­va qual­quer coi­sa, re­con­ta Isa­bel, co­mo um bo­lo sem cereja, e ela dis­se pa­ra si mes­ma já sei. Cor­reu ao quar­to, vol­tou à sa­la com uma ven­da ver­me­lha de ve­lu­do, ele ti­nha o olhar in­tri­ga­do, ela la­çou-lhe a ca­be­ça pa­ra o ven­dar. Dá-me a mão, eu le­vo-te, não di­gas na­da, diz ela a re­cor­dar o ri­so de­le, a en­ca­mi­nhá-lo de vol­ta ao car­ro ven­da­do, a me­ter-lhe a mão na ca­be­ça co­mo se faz nos fil­mes de po­lí­ci­as quan­do o po­lí­cia pren­de o la­drão e lhe dei­ta a mão na nu­ca pa­ra o ban­di­do se baixar, e ar­ran­ca­ram ou­tra vez os dois. De­ram umas vol­tas des­ne­ces­sá­ri­as pa­ra ele se ba­ra­lhar, fo­ram só mais uns mi­nu­tos, mais ri­sa­da, e quan­do co­me­çam a su­bir a ram-

pa do Eclip­se Mo­tel ela per­gun­ta-lhe, sa­bes on­de es­tás? E ele, eu co­nhe­ço-o, diz ela, tem o sen­ti­do de ori­en­ta­ção dos pom­bos, sa­be sem­pre on­de é que es­tá, e ele diz de­sas­som­bra­do, meio ma­trei­ro, que es­ta­vam a su­bir pa­ra o mo­tel do as­tro ocul­ta­do.

Foi uma noi­te ma­ra­vi­lho­sa, Isa­bel re­me­mo­ra, ago­ra

o bo­lo já ti­nha a cereja a co­ro­ar, tem que ser as­sim, não se po­de co­mer sem­pre da mes­ma coi­sa, nem sem­pre da mes­ma ma­nei­ra, não se po­de rotinar, gastámos 100 eu­ros em du­as ho­ras, é um in­ves­ti­men­to mui­to bom, é sa­lu­tar, é me­lhor do que ir à ma­ris­quei­ra, é me­lhor do que gas­tá-lo nu­ma gar­ra­fa de Mo­et & Chan­don.

O MO­TEL É UMA ME­TÁ­FO­RA DO INDIVIDUALISMO E DA TEN­TA­ÇÃO

Her­ber­to é di­vor­ci­a­do, fez 40 anos na se­ma­na pas­sa­da, é de Gaia, foi cri­a­do com je­suí­tas, tra­ba­lha em ar­qui­te­tu­ra, tu­do o que lê são só po­e­mas, os mo­téis de­vi­am ter to­dos na ca­be­cei­ra da ca­ma li­vros de po­e­sia, ma­ços de po­e­mas, diz ele, po­e­mas, é o úni­co ade­re­ço que lhe con­vém, se­xu­al e in­te­lec­tu­al. Ele co­me­ça a des­fi­ar e vai con­tá-los, são mui­tos mo­téis, já foi a Ha­ba­na, a Bo­ra Bo­ra e ao Ha­vay, foi aí que fez a pro­va das dez ten­ta­ções, uma olim­pía­da de 12 ho­ras, 220 eu­ros, a suí­te é um de­cá­lo­go se­xu­al, foi uma ma­ra­ção, le­vou co­caí­na, dez ten­ta­ções, é uma via-sa­cra se­xu­al, até tem uma pa­re­de on­de nos amar­ra­mos de per­nas e bra­ços aber­tos em cruz, sim, se ca­lhar é uma he­re­sia, diz ele a rir um ri­so cas­ca­lha­do, a fa­lar na ca­ma re­don­da gi­ra­tó­ria, na pis­ci­na in­te­ri­or do quar­to com cas­ca­ta, de­bai­xo de água, de jo­e­lhos no chão, con­tra a pa­re­de, co­caí­na, sem pa­rar, até num ba­loi­ço com umas tiras de en­fi­ar, sem pa­rar, ele re­pe­te, uma ma­ra­ção. E Her­ber­to foi ain­da ao Tro­pi­cá­lia, foi ao Fla­min­go, foi ao Silk, até já foi ao Al­to de Va­lon­go, foi só uma noi­te, não se re­cor­da porquê, já os cor­reu to­dos mais do que uma vez ou do que três, mas pre­fe­re o Por­to­fi­no, o mo­tel do Por­to me­nos pa­re­ci­do com um mo­tel, é mui­to só­brio, sem kits­ch nem quin­qui­lha­ria vin­ta­ge, so­a­lhos de ma­dei­ra, pa­re­des bran­cas quen­tes, pa­drões em co­res de ter­ra, bam­bus e sei­xos bran­cos fri­os. E a se­guir ele con­ta quais são as di­fe­ren­ças en­tre o mo­tel e o ho­tel, sai-se com uma pi­a­da bem apa­nha­da, o mo­tel é um ho­tel com piripíri, mas an­tes vai co­me­çar por per­gun­tar o que é uma ca­sa.

