EX­CLU­SI­VO me­tro

“Bro­o­klyn”, a adap­ta­ção ci­ne­ma­to­grá­fi­ca de John Cro­wley (es­cri­ta por Nick Hornby) ba­se­a­da no li­vro de Colm Tói­bín, traz-nos uma in­ter­pre­ta­ção de so­nho pa­ra um pa­pel co­ra­jo­so da atriz ir­lan­de­sa Sa­oir­se Ro­nan.

Metro Portugal (Lisbon) - - PRIMEIRA PÁGINA - JOHN-MIGUEL SA­CRA­MEN­TO EM HOLLYWO­OD

Con­ver­sá­mos com a atriz Sa­oir­se Ro­nan, o “co­me­ta ir­lan­dês” que bri­lha co­mo pou­cos na gran­di­o­sa adap­ta­ção ao gran­de ecrã do acla­ma­do ro­man­ce de Colm Tói­bín, “Bro­o­klyn”

Mes­mo que não te­nham vis­to a atriz Sa­oir­se Ro­nan no pas­sa­do do­min­go tal co­mo ela apa­re­ceu nos Gol­den Glo­bes to­da al­ta e cí­vi­ca no meio de um ves­ti­do bran­co e lon­go mol­da­do em es­ti­lo gre­go clás­si­co, cer­ta­men­te sa­bem quem ela é. Foi a miú­da bri­tâ­ni­ca que, no fil­me “Ex­pi­a­ção”, diz uma men­ti­ra que cau­sa on­das mor­tí­fe­ras no seu pas­sar.

A enor­me ex­pres­si­vi­da­de fi­cou lo­go enal­te­ci­da, aque­la ca­pa­ci­da­de de me­xer nas gran­des fe­ri­das e de com­pre­en­der as tra­gé­di­as que ain­da de­vi­am es­tar es­con­di­das pa­ra lá da ino­cên­cia. Os olhos de­la, azuis trans­pa­ren­tes pa­ra que me­lhor fi­que ex­pos­to o po­der que es­con­de­mos por trás da ca­pa mais an­gé­li­ca, de­ram-lhe uma car­rei­ra no gran­de ecrã. Des­de o ci­ne­ma mu­do que não se vi­am olhos tão im­por­tan­tes. Foi à Sa­oir­se que o ci­ne­ma en­tre­gou, es­ta semana, ou­tra gran­de res­pon­sa­bi­li­da­de: em his­tó­ria es­cri­ta por es­cri­tor fa­mo­so (ai, o pe­so in­te­lec­tu­al e os ata­ques vi­pe­ri­nos ao vi­rar da es­qui­na!) re­pre­sen­ta a jo­vem ir­lan­de­sa que su­cum­be à pres­são fi­nan­cei­ra da de­pres­são eco­nó­mi­ca e vai vi­ver pa­ra No­va Ior­que no tem­po em que as va­gas da emi­gra­ção eu­ro­peia pa­ra o No­vo Mun­do atin­gi­am re­cor­des e a es­tá- tua da Li­ber­da­de ain­da era si­nal de es­pe­ran­ça. O fil­me cha­ma-se “Bro­o­klyn” e é uma pe­que­na obra-pri­ma. Se a qui­se­rem ver ao vi­vo, a Sa­oir­se vai es­tar em bre­ve nos pal­cos da Bro­adway ao la­do do gran­de Ben Whishaw, re­cri­an­do os tem­pos da gran­de per­se­gui­ção re­li­gi­o­sa que Arthur Mil­ler es­cre­veu em “The Cru­ci­ble”. Re­su­min­do, a mo­ça tem co­nhe­ci­men­to e gra­ci­o­si­da­de. Foi du­ran­te o fes­ti­val de To­ron­to que fa­lou ao me­tro.

