O des­can­so do ar­tis­ta pop ro­mân­ti­co

Uma vi­a­gem pe­la Ásia, pe­los Es­ta­dos Uni­dos, pe­lo Ca­na­dá. Uma pe­re­gri­na­ção a Fá­ti­ma a pé, uma vi­si­ta a Is­ra­el pa­ra pres­tar ho­me­na­gem a um ído­lo de ado­les­cên­cia. Pro­je­tos pa­ra uma pau­sa pro­je­ta­da por Tony Car­rei­ra. Ao fim de três dé­ca­das de car­rei­ra, ce­le­br

Jornal de Notícias - JN + Noticias Magazine - - Sumário#1380 - TEX­TO Ale­xan­dra Tavares-Te­les

O in­ter­va­lo na car­rei­ra de três dé­ca­das de Tony Car­rei­ra es­tá ao vi­rar da es­qui­na dos três con­cer­tos agen­da­dos pa­ra no­vem­bro. A jor­na­lis­ta Ale­xan­dra Tavares-Te­les ou­viu as ra­zões e os pla­nos pa­ra o afas­ta­men­to du­ran­te uma lon­ga con­ver­sa, num fi­nal de ma­nhã na ca­sa do can­tor, em Lis­boa. Pa­ra ele, a mú­si­ca li­gei­ra não é me­nor nem sim­pló­ria.

Tony Car­rei­ra e a lin­da ca­de­la be­a­gle re­ce­bem-nos em ca­sa, na sa­la en­vi­dra­ça­da, cheia de luz. Di­zem as re­vis­tas de cos­cu­vi­lhi­ce que o apar­ta­men­to es­tá ven­di­do qu­an­do não es­tá se­quer à ven­da. Que tem 12 quar­tos qu­an­do são cin­co. Que al­can­ça uma vis­ta de cor­tar o fô­le­go – “Veja bem, de um la­do te­nho um pré­dio e o Te­jo vê-se, de fac­to, mas es­tá lá ao fun­do”.

Can­sa­do de “tan­tas men­ti­ras que se es­cre­vem” e que ora o dão por fa­li­do, ora com dí­vi­das fis­cais dig­nas de re­cei­tas de um Cris­ti­a­no Ro­nal­do, não per­de, po­rém, o sen­ti­do de hu­mor que lhe per­mi­te rir de to­das as ca­ri­ca­tu­ras que já lhe fi­ze­ram. E uma cer­ta can­du­ra ra­ra no meio.

A en­tre­vis­ta foi lon­ga, qua­se du­as ho­ras en­tre­cor­ta­das por um úni­co ci­gar­ro, um dos mais de 20 que fu­ma por dia e vá­ri­os ca­fés. A his­tó­ria do ra­paz nas­ci­do nu­ma al­deia per­di­da, in­fân­cia hu­mi­lís­si­ma, que faz su­ces­so a can­tar. Um ar­tis­ta e um ho­mem de ne­gó­ci­os al­ta­men­te pro­fis­si­o­nal, que en­fren­tou uma acu­sa­ção de plá­gio e que pa­gou por is­so. Que pas­sa por ci­ma dos pre­con­cei­tos e de al­guns es­ga­res de des­dém. Do al­to de seis mi­lhões de dis­cos ven­di­dos em 20 gra­va­dos e de mais de dois mil con­cer­tos, mui­tos de­les em paí­ses com que nun­ca so­nhou. Era en­tão o me­ni­no An­tó­nio Manuel.

Lem­bra-se de uma can­ção im­por­tan­te da sua in­fân­cia?

A “Lá­gri­ma”, de Amá­lia.

Um fa­do. Es­tra­nho, nu­ma cri­an­ça.

É es­tra­nho, re­al­men­te, tan­to mais que só co­me­cei a gos­tar de fa­do há uns dez anos. A Amá­lia, po­rém, pas­sa pa­ra lá do fa­do. Lem­bro-me de que ou­vi a “Lá­gri­ma” pe­la pri­mei­ra vez no rá­dio de um tio. Gos­ta­va tan­to des­se rá­dio que ain­da ho­je

o guar­do. Es­ta­mos a fa­lar de um miú­do nos anos 1970, que vi­via em Ar­ma­dou­ro, uma pe­que­na al­deia per­di­da num pi­nhal na zo­na da Pam­pi­lho­sa da Ser­ra. A mú­si­ca era al­go ra­ro na sua vi­da. Tal­vez por is­so te­nha ado­ra­do.

