ES­CRE­VER E TO­CAR PI­A­NO

Di­o­go Lopes , 16 anos, apren­deu a vi­ver com uma do­en­ça

Metro Portugal (Lisbon) - - PRIMEIRA PÁGINA - PATRÍCIA TADEIA

Aos 10 anos, des­co­briu que so­fre da do­en­ça de Char­cot-Ma­rie-To­oth. Seis anos de­pois, es­te pi­a­nis­ta e es­cri­tor pro­me­te que con­ti­nu­a­rá a to­car e a es­cre­ver até con­se­guir.

Co­mo é que, de re­pen­te, aos 16 anos, se lan­ça um li­vro? A es­cri­ta sem­pre es­te­ve pre­sen­te na mi­nha vi­da. O edi­tor do li­vro propôs-me es­cre­ver so­bre mim, al­go que ins­pi­ras­se as pes­so­as. Achei gra­ça ao de­sa­fio, mas ao mes­mo tem­po sen­ti que era al­go per­tur­ba­dor. Afi­nal, o que é que eu, do “al­to” dos meus 16 anos, po­dia ter pa­ra con­tar às ou­tras pes­so­as? Es­te li­vro, Ba­lu­ar­tes, con­ta com um pre­fá­cio do Sér­gio Go­di­nho. O Sér­gio é em­bai­xa­dor da mi­nha as­so­ci­a­ção e per­gun­tei-lhe se que­ria dar uma vis­ta de olhos ao li­vro. Ele acei­tou e es­cre­veu mui­to bem de mim. Cla­ro, pa­guei-lhe bem [ri­sos]! [Ri­sos] Aos 9 anos, en­tra no con­ser­va­tó­rio. O gos­to pe­la música só sur­ge aí? Não, co­me­cei o es­tu­do da música com cin­co anos. Pen­so que te­ve mui­to a ver com a edu­ca­ção. Lá em ca­sa ou­ve-se de tu­do, des­de música clás­si­ca, ao jazz, ao heavy me­tal. Aos dez anos sa­be que so­fre de Char­cot-Ma­rie-To­oth, do­en­ça neu­ro-mus­cu­lar de­ge­ne­ra­ti­va, ra­ra e sem cu­ra. Sem­pre nos aper­ce­be­mos que ha­via qual­quer coi­sa. Quan­do era be­bé an­da­va sem­pre a cair. E não con­se­guia su­bir na­da mais ou me­nos aci­ma do meu jo­e­lho. Eram tu­do in­di­ca­do­res de al­gu­ma coi­sa. O pro­ble­ma foi es­cla­re­cer que coi­sa era es­sa. ver com a do­en­ça e não ape­sar da do­en­ça. Qual é o ba­lan­ço des­tes seis anos de evo­lu­ção da do­en­ça? A do­en­ça evo­lui den­tro de um pa­no­ra­ma, de cer­to mo­do, es­pe­ra­do. Cla­ro que quan­do as coi­sas acon­te­cem, é sem­pre um pu­xar do ta­pe­te, nun­ca es­ta­mos à es­pe­ra. Sen­do uma do­en­ça de­ge­ne­ra­ti­va, ten­de a ma­ni­fes­tar-se com o tem­po. Já te­nho uma mão bas­tan­te mais le­ve­zi­nha, com fal­ta de mús­cu­lo. Mas a fun­ção é que im­por­ta. Se con­se­guir es­cre­ver ou to­car pi­a­no, não im­por­ta. Mas a cer­ta al­tu­ra te­ve de mu­dar do cur­so de Pi­a­no pa­ra Com­po­si­ção. Sim, a de­for­ma­ção dos po­le­ga­res não per­mi­tia que os fle­tis­se a 90 graus, o que im­pe­dia cer­tas po­si­ções pi­a­nís­ti­cas. Mas ain­da to­co co­mo se­gun­do ins­tru­men­to, mas tam­bém no Hot Clu­be. Diz no li­vro que se sen­te pre­so a um cor­po que não é o seu. Mas re­ve­la uma ma­tu­ri­da­de que não é pró­pria dos 16 anos. [Si­lên­cio]... É uma si­tu­a­ção an­to­gó­ni­ca. To­dos os di­as me le­van­to da ca­ma e es­ta­lo co­mo se ti­ves­se três hér­ni­as nas cos­tas. Não me sin­to eu, na­que­le vi­gor de 16 anos. Não sou pro­pri­a­men­te um jo­vem nor­mal. Tam­bém gos­ta­va de o ser...

A do­en­ça de Char­cot-Ma­rie-To­oth con­sis­te em de­sor­dens pro­gres­si­vas que afe­tam os ner­vos pe­ri­fé­ri­cos. Di­fi­cul­da­de de equi­lí­brio, fra­que­za mus­cu­lar são al­guns dos sin­to­mas pre­co­ces.

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