A APA­REN­TE DES­CON­TRA­ÇÃO

CA­PI­TÃO FAUS­TO

Metro Portugal (Lisbon) - - CULTO - BRU­NO MAR­TINS

Uma das sen­sa­ções que o no­vo dis­co dei­xa no ar é a pas­sa­gem do tem­po, o “en­ve­lhe­ci­men­to”

da ban­da. É um dis­co que mar­ca uma épo­ca pa­ra nós, co­mo os ou­tros tam­bém mar­ca­ram. Re­gra ge­ral, os dis­cos são aque­la es­pé­cie de fo­to­gra­fia de uma cer­ta al­tu­ra da ban­da. Tam­bém tem con­sequên­ci­as na pró­pria so­no­ri­da­de da ban­da? Me­nos velocidade, me­nos dis­tor­ção? Even­tu­al­men­te, há de ter re­fle­xo. As coi­sas que nos ape­te­cem ou­vir tam­bém se al­te­ram con­so­an­te o es­ta­do de es­pí­ri­to. No ge­ral, as coi­sas es­tão um bo­ca­di­nho mais “laid-back”, me­nos dis­tor­ci­das. Com me­lo­di­as um bo­ca­di­nho mais es­sen­ci­ais. Aper­ce­bem-se dis­so na com­po­si­ção? “Olha aí que es­tá mui­to rá­pi­do!”, ou “olha aí que es­tá mui­to dis­tor­ci­do!”... Tal­vez, em re­la­ção ao tem­po, so­bre­tu­do (pau­sa). Mas não hou­ve uma de­ci­são pre­me­di­ta­da: fo­mos ou­vir as coi­sas que es­tá­va­mos a fa­zer e apeteceu-nos que fos­se mais len­to. O To­más é o au­tor das le­tras das can­ções. Hou­ve te­má­ti­cas es­pe­cí­fi­cas que qui­ses­se abor­dar? Não foi mui­to di­fe­ren­te de ou­tros dis­cos. É uma es­cri­ta mui­to in­di­vi­du­a­lis­ta e só não é mais por­que par­ti­lho ex­pe­ri­ên­ci­as com as pes­so­as com quem es­tou a to­car. São ex­pe­ri­ên­ci­as pes­so­ais, mas que nos são co­muns. É uma es­pé­cie de li­vro de me­mó­ri­as, com coi­sas que po­dem ser mais ou me­nos atu­ais e mais ou me­nos per­ti­nen­tes. É di­fí­cil de­fi­nir os te­mas à ca­be­ça: quan­do ata­co uma mú­si­ca, as coi­sas vão-se de­sen­vol­ven­do e con­ta­mi­nan­do-se umas às ou­tras. Tem por há­bi­to ir com­pa­rar o que es­cre­ve ho­je com o que es­cre­veu há cin­co anos? Por aca­so, não... Se ca­lhar de­via, não é? Nun­ca ti­nha pen­sa­do nis­so. Po­de ser um olhar pa­ra fo­to­gra­fi­as pas­sa­das. Sim. Às ve­zes ou­ço as mú­si­cas... mas te­nho di­fi­cul­da­des Acha que o “en­ve­lhe­cer” faz com que se­ja da­do a me­nos me­tá­fo­ras? A uma me­nor ca­mu­fla­gem na­qui­lo que se diz? Não sei se é do en­ve­lhe­ci­men­to. É mais cir­cuns­tan­ci­al, con­so­an­te o con­tex­to em que se es­tá in­se­ri­do, as coi­sas de­vem ser di­tas mais ou me­nos di­re­ta­men­te. Qual foi es­te con­tex­to? Tem a ver com o sair de ca­sa, ser­mos miú­dos abur­gue­sa­dos que ti­ve­ram a sor­te de po­der tra­ba­lhar mais nis­to do que se ti­vés­se­mos de nos vi­rar mais ce­do. Aca­ba­mos os cur­sos da fa­cul­da­de e es­ta­mos a de­di­car-nos a is­to. Há uma ideia de se­ri­e­da­de, a ver se po­mos is­to a re­sul­tar. No seu ca­so, que cur­so é que fi­ca pa­ra trás? Ar­qui­te­tu­ra. De­di­ca-se à ar­qui­te­tu­ra de can­ções? Em mui­tos as­pe­tos, não é mui­to di­fe­ren­te. Hou­ve coi­sas que apren­di que me fi­ze­ram per­ce­ber cer­tas coi­sas nes­ta re­la­ção e há mui­tos ar­qui­te­tos que fa­lam na mú­si­ca e na ar­qui­te­tu­ra co­mo du­as áre­as com­pa­rá­veis.

O vo­ca­lis­ta To­más Wal­lens­tein con­ta ao me­tro co­mo nas­ceu o ter­cei­ro tra­ba­lho da ban­da, “Ca­pi­tão Faus­to Têm os Dias Con­ta­dos”.

em ver le­tras es­cri­tas. A le­tra de uma can­ção de­ve exis­tir, so­bre­tu­do, can­ta­da. DR

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