Se não foi pre­sen­ça na in­fân­cia, de on­de vem o gos­to pe­la mú­si­ca?

Não fa­ço ideia. O meu avô cos­tu­ma­va can­ta­ro­lar, mas não foi por aí. O úni­co con­tac­to que ti­nha com a mú­si­ca era nas fes­tas po­pu­la­res da mi­nha al­deia.

Can­ta­va em cri­an­ça?

Nos tem­pos de al­deia, não. De­pois, com dez anos, cheguei a Fran­ça e en­tão, sim, co­me­cei a ou­vir mú­si­ca que me agra­da­va mui­to, ti­ve a pri­mei­ra gui­tar­ra e de­pres­sa per­ce­bi que era aqui­lo que que­ria pa­ra o res­to da mi­nha vi­da. Al­guns ar­tis­tas en­tu­si­as­ma­vam-me, prin­ci­pal­men­te um de­les, o Mi­ke Brant, um can­tor de origem is­ra­e­li­ta, de mui­to su­ces­so, que aca­ba­ria por co-

me­ter sui­cí­dio mui­to jo­vem, ti­nha 28 anos. Tor­nei-me um fã in­con­di­ci­o­nal.

Foi cri­a­do pe­los avós pa­ter­nos de­pois de a fa­mí­lia se ter par­ti­do: os pais emi­gra­ram pa­ra Fran­ça, le­van­do com eles o seu ir­mão mais ve­lho, e a ir­mã foi pa­ra ca­sa dos avós ma­ter­nos. Co­mo é que uma cri­an­ça li­da com es­ta se­pa­ra­ção?

A se­pa­ra­ção cus­ta­va, se cus­ta­va, as des­pe­di­das eram di­fí­ceis, mas os re­en­con­tros, nas fé­ri­as, eram fan­tás­ti­cos. Até por­que ha­via sem­pre um pre­sen­te. Sem­pre fui uma cri­an­ça mui­to po­si­ti­va.

Lem­bra-se des­ses pre­sen­tes?

Uma bo­la. Um pa­co­te de bo­la­chas. Uma ale­gria pa­ra um miú­do que vi­via com mui­tas di­fi­cul­da­des. E di­fi­cul­da­des era ter uma ca­mi­so­la pa­ra o ano in­tei­ro, uns sa­pa­tos pa­ra o ano in­tei­ro, comer o mais bá­si­co. Nem se­quer ha­via es­pa­ço pa­ra ma­lu­quei­ras ou tra­qui­ni­ces por­que a vi­da era ru­de. Mas mes­mo aí era mui­to fe­liz.

Que ideia do fu­tu­ro ti­nha es­se miú­do?

Mui­tas das cri­an­ças da­que­la al­deia, fi­lhas de emi­gran­tes, ti­nham um desejo co­mum: reu­ni­rem-se aos pais. Na­que­la al­tu­ra, o meu so­nho era ir pa­ra a pe­que­na vi­la (Dour­dan) nos ar­re­do­res de Pa­ris, com se­má­fo­ros e ro­tun­das.

O que lem­bra da vi­da nos ar­re­do­res?

A mi­nha mãe tra­ba­lha­va nu­ma fá­bri­ca, o meu pai era pe­drei­ro, que­ri­am cons­truir uma ca­si­nha na ter­ra e, por is­so, ti­nham uma lu­ta diá­ria pa­ra pou­par uns fran­cos. Lem­bro-me de um pu­to com­ple­ta­men­te fo­ra do con­tex­to. Em ter­mos cul­tu­rais, no com­por­ta­men­to, na ma­nei­ra de ves­tir. Pas­sa­va por lí­bio ou sí­rio. Mal fa­la­va a lín­gua. Mas es­ta­va mui­to fe­liz e con­ten­te.

Ain­da sa­be o no­me do pri­mei­ro ami­go que fez em Fran­ça?

Dei­xe ver, Ser­ge Iva­nov, um ra­paz de origem rus­sa que me de­fen­dia dos ou­tros. Há mui­tos anos que não di­zia o seu no­me.

Co­mo li­da­va com o pre­con­cei­to e a ex­clu­são?

