DO­CE (E PERSISTENTE) VOZ

Máxima - - Música - Ri­ta Sil­va Ave­lar

De raí­zes alen­te­ja­nas e vi­vên­ci­as lis­bo­e­tas, Jo­a­na Es­pa­di­nha con­fes­sa-se, com or­gu­lho, can­tau­to­ra. Uma das vo­zes emer­gen­tes do pa­no­ra­ma da mú­si­ca na­ci­o­nal, Jo­a­na sal­tou do jazz pa­ra a pop à pro­cu­ra da sua es­sên­cia. En­con­tra­mo-la com um ar fe­liz , co­mo qu­em guar­da por mui­to tem­po um se­gre­do e ago­ra se pre­pa­ra pa­ra o con­tar ao mun­do.

De que for­ma é que a mú­si­ca en­trou na sua vi­da?

A mú­si­ca sem­pre fez par­te da mi­nha vi­da. Ve­nho de uma fa­mí­lia alen­te­ja­na e, no Alen­te­jo, há a tra­di­ção de can­tar as modas, e em cri­an­ça já as trau­te­a­va a to­das. Em pe­que­na es­cre­via po­e­mas, que­ria ser jor­na­lis­ta, mas aca­bei a es­tu­dar Di­rei­to. Só a meio do cur­so per­ce­bi que a mú­si­ca vi­ria a ser uma coi­sa mais sé­ria na mi­nha vi­da e fui es­tu­dar jazz pa­ra o Hot Clu­be.

Co­mo nas­cem as com­po­si­ções?

Quan­do eu co­me­cei a es­tu­dar jazz, ten­tei es­cre­ver mú­si­ca, mas não gos­ta­va da­qui­lo que es­cre­via. Um pi­a­nis­ta gre­go que tra­ba­lha­va co­mi­go dis­se-me al­go que nun­ca mais es­que­ci. Per­gun­tou-me: “Co­mo é que es­cre­ves?” E eu res­pon­di que me sen­ta­va ao pi­a­no e ten­ta­va es­cre­ver. “Mas tu não és pi­a­nis­ta. Tu tens de es­cre­ver aqui­lo que es­tás a ima­gi­nar na tua ca­be­ça.” Foi aí que en­ten­di que a mú­si­ca já es­ta­va den­tro de mim.

O que a fez sal­tar do jazz pa­ra a pop?

O pri­mei­ro dis­co, o Aves­so, é um dis­co de tran­si­ção, a in­fluên­cia do jazz es­tá lá. Mas a mú­si­ca era mais dis­per­sa, não tão fo­ca­da co­mo es­ta. Es­se pro­ces­so de tran­si­ção du­rou qua­se qua­tro anos. Pri­mei­ro com­pus can­ções su­per pop e cat­chy que não ti­nham tan­to a ver co­mi­go. De­pois pas­sei pa­ra a fa­se de es­cre­ver em In­glês e fa­zer coi­sas folk. Nes­sa fa­se, con­vi­dei o Ben­ja­mim [Luís Nu­nes] pa­ra um con­cer­to, de­pois pa­ra um ca­fé, e ele acon­se­lhou-me a es­cre­ver em Por­tu­guês. Re­co­me­cei do ze­ro, vol­tei a cha­má-lo e ele dis­se: “Boa, fi­zes­te o que eu dis­se, va­mos tra­ba­lhar!”

E as­sim nas­ce O Ma­te­ri­al Tem Sem­pre Ra­zão. Porquê es­te no­me?

Es­te dis­co é um re­tra­to fi­el de qu­em eu sou. O no­me é qua­se uma sá­ti­ra ao fac­to de, co­mo ar­tis­ta, ter que­ri­do, um dia, agra­dar a to­da a gen­te e ter per­ce­bi­do que, quan­do ten­ta­mos ser qu­em não so­mos, “o ma­te­ri­al tem sem­pre ra­zão”. Há um cur­to-cir­cui­to.

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