Armando Teixeira fa­la-nos so­bre o no­vo “Ar­que­o­lo­gia” dos seus Bal­la

“Ar­que­o­lo­gia” é o no­me do sex­to dis­co do pro­je­to de Armando Teixeira. Um ál­bum que nas­ce do tra­ba­lho de ex­plo­ra­ção de má­qui­nas e da “ci­ta­ção” das su­as prin­ci­pais in­fluên­ci­as mu­si­cais.

Metro Portugal (Lisbon) - - PRIMEIRA PÁGINA - BRUNO MAR­TINS

O mú­si­co por­tu­guês apre­sen­ta o ál­bum na sex­ta-fei­ra no Mu­sic­box, em Lis­boa, e dia 13 de no­vem­bro na Sandhou­se, no Por­to. “Can­ções”, de 2012, foi o úl­ti­mo dis­co des­te seu pro­je­to Bal­la. Co­mo é que se dá a pas­sa­gem des­se dis­co mais li­ne­ar pa­ra um tra­ba­lho mais ex­plo­ra­tó­rio co­mo es­te no­vo “Ar­que­o­lo­gia”?

Quis fa­zer um dis­co mui­to mais téc­ni­co, mais pen­sa­do e tra­ba­lha­do do que ti­nha si­do o “Can­ções”. Um ál­bum mais ge­nuí­no, que po­de­ria ter si­do fei­to nos anos 70 – até por­que a mai­or par­te dos ins­tru­men­tos são des­sa dé­ca­da – por­que tam­bém sin­to al­gu­ma sa­tu­ra­ção pe­la atu­al mú­si­ca ele­tró­ni­ca. Ado­ro mú­si­ca ele­tró­ni­ca, mas não gos­to da mai­or par­te do que se es­tá a fa­zer ago­ra. O dis­co po­de até não so­ar a ele­tró­ni­ca pa­ra mui­tas pes­so­as, por­que já nem as­so­ci­am es­te es­ti­lo a es­se gé­ne­ro, mas se for­mos a ver es­ta é a ele­tró­ni­ca mais pu­ra: a da ex­pe­ri­men­ta­ção. A mai­or par­te das coi­sas que fiz fo­ram pro­gra­ma­das em cai­xas de rit­mos e não atra­vés da­qui­lo que se en­con­tra na In­ter­net ao pon­ta­pé: ban­cos de sons, sam­ples dis­to e da­qui­lo, de sin­te­ti­za­do­res e ba­te­ri­as de som tra­ta­do que per­mi­tem ob­ter com mais fa­ci­li­da­de o som fi­nal mais tra­ta­do... mas não era is­so que que­ria. Fui à pro­cu­ra de fa­zer uma ele­tró­ni­ca crua, que é o que não se ou­ve ho­je.

É um mé­to­do que obri­ga a um tra­ba­lho mui­to mais exi­gen­te: da cri­a­ção de sons até à even­tu­al de­can­ta­ção da­qui­lo que foi cri­a­do, pa­ra ex­trair o que re­al­men­te pre­ci­sa?

Nes­te ca­so, o som é mui­to mais im­por­tan­te. A fon­te so­no­ra é mui­to me­lhor e ca­da som tem a sua im­por­tân­cia. Ca­da som fi­ca com o seu pró­prio es­pa­ço e até as coi­sas mais pe­que­nas ser­vem pa­ra mar­car a di­fe­ren­ça.

E ao tra­ba­lho da es­cri­ta poé­ti­ca? De­di­ca igual tem­po?

Qua­se que de­di­co mais tem­po por ina­bi­li­da­de (ri­sos). Há pes­so­as que es­cre­vem pri­mei­ro e de­pois fa­zem a me­lo­dia, mas eu não con­si­go: te­nho a me­lo­dia e de­pois te­nho de en­cai­xar as pa­la­vras que qu­e­ro di­zer.

Qu­er-nos ex­pli­car de on­de vem o la­do ar­que­o­ló­gi­co des­te ál­bum?

Tem que ver com mui­ta coi­sa: des­de já, os sin­te­ti­za­do­res, mas tam­bém com a mú­si­ca que gos­ta­va e con­ti­nuo a gos­tar e a con­su­mir. Gos­to mui­to de ci­ta­ções e te­nho mui­tas ci­ta­ções ao lon­go do dis­co, de mui­tos ar­tis­tas. Mas em vez de di­zer o no­me de­les, uti­li­zo ins­tru­men­tos. Por exem­plo: os vo­co­ders, no te­ma “Car­bo­no 14”, têm que ver com Kraftwek; mui­tos am­bi­en­tes pró­xi­mos de Mor­ton Su­bot­nick; um bai­xo em “Per­fei­to Qu­a­dra­do”, ins­pi­ra­do em New Or­der; umas cas­ta­nho­las que me fa­zem lem­brar os Roxy Mu­sic. Tem três vo­zes con­vi­da­das do Ori­en­te – Chu Ma­ki­no, Toi e Candy Wu – que é uma re­gião do glo­bo com uma es­té­ti­ca que me agra­da mui­to... uma ou­tra coi­sa mui­to im­por­tan­te no dis­co foi a par­ti­ci­pa­ção de um bai­xis­ta que des­co­bri, que me aju­dou mui­to e que se tor­nou um bom amigo, o Pe­dro Mon­tei­ro – além do Mi­guel Cer­vi­ni, o Du­ar­te Ca­ba­ça e Ro­dri­go Ama­do.

São es­ca­va­ções às su­as me­mó­ri­as e às su­as re­fe­rên­ci­as.

Sim, são coi­sas que não re­ne­go e que, pas­sa­dos to­dos es­tes anos, con­ti­nuo a apre­ci­ar.

Co­mo é a sua re­la­ção com os sin­te­ti­za­do­res? É a mes­ma que um gui­tar­ris­ta tem quan­do li­ga um pe­dal de efei­tos?

Sim... co­mo qual­quer ins­tru­men­tis­ta. Pri­mei­ro tem que se co­nhe­cer o ins­tru­men­to e de­pois apro­vei­tá-lo. Há sin­te­ti­za­do­res que sei que ain­da não os con­se­gui des­co­brir por com­ple­to, de­pois há ou­tros que sei aqui­lo que têm pa­ra dar. O que fa­ço é ir ex­plo­ran­do, só pa­ra os per­ce­ber, pa­ra de­pois, quan­do es­ti­ver a com­por, sa­ber o que me po­de dar no ime­di­a­to, as­sim que o li­go.

©PAU­LO RO­MÃO BRÁS

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