O me­lhor que po­dia. Sen­ti-os. Mas tam­bém en­con­trei pes­so­as bo­as. A mi­nha pro­fes­so­ra da pri­má­ria (ti­ve de re­co­me­çar do ze­ro), uma se­nho­ra que me apoi­ou mui­to, que per­deu al­gum tem­po co­mi­go por cau­sa das mi­nhas di­fi­cul­da­des na lín­gua e que há cin­co anos me deu o pra­zer de as­sis­tir a um dos meus con­cer­tos. Foi mui­to es­tra­nho. Olhar pa­ra a pri­mei­ra fi­la e ver ali a mi­nha pro­fes­so­ra da pri­má­ria.

Sem a mú­si­ca qual te­ria si­do o seu des­ti­no?

Aos 16 anos fui tra­ba­lhar pa­ra a fá­bri­ca da mi­nha mãe. Uma fá­bri­ca de en­chi­dos, on­de es­ta­ria ho­je, a cin­co ou seis anos da reforma.

As di­fi­cul­da­des mol­dam a for­ma de ver o su­ces­so?

A mi­nha von­ta­de é di­zer que sim, que as ori­gens fi­ze­ram a pes­soa que sou, a mi­nha re­la­ção com o su­ces­so, com o di­nhei­ro, com os ou­tros. Mas, no fun­do, não sei se é a res­pos­ta cor­re­ta. Já vi mui­ta gen­te com ori­gens pa­re­ci­das vi­ra­rem par­vas com o su­ces­so. Já vi pes­so­as trans­for­ma­rem-se por completo, de for­ma ne­ga­ti­va, em seis me­ses. E já co­nhe­ci pes­so­as bem-su­ce­di­das des­de o nascimento que são ma­ra­vi­lho­sas.

Em que mo­men­to per­ce­be que po­de­ria fa­zer uma car­rei­ra na mú­si­ca?

Em to­da a mi­nha vi­da nun­ca fiz pro­je­tos a lon­go pra­zo. Não te­nho por há­bi­to olhar pa­ra trás nem mui­to pa­ra a fren­te. O que vai acon­te­cen­do vai acon­te­cen­do, até por­que nes­ta pro­fis­são nun­ca na­da é ad­qui­ri­do e de­fi­ni­ti­vo. Es­tou a fes­te­jar 30 anos de can­ções, mas de su­ces­sos ão20–eé mui­to. Nãoé fá­cil te ru­ma car­rei­ra tão lon­ga nu­ma vi­da ar­tís­ti­ca. Foi um su­ces­so tar­dio, ob­ti­do com mui­to so­fri­men­to e mui­to tra­ba­lho. Tal­vez por es­se mo­ti­vo nun­ca pen­sei que fos­se a úl­ti­ma Co­ca-Cola do de­ser­to.

Em 2000, faz o pri­mei­ro Olym­pia. Co­mo vai lá pa­rar?

Sem sa­ber co­mo. Acon­te­ce-me mui­to dei­xar fa­lar o la­do ins­tin­ti­vo, so­nha­dor e por ve­zes in­cons­ci­en­te. Pri­mei­ro me­to-me nas coi­sas e de­pois pen­so nas coi­sas. Foi as­sim com o pri­mei­ro Olym­pia, com o pri­mei- ro Co­li­seu, com o pri­mei­ro pa­vi­lhão Atlân­ti­co e com al­guns dis­cos. O pri­mei­ro Olym­pia de­ve-se so­bre­tu­do ao em­pe­nho do meu ir­mão que tra­ba­lhou mui­to pa­ra is­so. Mas só de­pois de alu­gar­mos a sa­la per­ce­bi aon­de me ti­nha me­ti­do.

O pri­mei­ro Co­li­seu é em 2001. Chega em for­ça ao meio mu­si­cal por­tu­guês. O que o dis­tin­guia?

Uma men­ta­li­da­de to­tal­men­te di­fe­ren­te da que exis­tia na can­ção li­gei­ra, ex­pres­são que não me agra­da. Não acei­ta­va a ideia, e ain­da ho­je não acei­to, de que a mú­si­ca li­gei­ra é me­nor, sim­pló­ria, lá­lá­lá e já es­tá. E, por­tan­to, ro­de­ei-me de gran­des mú­si­cos e de gran­des or­ques­tra­do­res, pro­fis­si­o­nais que tra­ba­lha­ram com Pe­ter Ga­bri­el, com Beyon­cé, com Anas­ta­cia, com Natalie Co­le, com Ju­lio Igle­si­as ou com Ro­ber­to Car­los. Acho que is­so fez uma gran­de di­fe­ren­ça. Nes­se pon­to sem­pre fui di­fe­ren­te.