“Par­ti­mos, mas es­ta­mos sem­pre a re­gres­sar. Par­ti­mos, mas o nos­so co­ra­ção es­tá sem­pre na Ir­lan­da. Saí­mos do ni­nho, mas re­gres­sa­mos sem­pre a ca­sa. Não te­nho dú­vi­da ne­nhu­ma dis­so”

Sair de ca­sa e ir vi­ver pa­ra um sí­tio no­vo que fi­ca do ou­tro la­do do mar é sem­pre um gran­de de­sa­fio. Há em Hollywo­od mui­ta gen­te que sa­be is­so. Pa­ra si, ca­sa sig­ni­fi­ca o quê? Pre­ci­sa de quê pa­ra se sen­tir em ca­sa?

Pre­ci­so da mi­nha mãe, acho. (ri­sos) Mas ago­ra mes­mo a sé­rio! Sem dú­vi­da que a res­pos­ta é: a mi­nha mãe. Nes­te en­qua­dra­men­to, não há mais na­da que se com­pa­re, re­al­men­te, o que não dei­xa de ser mui­to in­te­res­san­te. A mi­nha mãe acom­pa­nhou-me sem­pre ao lon­go da mi­nha car­rei­ra, até eu com­ple­tar 18 anos, e por is­so nun­ca ti­ve que me su­jei­tar a emo­ções me­nos bo­ni­tas co­mo sen­tir sau­da­des, ou sen­tir uma fal­ta enor­me da­qui­lo que faz de mim uma pes­soa in­tei­ra. Lem­bro-me que, de­pois de fa­zer 18 anos, não ter a mi­nha mãe ao meu la­do cons­tan­te­men­te foi a gran­de adap­ta­ção que me sen­ti obri­ga­da a fa­zer. Ti­nha es­ta­do sem­pre ali, co­mi­go, a chá­ve­na de chá pron­ta e a meu gos­to. Mas não faz mal. Sem­pre vi­vi uma vi­da de adap­ta­ção cons­tan­te. Não sou gran­de fã de mu­dan­ças brus­cas ou ra­di­cais, mas, uma vez fei­ta a mu­dan­ça, ins­ta­lo-me na no­va si­tu­a­ção sem pro­ble­mas. Há mui­ta gen­te que tem de ir vi­ver pa­ra ou­tro sí­tio, lon­ge de ca­sa. No­to mui­ta gen­te por aí que te­ve a co­ra­gem de dar es­se pas­so enor­me. Fe­liz­men­te, há sem­pre uma ma­nei­ra de o vi­a­jan­te le­var a ca­sa con­si­go on­de quer que vá.

O fil­me fa­la de uma jo­vem ir­lan­de­sa que se vê obri­ga­da a ten­tar a sor­te na Amé­ri­ca. Mas, no seu ca­so, é uma ir­lan­de­sa que vi­veu em No­va Ior­que, ver­da­de?

É mes­mo. Nas­ci no Bronx. Aliás, vê-se mes­mo, não é? (ri­sos). No­ta-se lo­go que eu e a J-Law nas­ce­mos no mes­mo quar­tei­rão. Fo­ra de brin­ca­dei­ras: sim, nas­ci em No­va Ior­que, mas os meus pais são de Du­blin – e foi pa­ra Du­blin que se mudaram quan­do eu ti­nha três anos. Até aos 18 anos cres­ci na Ir­lan­da, no con­da­do de Car­low.

No fil­me fi­quei com a im­pres­são de que a sua per­so­na­gem, Ei­lis La­cey, gos­ta mais do ti­po ir­lan­dês.

Não pos­so acre­di­tar. A sé­rio? O que o le­vou a fi­car com es­sa im­pres­são?

Deu-me a ideia que o ti­po ame­ri­ca­no ti­nha si­do ape­nas a pri­mei­ra pai­xo­ne­ta, im­por­tan­te nu­ma de­ter­mi­na­da fa­se da vi­da. De­pois dis­so, fi­quei a pen­sar que ela ti­nha ama­du­re­ci­do. Co­mo viu a coi­sa?

