“DO NA­DA NASCE TU­DO”

KAP re­fle­te so­bre quem so­mos e aqui­lo que bus­ca­mos

Metro Portugal (Lisbon) - - PRIMEIRA PÁGINA - BRU­NO MAR­TINS

Quer-nos con­tar co­mo co­me­ça a pai­xão pe­la mú­si­ca e pe­las ri­mas? Foi mui­to ce­do. Com uns seis ani­tos os meus pais me­te­ram-me nu­ma es­co­la de mú­si­ca e is­so de cer­te­za que te­ve um im­pac­to mui­to gran­de. Es­tu­dei gui­tar­ra clás­si­ca até aos 14 anos... Mas aos 12 já ia es­cre­ven­do aque­las coi­sas que um ga­jo pre­ci­sa de es­cre­ver. Mas is­so da gui­tar­ra clás­si­ca es­tá bem lon­ge do uni­ver­so dos be­ats de hip hop! Era o rap que me pu­xa­va mais. Com os 14 ou 15 anos tam­bém ou­via os Emi­nems! Ou­via mais rap e co­nhe­cia pou­co em por­tu­guês, além dos Mind Da Gap, De­a­le­ma, Da We­a­sel, Sam The Kid... Mas lem­bro-me de um dia um pri­mo mos­trar-me umas coi­sas do Mun­do Se­gun­do, umas mix­ta­pes, e fui des­co­brir por mim pró­prio. Exis­te al­gum es­pí­ri­to nor­te­nho de fa­zer hip hop? O nor­te tem o seu pró­prio es­ti­lo de rap? Tem a sua pró­pria iden­ti­da­de. O es­ti­lo de rap de ca­da zo­na vem no se­gui­men­to do es­ti­lo que se fa­zia no pas­sa­do. Por exem­plo: o rap que se faz no Por­to é di­re­ta­men­te in­flu­en­ci­a­do por Mind Da Gap e De­a­le­ma, prin­ci­pal­men­te. E o que se faz em Lis­boa é in­flu­en­ci­a­do por Va­le­te e Sam The Kid, com ou­tras in­fluên­ci­as es­tran­gei­ras – acho que há mais dis­so em Lis­boa. Era pa­ra ter in­cluí­do no dis­co o ex­cer­to de uma en­tre­vis­ta que o Jo­sé Ma­riño fez aos Mind da Gap – que en­con­trei no You­Tu­be – em que per­gun­ta­va ao Se­ri­al por­que é que o rap do Por­to é mais escuro e som­brio. Ele res­pon­deu que ti­nha que ver com a ci­da­de. O rap do Por­to é mais ne­gro? Tal­vez se­ja mais in­tros­pe­ti­vo. Tam­bém se po­de des­cre­ver as­sim o seu “Do Na­da Nasce Tu­do”? Acho que sim. É um dis­co mais so­li­tá­rio, sem par­ti­ci­pa­ções, tu­do fei­to por mim... É inevitável que se­ja as­sim. E até di­ria que o an­da­men­to do dis­co ten­de pa­ra al­gu­ma es­cu­ri­dão. O pró­prio tí­tu­lo “Do Na­da Nasce Tu­do” re­fle­te es­sa in­tros­pe­ção. Sem dú­vi­da. O tí­tu­lo vem de uma fra­se que me an­da­va a ba­ter. Até há uma ci­ta­ção de uma par­te de um te­ma dos De­a­le­ma, de “Quem Fui e Quem sou”. Mas re­la­ti­va­men­te à in­ter­pre­ta­ção: se fo­res por aqui­lo que diz o meu avô [“con­vi­da­do” do dis­co] – que fez vo­lun­ta­ri­a­do pri­si­o­nal – mos­tra a pers­pe­ti­va de uma pes­soa que se re­no­va de­pois de pas­sar pe­la pri­são. Mas a mi­nha pri­mei­ra in­ten­ção foi re­pre­sen­tar o ci­clo da cri­a­ção. De­pen­de sem­pre da for­ma co­mo ou­ves. Achei cu­ri­o­so ter skits com vo­zes de mais ve­lhos, fra­ses de an­ciãos, co­mo o seu avô. Co­me­çou a fa­zer o dis­co com 17 anos e ho­je tem 20. Ou­vir os mais ve­lhos é im­por­tan­te pa­ra aju­dar na re­fle­xão? De fac­to, faz to­do o sen­ti­do e é co­e­ren­te. Nin­guém, com 17 anos, é uma pes­soa com­ple­ta­men­te for­ma­da. Te­mos sem­pre os nos­sos mo­de­los e as pes­so­as que va­lem a pe­na se­guir. Em ques­tões pessoais, com­por­ta­men­tais e de va­lo­res, o meu avô é das mi­nhas mai­o­res re­fe­rên­ci­as. Era im­pos­sí­vel fa­zer um pro­je­to tão gran­de co­mo um dis­co e tão no­vo, sem se­guir al­guém. Pe­lo me­nos há am­bi­ção de me tor­nar al­guém mai­or no fim de to­do o pro­ces­so.

JO­A­NA AL­VES

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