Foi bem re­ce­bi­do?

Não olha­va mui­to pa­ra os la­dos. Há quem con­fun­da is­so com ve­de­tis­mo ou ar­ro­gân­cia, mas não tem na­da a ver. Es­ta­va mui­to fo­ca­do no meu percurso e na­da

“QUE­RO IR PA­RA A MI­NHA TER­RA DU­AS OU TRÊS SE­MA­NAS E ES­TAR LÁ COM AS PES­SO­AS DA AL­DEIA. QUE­RO IR A FÁ­TI­MA A PÉ. QUE­RO VI­SI­TAR EM IS­RA­EL A CAM­PA DE MI­KE BRANT, O MEU ÍDO­LO DE ADO­LES­CÊN­CIA, UMA VI­A­GEM ADIADA HÁ QUA­SE 20 ANOS QUE PEN­SO FA­ZER EM DE­ZEM­BRO. AGO­RA, QUE­RO VER RI­OS, FLO­RES­TAS, PASSEAR PE­LA NA­TU­RE­ZA. ES­TOU A PEN­SAR NA ÁSIA, NOS EUA, NO CA­NA­DÁ. SO­ZI­NHO, DE MO­CHI­LA ÀS COS­TAS”

in­te­res­sa­do em sa­ber se fa­la­vam bem ou mal de mim.

Co­mo foi as­sis­tir ao pró­prio su­ces­so?

De­pois de mui­tos anos de es­pe­ra, as coi­sas co­me­ça­ram a acon­te­cer. Su­ces­so a su­ces­so. Mas, ao con­trá­rio do que se pos­sa pen­sar, co­me­cei a acreditar que era pos­sí­vel du­rar nes­ta vi­da há ape­nas uns 15 anos.

Até lá, qual era o pla­no B? Os pri­mei­ros cin­co anosp as­sou-os a ser des­pe­di­do das edi­to­ras.

(ri­sos) Nun­ca ti­ve um pla­no B.

Se não gos­ta da ex­pres­são mú­si­ca li­gei­ra co­mo clas­si­fi­ca o que can­ta?

Con­si­de­ro-me um ar­tis­ta pop ro­mân­ti­co.

É ro­mân­ti­co?

(ri­sos) Ui. Não se­rei o ro­mân­ti­co per­fei­to, mas sim, acho que sou.

Oqueéo ro­mân­ti­co per­fei­to? Por exem­plo, lem­bra-se­que mú­si­ca to­cav aquan­do co­nhe­ceu um adas mu­lhe­res da sua vi­da, a mãe dos seus fi­lhos?

Es­ta­va eu a can­tar, mas não me lem­bro que mú­si­ca. Se ca­lhar, na al­tu­ra, era me­nos ro­mân­ti­co (ri­sos).

Já cho­rou por amor?

Mui­tas ve­zes. E es­pe­ro cho­rar mui­tas mais.

É um so­fre­dor?

Eu e os res­tan­tes por­tu­gue­ses.

Foi, é, mui­to as­se­di­a­do?

Fui sim, cla­ra­men­te. E não me quei­xo. Qu­an­do o char­me é fei­to sub­til­men­te, acho fan­tás­ti­co. Pos­so até não es­tar in­te­res­sa­do, mas o jo­go em si é um jo­go de que gos­to. Di­go is­to por­que fe­liz­men­te nun­ca ti­ve ca­sos de­sa­gra­dá­veis. Es­sas si­tu­a­ções de­vem ser mui­to com­pli­ca­das.

Sa­be se as su­as can­ções al­te­ra­ram a vi­da de ou­tros?

Há his­tó­ri­as ma­ra­vi­lho­sas, que me dei­xam ar­re­pi­a­do. Des­de um mé­di­co que ope­ra a ou­vir-me can­tar, a du­as pes­so­as que acor­da­ram de um co­ma ao som da mi­nha mú­si­ca. É o po­der da mú­si­ca. Acon­te­ce co­mi­go e com ou­tros mú­si­cos e na­da é mais bo­ni­to.

Há pou­co fa­la­va nas de­ci­sões ins­tin­ti­vas. Mas há a ideia de que é um pro­fis­si­o­nal mui­to ce­re­bral e um ho­mem de ne­gó­ci­os mui­to com­pe­ten­te.

