Car­ros­sel de mui­tas emo­ções

HÁ VI­DAS QUE MAIS PA­RE­CEM SAÍ­DAS DE LI­VROS.

Men's Health (Portugal) - - Sexo - / POR NA­O­MI

EN­QUAN­TO TE­NHO PAS­SA­DO BONS MO­MEN­TOS na com­pa­nhia do David, não me te­nho es­que­ci­do do meu Jon Snow do Nor­te. A al­ta pa­re­de da dis­tân­cia que nos se­pa­ra pa­re­ce ca­da dia mai­or. O nos­so re­en­con­tro con­ti­nua re­ple­to de si­nu­o­si­da­des. Quan­do ele po­de, é-me im­pos­sí­vel sair de Lis­boa. Quan­do eu posso, ele não con­se­gue dei­xar a vi­gia da fron­tei­ra do Nor­te. Ain­da as­sim, em­pe­nha-se em man­ter a con­ver­sa­ção e em en­vi­ar al­gu­mas fo­tos pa­ra eu não cor­rer o ris­co de me es­que­cer do que es­tá além da gran­de pa­re­de. As saí­das com o David co­me­çam a cair em ro­ti­na: pas­sei­os pe­la bai­xa e res­tau­ran­tes de co­mi­da exó­ti­ca que va­mos ex­pe­ri­men­tan­do pe­lo Ori­en­te. A ima­gi­na­ção co­me­ça a des­va­ne­cer e não te­nho tem­po pa­ra me pre­o­cu­par com es­sa par­te tão cru­ci­al de um af­fair.

UMA LUFADA DE AR FRES­CO. Não sei se cho­re, se ria. No­ti­fi­ca­ção no Ins­ta­gram. De quem? Um dos di­re­to­res de um dos de­par­ta­men­tos da em­pre­sa. Pe­diu pa­ra me se­guir. Mui­to bem. Acei­tei. Após uma pe­que­na fra­ção de tem­po re­ce­bo uma men­sa­gem. De­le. Diz ele que não me ima­gi­na­va tão sexy. Ób­vio que não vou trabalhar de ves­ti­do jus­to nem

sal­to al­to. Se fos­se, ga­ran­ti­da­men­te que não se­ri­am al­guns, mas todos os ho­mens do tra­ba­lho não me lar­ga­ri­am. E de­cer­to que não é is­so que pre­ten­do. Mui­to me­nos de ho­mens pou­co atra­en­tes.

Quan­do re­ce­bi a men­sa­gem en­trei em pâ­ni­co pe­ran­te o seu atre­vi­men­to e o elo­gio. A ver­da­de é que es­te é um dos di­re­to­res mais atra-en­tes que te­mos por lá, pa­ra não di­zer o úni­co dos che­fes. Nos seus 40 e pou­cos anos, mas com um cor­po mui­to bem de­fi­ni­do. Um gym ad­dict. Quan­do re­ce­bi a men­sa­gem não res­pon­di. Tam­pou­co lhe dei vista. Li a no­ti­fi­ca­ção não abrin­do a men­sa­gem. É bas­tan­te atra­en­te, não vou ne­gá-lo. Mas, por­que há sem­pre um mas. É ca­sa­do e tem du­as fi­lhas. Ago­ra, quan­do pas­so por ele na em­pre­sa, sin­to-me li­gei­ra­men­te cons­tran­gi­da, di­go bom dia ou boa tar­de e ten­to es­ca­par o mais bre­ve­men­te pos­sí­vel. Quan­do ele me apa­nha mais a jei­to e aper­ta a mi­nha mão com a sua gran­de mão pa­ra me cum­pri­men­tar, aper­ta-me a mão de um mo­do ca­ri­nho­so, pa­re­cen­do não que­rer lar­gá-la. Qua­se que te­nho que pu­xar a mi­nha mão com for­ça pa­ra que ele a lar­gue. Pas­sa­dos al­guns di­as de­ci­di dar vista à men­sa­gem e abri-la pa­ra não con­ti­nu­ar com o íco­ne de men­sa­gem não li­da no Ins­ta. Qual não é a mi­nha sur­pre­sa quan­do ve­jo que ele con­ti­nu­ou a en­vi­ar-me men­sa­gens di­a­ri­a­men­te. Uma das men­sa­gens es­ta­va re­la­ci­o­na­da com o tra­ba­lho, pe­lo que lhe res­pon­di. Cla­ro que não agra­de­ci todos os elogios que ele me tem vin­do a te­cer. Uma das men­sa­gens di­zia que eu es­ta­va lin­da nu­ma das mi­nhas ins­tas­to­ri­es no meu ves­ti­do branco, acres­cen­tan­do ser de­ten­tor de gran­de ima­gi­na­ção. Ok. Eu sei que dis­se que a ima­gi­na­ção do David co­me­ça a es­cas­se­ar, mas tam­bém não era pro­pri­a­men­te is­to que eu de­se­ja­va. Não te­nho res­pon­di­do a es­se ti­po de men­sa­gem que ele en­via, li­mi­to-me a man­dar um smi­le meio se­co que, apa­ren­te­men­te, ele in­ter­pre­ta de­ma­si­a­do mo­lha­do. E se me dou ao tra­ba­lho de res­pon­der é por­que pre­ci­so de ser en­tre­ti­da, em­bo­ra às ve­zes pen­se du­as ve­zes em re­la­ção a ele. O DAVID DE­CI­DIU DE­CLA­RAR-SE AS­SIM QUE