A ca­sa é uma coi­sa pe­re­ne, é um sím­bo­lo que não se in­ter­rom­pe, a ca­sa de­mar­ca, é uma mol­du­ra de con­ti­nui­da­de e lá den­tro, à fren­te do flash, es­tá a fa­mí­lia. Um ho­tel é uma so­ci­e­da­de em mi­ni­a­tu­ra de­bai­xo da tem­po­ra­li­da­de da mes­ma es­tân­cia, tem gran­des sa­lões on­de to­dos so­mos vistos, on­de to­dos va­mos pa­ra que to­dos nos pos­sam ver. O mo­tel, com a sua si­tu­a­ção à bei­ra da es­tra­da, pos­to nas en­cru­zi­lha­das on­de

o des­ti­no po­de su­bi­ta­men­te mu­dar, é mui­to di­fe­ren­te, não tem sa­lões so­ci­ais, é uma me­tá­fo­ra do individualismo, dos in­di­ví­du­os fre­ne­ti­ca­men­te li­vres, da aven­tu­ra e da ten­ta­ção, e ele com­ple­ta, e é ain­da uma me­tá­fo­ra da an­gús­tia e da ali­e­na­ção, so­bre­tu­do no ima­gi­ná­rio dos mo­téis do ci­ne­mas­co­pe ame­ri­ca­no, que é o ima­gi­ná­rio que to­dos te­mos.

Sa­be a his­tó­ria to­da, Her­ber­to, do pri­mei­ro mo­tel da his­tó­ria que abriu, foi nos anos 1920, a meio ca­mi­nho en­tre Los An­ge­les e São Fran­cis­co, em San Luiz Obis­po, era o Mo­tel Inn, acho que ain­da es­tá aber­to a fun­ci­o­nar, foi ar­qui­te­ta­do por Arthur Hi­ne­man, um apai­xo­na­do por re­nas­cen­tis­mo es­pa­nhol, foi ele que ima­gi­nou tu­do, e foi as­sim que to­dos os mo­téis se fi­ze­ram, é as­sim até ho­je em to­do o mun­do, foi o ci­ne­ma ame­ri­ca­no que os pro­pa­gou e os co­lou na nos­sa ima­gi­na­ção, aque­le mo­tel era um mo­tor-ho­tel, os

ban­galôs to­dos dis­pos­tos à vol­ta de um pá­tio em U em que se en­tra e se sai de car­ro, vai-se sem­pre ao mo­tel de car­ro, não é nor­mal ir lá a pé, ca­da um tem o seu “au­to court” pa­ra es­ta­ci­o­nar. No Bra­sil, con­ti­nua ele, os mo­téis vi­e­ram nos anos 60, cres­ce­ram co­mo cogumelos nos cru­za­men­tos du­ran­te a di­ta­du­ra mi­li­tar, in­tro­du­zi­ram a ta­ri­fa ho­rá­ria, até aí só ha­via a diá­ria, são hi­per-po­pu­la­res até ho­je, se bem me lem­bro são bem mais ba­ra­tos do que cá. Cá os mo­téis só che­ga­ram nos anos 90, foi pre­ci­so dei­xar pas­sar abril até abril ter tem­po pa­ra tor­nar a pas­sar, foi pre­ci­so dei­xar cair Sa­la­zar, é as­sim, so­mos um po­vo len­to até na re­vo­lu­ção, os nos­sos mo­téis me­dra­ram no Ca­va­quis­tão, é ver­da­de, pa­re­ce iro­nia, eles apa­re­ce­ram quan­do Ca­va­co, um con­ser­van­tis­ta, co­briu o país to­do de as­fal­to e de be­tão. O pri­mei­ro foi o Prín­ci­pe En­can­ta­do, na Me­a­lha­da, lem­bra-se Her­ber­to, não, a es­se por aca­so nun­ca fui, mas sei a his­tó­ria, li nu­ma te­se de ar­qui­te­tu­ra, in­te­res­so-me pe­los mo­téis, es­se foi o pri­mei­ro, acho que abriu em 91 ou 92, acho que con­ti­nua aber­to e ain­da es­tá a fun­ci­o­nar.

Ti­ran­do aque­la vez das 12 ho­ras, Her­ber­to foi sem­pre aos mo­téis à tar­de e sem­pre com mu­lhe­res ca­sa­das, ti­ran­do uma vez que foi de noi­te, fo­ram qua­tro ho­ras, por­que o ma­ri­do de­la es­ta­va pa­ra sair mas nun­ca mais saía de ca­sa. Cla­ro que dá mui­to mais pi­ca se eu for ter a ca­sa de­las, é um pi­can­te por ci­ma do pe­ca­do, diz ele, mas qua­se nun­ca dá, é ar­ris­ca­do, e ele não vai em fil­mes, diz que é por is­so que nun­ca foi, nem nun­ca há de ser, um aman­te que se dei­xa apa­nhar. E Her­ber­to tor­na a sor­rir um sor­ri­so oblí­quo, só com a par­te es­quer­da da ca­ra. ●m

À di­rei­ta: aces­so a sui­tes no Mo­tel Por­to­fi­no, em São Ma­me­de de In­fes­ta. Em bai­xo: sui­te do Mo­tel Emo­ções, em San­ta Ma­ria da Fei­ra

Em ci­ma e à di­rei­ta: sui­tes no Mo­tel Ha­vay, em Le­ça do Ba­lio.

Da di­rei­ta, sen­ti­do dos pon­tei­ros do re­ló­gio: ins­tru­ções e sui­te no Mo­tel Ha­vay; en­tra­da do Mo­tel Emo­ções; sui­te no Mo­tel Eclip­se, em An­ge­ja

Em ci­ma: sui­te no Mo­tel Eclip­se. Em bai­xo: aces­so ao Eclip­se, com publicidade da con­cor­rên­cia

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