Sim, cla­ro. Is­to é um tra­ba­lho, não é um hobby. Va­lo­ri­zo mui­to o tra­ba­lho por­que eu tra­ba­lho mes­mo. Ador­me­ço e acor­do a pen­sar em mú­si­ca. Há um la­do ins­tin­ti­vo e so­nha­dor, que exis­te e apa­re­ce mui­tas ve­zes, mas no li­mi­te quem toma con­ta da si­tu­a­ção é

o cé­re­bro. Há mui­to tra­ba­lho e ri­gor. Nos en­sai­os, nas con­tra­ta­ções, em to­dos os pormenores.

Qu­an­do tem de se acon­se­lhar re­cor­re a quem?

Sem­pre aos mes­mos. O meu ir­mão e os meus fi­lhos. Mas por nor­ma a de­ci­são já es­tá to­ma­da.

De que ab­di­cou pa­ra ter a car­rei­ra que tem?

Pus a mú­si­ca à fren­te de tu­do. Du­ran­te uns lon­gos anos, in­cons­ci­en­te­men­te, até da fa­mí­lia. Ab­di­quei de tu­do pe­la mú­si­ca, mas não me ar­re­pen­do de na­da por­que a mú­si­ca deu-me a mi­nha vi­da, a vi­da que eu te­nho.

Que fa­lhas não ad­mi­te à sua equi­pa?

Não to­le­ro a ar­ro­gân­cia, a in­gra­ti­dão. Um bom pro­fis­si­o­nal não é só aque­le que é mui­to bom no que faz. Pa­ra mim, con­ta igual­men­te a for­ma de es­tar e de se re­la­ci­o­nar com o gru­po. An­da­mos na es­tra­da, por ve­zes somos 40, 50 ou 200 pes­so­as. Te­mos de ser uma equi­pa.

Uma das fi­gu­ras cen­trais no percurso foi a ex-mu­lher, co­mo agen­te.

Sem­pre ti­ve na mão a con­du­ção do meu percurso por­que, no mí­ni­mo, sou­be sem­pre o que não que­ria. Pri­mei­ro o meu ir­mão e de­pois a Fer­nan­da ti­ve­ram a seu car­go to­da a par­te lo­gís­ti­ca. Tra­ba­lho que ela fez mui­to bem. Fi­ze­mos uma du­pla fan­tás­ti­ca. Há quem ache que tra­ba­lhar em fa­mí­lia po­de ser com­pli­ca­do. Eu acho que é mui­to sexy.

Qu­an­do co­me­ça a ga­nhar re­al­men­te mui­to di­nhei­ro?

Hou­ve anos em que ga­nhei mui­to di­nhei­ro e anos em que per­di mui­to di­nhei­ro. Os meus in­ves­ti­men­tos sem­pre fo­ram na mú­si­ca e em promoções de con­cer­tos por ve­zes um pou­co fo­ra da re­a­li­da­de des­te mer­ca­do, um mer­ca­do pe­que­no. Mas co­me­ço a vi­ver bem da mú­si­ca a par­tir dos anos 2000.

Es­pe­ra­va che­gar tão lon­ge?

Em 2003, qu­an­do fiz o pri­mei­ro pa­vi­lhão Atlân­ti­co, es­cre­vi que se a mi­nha car­rei­ra ti­ves­se ter­mi­na­do na­que­le dia já seria um ho­mem mui­to fe­liz e um ar­tis­ta re­a­li­za­do. Bom, de­pois dis­so fiz mais 19 “Atlân­ti­cos” e ven­di mais qua­tro mi­lhões de dis­cos.

Her­man Jo­sé dis­se re­cen­te­men­te que o Tony mor­re­rá com o des­gos­to de não ter si­do acei­te pe­la eli­te. Con­cor­da?

Gos­to mui­to do Her­man e ri-me qu­an­do li is­so. Não, não vou morrer com es­se pro­ble­ma. Te­nho o mai­or res­pei­to por to­da a gen­te e mui­to or­gu­lho, mui­to mes­mo, em ser um ar­tis­ta do po­vo.

No­meio mu­si­cal por­tu­guês já sen­tiu es­se pre­con­cei­to.

Cla­ro que já. Mas tam­bém fiz gran­des ami­gos. Pes­so­as com car­rei­ras ex­tra­or­di­ná­ri­as co­mo Pe­dro Abru­nho­sa ou os Xu­tos & Pon­ta­pés.

Acha que há quem tem ver­go­nha de di­zer que o ouve?