O per­cur­so de­la é o de uma mu­lher que tem o po­der de fa­zer uma es­co­lha. Tra­ta-se de uma es­co­lha que ela não po­de­ria ter fei­to no iní­cio da his­tó­ria. Fe­cha-se o cír­cu­lo, no fim. Ela ti­nha ido pa­ra No­va Ior­que por­que foi en­vi­a­da pa­ra lá. Tra­ta-se de uma pes­soa que tem de se mol­dar à cir­cuns­tân­cia, mas, a par­tir de um cer­to pon­to, ela apo­de­ra-se da cir­cuns­tân­cia e mol­da-a às su­as ne­ces­si­da­des. Es­tu­da. Ar­ran­ja em­pre­go. Apai­xo­na-se. Sim, é pos­sí­vel que en­tre ela e o To- ny ha­ja di­fe­ren­ças. Des­de lo­go, ele pa­re­ce avan­çar com mai­or ra­pi­dez, a um rit­mo di­fe­ren­te do de­la. Mes­mo as­sim, ela con­se­gue ver o amor e o fu­tu­ro que o Tony lhe pre­pa­rou. Há um mo­men­to em que ela tem de en­fren­tar os se­gre­dos e as ver­da­des, mas no­ta-se ne­la a de­ter­mi­na­ção de acei­tar as es­co­lhas lú­ci­das que fez. Gos­tei mui­to de ver co­mo o co­ra­ção de­la se di­vi­de. Mas gos­tei de ver, so­bre­tu­do, que o fi­nal é pou­co tí­pi­co de Hollywo­od. A es­co­lha A não é pi­or do que a es­co­lha B. Uma não é me­lhor ou pi­or que a ou­tra. O im­por­tan­te é que ela te­ve o po­der de to­mar uma de­ci­são. E to­mou-a.

Que re­la­ção tem ago­ra com es­ta si­tu­a­ção de qua­se du­pla na­ci­o­na­li­da­de? Tra­ba­lha nos Es­ta­dos Uni­dos, mas sen­te- se ain­da ir­lan­de­sa?

Es­tou sem­pre a fes­te­jar e a ho­me­na­ge­ar o meu la­do ir­lan­dês. Creio que o fac­to de ter nas­ci­do em No­va Ior­que, que con­ti­nua a ser de cer­ta ma­nei­ra a ci­da­de mais cos­mo­po­li­ta e im­por­tan­te do mun­do, me per­mi­te di­vi­dir ali­an­ças en­tre uma iden­ti­da­de e ou­tra. Se­rei sem­pre ir­lan­de­sa, mas No­va Ior­que es­tá a trans­for- mar-se nu­ma par­te im­por­tan­te de mim. Os ir­lan­de­ses são, co­mo diz o re­a­li­za­dor John Cro­wley, uma na­ção de gen­te que par­te. Par­ti­mos, mas es­ta­mos sem­pre a re­gres­sar. Par­ti­mos, mas o nos­so co­ra­ção es­tá sem­pre na Ir­lan­da. Saí­mos do ni­nho, mas re­gres­sa­mos sem­pre a ca­sa. Não te­nho dú­vi­da ne­nhu­ma dis­so. Di­to is­to, te­nho pla­nos pa­ra me mu­dar de­fi­ni­ti­va­men­te pa­ra No­va Ior­que em 2016 e mal pos­so es­pe­rar por es­se mo­men­to.

No­to que es­tá sem­pre cheia de vi­da e que não se im­por­ta de par­ti­lhar es­sa ener­gia com to­dos nós, sem­pre que apa­re­ce no ecrã. Há al­go que a dei­xe es­pe­ci­al­men­te em bai­xo, tris­to­nha e mur­cha?

Cla­ro que há. To­do o ti­po de coi­sas. Quan­do es­tou com fo­me, fi­co tris­te, mes­mo car­ran­cu­da. Tam­bém te­nho uma gran­de di­fi­cul­da­de em ge­rir a mi­nha nos­tal­gia, es­tar lon­ge de ca­sa. Uma pes­soa tem de pas­sar por vá­ri­as fa­ses de acei­ta­ção e re­cu­pe­ra­ção quan­do es­tá a so­bre­vi­ver a um ca­so sé­rio de sau­da­des.

“Gos­tei mui­to de ver co­mo o co­ra­ção da Elis se di­vi­de. Mas gos­tei de ver, so­bre­tu­do, que o fi­nal é pou­co tí­pi­co de Hollywo­od. A es­co­lha A não é pi­or do que a es­co­lha B”

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