Os pa­péis dos ato­res

Metro Portugal (Lisbon) - - CINEMA -

“Fi­ca a per­gun­ta: se o ator não tem uma fun­ção so­ci­al im­por­tan­te, por­que es­tá sem­pre a ser usa­do pa­ra ven­der tra­lha às pes­so­as? Por­que não re­cor­rer ao ator pa­ra ven­der coi­sas bo­as ao pú­bli­co?” cons­pi­ra­ções. Ele, me­lhor que nin­guém, es­tá cons­ci­en­te da im­por­tân­cia do jor­na­lis­mo. Sa­be que mu­da a vi­da dos ou­tros, dá voz aos me­nos pro­te­gi­dos, pro­te­ge os mar­gi­na­li­za­dos. A ener­gia im­pa­rá­vel de­le vem daí, da en­tre­ga pes­so­al fa­ce a uma mis­são mai­or. Che­guei a ir lá a ca­sa pa­ra ver co­mo vi­via. É ti­po mon­ge ere­mi­ta, mui­to dis­ci­pli­na­do, mi­ni­ma­lis­ta, os ob­je­tos e os li­vros to­dos mui­to ali­nha­di­nhos nas pra­te­lei­ras. Acho que a co­zi­nha de­le nun­ca foi usa­da pa­ra fa­zer uma re­fei­ção. Não tem mo­bí­lia, fo­ra o so­fá, uma me­si­nha e a pra­te­lei­ra. Com­par­ti­men­tos pra­ti­ca­men­te va­zi­os. Achei no­tá­vel que um ti­po de 55 anos con­si­ga vi­ver da­que­la ma­nei­ra. Co­mo vê o jor­na­lis­mo atu­al? Re­pa­ro que há ca­da vez mais ce­le­bri­da­des a cha­mar a aten­ção pa­ra ca­sos gri­tan­tes de in­jus­ti­ça, re­fu­gi­a­dos, cor­rup­ção, dro­ga, ter­ro­ris­mo, etc. Acha que o pú­bli­co dá mais aten­ção a uma si­tu­a­ção de crise so­ci­al se o por­ta-voz no­ti­ci­o­so for um ator mui­to co­nhe­ci­do? Não te­nho bem a cer­te­za. O que sei é que, quan­do per­cor­ro um ter­mi­nal de ae­ro­por­to, farto-me de ver ca­ras co­nhe­ci­das a fa­zer anún­cio de re­ló­gio, rou­pa, ca­fé, per­fu­me, etc. Fi­ca a per­gun­ta: se o ator não tem uma fun­ção so­ci­al im­por­tan­te, por­que es­tá sem­pre a ser usa­do pa­ra ven­der tra­lha às pes­so­as? Por­que não re­cor­rer ao ator pa­ra ven­der coi­sas bo­as ao pú­bli­co, em vez de tu­do se re­su­mir a ob­je­tos de pra­zer? Não sei ex­pli­car, mas es­tou cons­ci­en­te que a voz do ator che­ga, mai­or par­te das ve­zes, mais lon­ge que a das ou­tras pes­so­as. No meu ca­so, não sei se con­si­go que a mi­nha pa­la­vra te­nha um al­can­ce mai­or que a de um jor­na­lis­ta. Mas sei que con­si­go che­gar a um seg­men­to da po­pu­la­ção que não lê jor­nais ou que já per­deu a fé nal­gu­mas ins­ti­tui­ções. Gos­to que um fil­me fa­le às pes­so­as de ma­nei­ra di­fe­ren­te. Não subs­ti­tui a co­mu­ni­ca­ção so­ci­al, mas po­de tra­ba­lhar em con­jun­to com os jor­nais de ma­nei­ra a que pos­sa­mos to­dos in­ves­ti­gar os gran­des te­mas do nos­so tem­po.

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