Um dia, na rua, um se­nhor per­gun­tou-me se eu po­dia ti­rar uma fo­to com a na­mo­ra­da. Mas, fri­sou, só com ela por­que a mi­nha mú­si­ca não era o gé­ne­ro de­le. Mas qu­an­do lhe per­gun­tei de que ti­po de mú­si­ca gos­ta­va não foi ca­paz de res­pon­der. Mui­tos dos que di­zem is­so não ou­vem mú­si­ca.

Em que mo­men­to des­co­lou de fer­re­te da mú­si­ca pim­ba?

Nos pri­mei­ros dez anos da mi­nha car­rei­ra gra­vei can­ções que ho­je não gra­va­ria, ain­da que se vol­tas­se a es­se tem­po faria igual. Era aque­le o meu percurso. Mas, mal ti­ve pos­si­bi­li­da­des, co­me­cei a gra­var com ou­tros mú­si­cos e com ou­tros or­ques­tra­do­res, em ou­tros es­tú­di­os. A fa­zer a mú­si­ca com a qual me iden­ti­fi­co.

Ouve mú­si­ca por­tu­gue­sa?

Gos­to mui­to do Pe­dro Abru­nho­sa. É o ar­tis­ta que me­lhor som tem em Por­tu­gal. E os Xu­tos são in­con­tor­ná­veis.

Rui Veloso ou Mar­co Pau­lo?

Gos­to mui­to dos dois.

O que tem con­tra si o Jo­sé Cid?

(ri­sos) O Jo­sé Cid é um ho­mem cheio de ta­len­to com um pro­ble­ma: não gos­ta de quem tem mais su­ces­so do que ele. Pro­ble­ma que não con­si­go re­sol­ver-lhe.

Uma mú­si­ca por­tu­gue­sa que gos­tas­se de ter escrito.

“A ca­ba­na jun­to à praia”. (ri­sos)

Iro­nia?

“A ca­ba­na jun­to à praia” é uma gran­de can­ção. Mas a que gos­ta­ria mes­mo de ter escrito é a “Can­ção do Mar”.

Co­mo re­a­giu o meio às acu­sa­ções do plá­gio? Fa­le-me des­sa tra­ves­sia.

A ques­tão dos plá­gi­os fi­cou re­sol­vi­da em 2008, há dez anos, por­tan­to. Ago­ra, o pro­ble­ma foi ou­tro. Tra­ta-se de uma per­se­gui­ção me­diá­ti­ca fei­ta por al­guém que se que­ria vin­gar. Um mas­sa­cre foi o que me fi­ze­ram. Por is­so, dis­se sem­pre que àque­le se­nhor não da­va um eu­ro por­que era um eu­ro rou­ba­do. Acei­tei pa­gar a uma ins­ti­tui­ção, os bom­bei­ros, que já ti­nha aju­da­do mui­tas ve­zes sem ala­ri­dos.

E o meio?

O meio nem sem­pre foi sim­pá­ti­co. En­fim, em ma­té­ria de plá­gi­os, eu te­ria mui­to pa­ra di­zer so­bre cer­tos ca­sos, mas não vou es­co­lher es­se ca­mi­nho. Mas não ti­ve só sur­pre­sas de­sa­gra­dá­veis. Al­gu­mas fo­ram mui­to bo­as.

Qu­an­do tra­ba­lhou as can­ções vi­sa­das, e as can­tou, ti­nha no­ção de que es­ta­va a pla­gi­ar?

Foi to­tal inex­pe­ri­ên­cia. Ago­ra, com anos em ci­ma, ou­ço as can­ções e é evi­den­te que acho que são as mes­mas can­ções, são re­al­men­te mui­to pró­xi­mas.

Co­mo re­a­ge à ad­ver­si­da­de?

É mui­to di­fí­cil. Ler men­ti­ras so­bre mim em ca­pas de jor­nais e re­vis­tas é al­go que me afe­ta e en­tris­te­ce, que me es­tra­ga o dia, a se­ma­na, o mês. Não vi­vo bem com is­so. Fi­co mui­to tris­te e aba­ti­do.

E com as crí­ti­cas mu­si­cais?

Es­sas acei­to-as to­das. Te­nho mui­to po­der de en­cai­xe.

E sen­ti­do de hu­mor? Ri­car­do Araú­jo Pereira iro­ni­zou com “a po­e­sia do Tony”.

Achei um pi­a­dão. Ele é ge­ni­al e eu con­si­go rir de tu­do.

Qual é o seu la­do mais ca­ri­ca­tu­rá­vel?