ACA­BOU A LI­CEN­CI­A­TU­RA. Já sa­bia que os sen­ti­men­tos que ele nu­tria por mim eram mai­o­res do que os que eu nu­tria por ele, mas não es­ta­va à es­pe­ra de tal de­cla­ra­ção. Fa­lan­do de um mo­do mui­to eru­di­to, da­que­le mo­do que só os pós-ado­les­cen­tes sa­bem, encarnando uma es­pé­cie de pseu­do­fi­ló­so­fo, de­cla­rou que a vi­da de­le se fo­ca­va em três gran­des ob­je­ti­vos, sen­do eu um de­les. Ti­nham pas­sa­do dois me­ses, se tan­to. Ele afas­tou-se no es­pa­ço físico, vol­tan­do pa­ra a ca­sa dos pais no Alen­te­jo. Eu afas­tei-me emo­ci­o­nal­men­te e con­ti­nuo aqui, pe­la bai­xa lis­bo­e­ta, à pro­cu­ra de no­vos de­sa­fi­os e aven­tu­ras. UM PÁS­SA­RO VOOU. Por is­so é que eu te­nho sem­pre uma gai­o­la cheia de­les. Não en­con­trei um no­vo de­sa­fio. Pa­ra já, fi­co-me por um de­sa­fio que pos­suo há já al­gum tem­po. Apre­sen­to-vos a Mel. Mel, ca­be­los lu­mi­no­sos em tons de mel e âm­bar. Pe­le quei­ma­da pe­lo sol com sar­das na quan­ti­da­de per­fei­ta. Lin­da. E ex­tre­ma­men­te com­pli­ca­da. Des­de que me co­nhe­ce que nu­tre uma paixão pla­tó­ni­ca - que ela pró­pria ad­mi­te - por mim. Gos­to de sair com ela. O pro­ble­ma é que ela não gos­ta de sair co­mi­go à noi­te. Diz que não se quer me­ter em sa­ri­lhos por mi­nha cau­sa. Não podemos sair no Bair­ro ou em San­tos sem que um mon­te de ho­mens, por­tu­gue­ses ou tu­ris­tas, nos abor­dem, nos cum­pri­men­tem ou lan­cem pi­ro­pos es­tú­pi­dos ao ar ti­po tro­lha. E a res­pos­ta de­la é bas­tan­te agres­si­va. Prin­ci­pal­men­te se eles se che­ga­rem de­ma­si­a­do per­to de mim nem que se­ja só pa­ra pe­dir di­re­ções. Ela ido­la­tra-me, mas cria um es­pa­ço de se­gu­ran­ça com re­ceio de se ma­go­ar. Se ain­da não en­ten­de­ram, a Mel é lin­da. Mas é lés­bi­ca. Olhan­do pa­ra ela nin­guém di­ria. Com­plei­ção ele­gan­te e lo­ok fe­mi­ni­no. Lan­cem-lhe um pi­ro­po e pro­vem o fo­go que ar­de e que quei­ma. Ela não se es­tá a fa­zer de dí­fi­cil. Meus se­nho­res, ela não quer mes­mo na­da con­vos­co. Co­mi­go? Quer e não quer. Ado­ra-me. Diz-me que ne­nhum ho­mem es­tá ao meu ní­vel, que ne­nhum me con­se­gui­rá sa­tis­fa­zer fi­si­ca ou in­te­lec­tu­al­men­te. Tal­vez te­nha ra­zão. Mas nu­ma gai­o­la cheia de pás­sa­ros exis­te um pás­sa­ro pa­ra as con­ver­sas in­te­lec­tu­ais, um pa­ra as saí­das di­ver­ti­das, um pa­ra os jan­ta­res re­quin­ta­dos, um pa­ra o se­xo ani­mal e um pa­ra o se­xo romântico. Me­nos a Mel, que não quer en­trar na mi­nha gai­o­la por­que se en­trar, é pa­ra fi­car. Não se con­ten­ta com mi­ga­lhas, a Mel quer o bo­lo to­do. A jo­gar as­sim, só po­dia ser uma mu­lher. A ver­da­de é que nun­ca falámos aber­ta­men­te so­bre ter­mos al­go pu­ra­men­te físico, ape­sar de ter­mos tro­ca­do bei­jos em vá­ri­as oca­siões. A úl­ti­ma vez que fo­mos sair à noi­te ela abra­çou-se a mim sem­pre que ti­nha opor­tu­ni­da­de. E sa­be que se­rá a mi­nha pri­mei­ra e is­so é al­go que lhe agra­da. Mas o re­ceio de ela sair ma­go­a­da é mai­or. Eu não fiz ne­nhum es­for­ço nem ten­tei que ro­las­se al­go por­que sei que se ten­tar, acon­te­ce. A MEL FAZ TU­DO POR MIM, ela per­ce­be co­mo nin­guém sem eu ter que di­zer na­da. Ela co­lo­ca-se em se­gun­do lu­gar por mim. Ela de­fen­de-me com unhas e den­tes. Se a Mel fos­se ho­mem, tal­vez fos­se o úni­co pás­sa­ro que eu guar­da­ria.

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