Pro­va­vel­men­te, a si­tu­a­ção dos plá­gi­os. O Bru­no No­guei­ra con­se­guiu fa­zer-me rir nu­ma al­tu­ra em que es­ta­va a vi­ver es­se pro­ble­ma. Eu não gos­to é de mal­da­de gra­tui­ta. Pa­ra fa­zer ven­der mais du­as ou três re­vis­tas.

Es­cre­veu uma bi­o­gra­fia. Po­rém, uma bi­o­gra­fia não au­to­ri­za­da do Tony te­ria de ter que in­for­ma­ção?

(ri­sos) Res­pon­der-lhe seria um sui­cí­dio. No meu li­vro es­tá a ver­da­de. Há par­tes da mi­nha vi­da de que pre­fe­ri não fa­lar, por exem­plo do meu ca­sa­men­to, um te­ma que já foi ar­ra­sa­do com men­ti­ras.

Va­mos ao pal­co. O que sen­te ain­da ho­je qu­an­do abre a cor­ti­na?

Al­gum medo de fa­lhar. Creio ser co­mum a to­dos os ar­tis­tas do Mun­do.

Co­mo foi aque­la noi­te de 2000, no Olym­pia?

Es­ta­va cheio de medo. No meu pri­mei­ro “Atlân­ti­co”, pe­ran­te 20 mil pes­so­as pen­sei “vou des­mai­ar aqui”. O que me va­le é que pas­sa ao fim da se­gun­da ou terceira can­ção.

Tem ri­tu­ais?

Não, ao con­trá­rio do que já se es­cre­veu. Ben­zo-me.

É ca­tó­li­co?

So­bre­tu­do, te­nho fé em Fá­ti­ma, ain­da que me di­gam e pro­vem que não pas­sa de uma men­ti­ra. Aque­le lu­gar faz par­te da mi­nha vi­da des­de os meus dez anos. Um dia fiz um pe­di­do e es­se pe­di­do re­a­li­zou-se. Cha­mem a is­to o que qui­se­rem.

Co­mo cui­da da voz?

Não cui­do mui­to. Sou au­to­di­da­ta em tu­do: nun­ca ti­ve uma au­la de can­to, nun­ca ti­ve uma au­la de gui­tar­ra, na­da.

Que opi­nião têm os fi­lhos do pai pro­fis­si­o­nal?

São mui­to sin­ce­ros. Só há pou­co tem­po per­ce­bi que ad­mi­ram mui­to o pro­fis­si­o­na­lis­mo do pai.

Dois ra­pa­zes e uma ra­pa­ri­ga, to­dos na in­dús­tria. Qu­an­do olha pa­ra os fi­lhos, há uma nos­tal­gia, uma in­ve­ja “boa”?

In­ve­ja só de eles não te­rem bar­ri­ga. (ri­sos) Eu já te­nho, eles ain­da não.

O en­ve­lhe­ci­men­to as­sus­ta-o?

Se dis­ses­se que não, men­tia. Mas é as­sim e o me­lhor é acei­tar. Se não fi­ca­mos res­sa­bi­a­dos. Pe­ço a Deus pa­ra nun­ca me tor­nar um res­sa­bi­a­do.

Cui­da de si?

Ten­to ter al­guns cui­da­dos, mas dou uma no cra­vo e na ou­tra fer­ra­du­ra. A se­guir a uma fei­jo­a­da co­mo uma al­fa­ce (ri­sos).

A pa­la­vra avô en­ve­lhe­ce mui­to?

No prin­cí­pio, não es­ta­va a gos­tar na­da da ideia. Ho­je, ado­ro.

Di­zem que dan­çar re­ju­ve­nes­ce.

Sou pro­va­vel­men­te o pi­or bai­la­ri­no do mun­do. E te­nho pe­na. Ado­ro tan­go e dan­ças de sa­lão.

Sei que gos­ta de co­zi­nhar. É uma te­ra­pia?

É o gos­to de ofe­re­cer, de par­ti­lhar. Eu mes­mo tra­to das com­pras na pra­ça de Al­va­la­de. Ado­ro aque­le am- bi­en­te. Aqui­lo sou eu. E que bem me tra­tam. Se es­ti­ver so­zi­nho não co­zi­nho. Fa­ço uma san­duí­che.

O que di­zem os fi­lhos da pa­ra­gem que pla­neia fa­zer?

Co­me­ça­ram por não acreditar e di­zi­am que eu aca­ba­ria por mu­dar de idei­as. Por fim, dis­se­ram que os meus ar­gu­men­tos fa­zi­am sen­ti­do.

Ce­re­brais ou im­pul­si­vos?

Ce­re­brais. Por um la­do, há um can­sa­ço do la­do me­diá­ti­co, que me fez so­frer. So­bre os plá­gi­os, so­bre o meu ca­sa­men­to e so­bre o meu di­vór­cio fo­ram es­cri­tas mui­tas men­ti­ras e dis­tor­ci­das mui­tas coi­sas. E o va­le tu­do não é o meu des­por­to. So­fri um pou­co e pre­ci­so de des­can­sar. Por ou­tro, ape­te­ce-me fa­zer coi­sas que ain­da não fiz e pa­ra is­so pre­ci­so de tem­po. Pa­ra pen­sar ne­las e pa­ra mim.

Pa­ra fa­zer o quê?

Pa­ra pe­gar nu­ma ca­ra­va­na e ir dormir pa­ra um pi­nhal, por exem­plo. Que­ro ir pa­ra a mi­nha ter­ra du­as ou três se­ma­nas e es­tar lá com as pes­so­as da al­deia. Que­ro ir a Fá­ti­ma a pé. Que­ro vi­si­tar em Is­ra­el a cam­pa de Mi­ke Brant, o meu ído­lo de ado­les­cên­cia, uma vi­a­gem adiada há qua­se 20 anos que pen­so fa­zer em de­zem­bro. Ago­ra, que­ro ver ri­os, flo­res­tas, passear pe­la na­tu­re­za. Es­tou a pen­sar na Ásia, nos EUA, no Ca­na­dá. So­zi-

nho, de mo­chi­la às cos­tas.

É vi­a­gem pa­ra quan­to tem­po?

Dois a três me­ses. Acho eu. Só se me en­can­tar pe­la Ásia.

O que po­de fa­zer ao fim de 30 anos de car­rei­ra?

Se ti­ves­se de gra­var um dis­co ago­ra, fe­cha­va-me num es­tú­dio du­ran­te dois me­ses, com 30 mú­si­cos, e faria um dis­co com al­gum swing. Mas, nes­te mo­men­to, não es­tou a pen­sar so­bre is­so.

Vai pa­ra es­sa vi­a­gem com al­gu­ma amar­gu­ra?

Que­ro ir mui­to fe­liz, com a fo­to­gra­fia na mi­nha ca­be­ça dos gran­des con­cer­tos que vou dar ago­ra (dia 10 de no­vem­bro, no Mul­tiu­sos de Gui­ma­rães; 16 e 17 de no­vem­bro, no Al­ti­ce Are­na), pa­ra fes­te­jar com o meu pú­bli­co 30 anos de can­ções. Can­ta­re­mos jun­tos es­sas can­ções e é es­se mo­men­to que que­ro le­var na mi­nha ca­be­ça.

Já sa­be qu­an­do vai vol­tar a gra­var?

Nes­te mo­men­to não que­ro cri­ar uma agen­da.

Qual é o mai­or or­gu­lho dos 30 anos?

Há um dis­co do qual me or­gu­lho mui­to: “O ho­mem que sou”. Saiu em 2008, o ano em que fui acu­sa­do de plá­gio, qu­an­do mui­ta gen­te va­ti­ci­na­va o fim da mi­nha car­rei­ra. Foi pro­va­vel­men­te o dis­co que mais ven­deu até ho­je.

O que gos­ta­ria que a ne­ta con­tas­se aos fi­lhos de­la, do bi­savô?

Ser ad­mi­ra­do por um ne­to é ain­da mais for­te que ser ad­mi­ra­do por um fi­lho. Gos­ta­va mui­to que fa­las­sem – sim, já que co­me­çou a des­gra­ça, es­pe­ro ter mais do que um (ri­sos) – de mim com or­gu­lho.

Co­mo gos­ta­ria de ser lem­bra­do pe­lo pú­bli­co?

Co­mo um ho­mem bom. ●m

“DES­DE UM MÉ­DI­CO QUE OPE­RA A OU­VIR-ME CAN­TAR, A DU­AS PES­SO­AS QUE ACOR­DA­RAM DE UM CO­MA AO SOM DA MI­NHA MÚ­SI­CA. É O PO­DER DA MÚ­SI­CA. ACON­TE­CE CO­MI­GO E COM OU­TROS”

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