Ka­ma­si Washing­ton,

“The Epic” é o dis­co de es­treia de um dos mais ta­len­to­sos e am­bi­ci­o­sos mú­si­cos de jazz da atu­a­li­da­de. O sa­xo­fo­nis­ta – que edi­tou o tri­plo ál­bum pe­la Brain­fe­e­der, edi­to­ra de Flying Lo­tus – atua se­gun­da-fei­ra na Ca­sa da Mú­si­ca, no Por­to, e ter­ça-fei­ra no Te

Metro Portugal (Lisbon) - - JORNAL - © DR

um dos mais ta­len­to­sos e am­bi­ci­o­sos mú­si­cos de jazz da atu­a­li­da­de, to­ca em Por­tu­gal. Em en­tre­vis­ta, o nor­te-ame­ri­ca­no fa­la so­bre o seu so­nho épi­co

Pa­ra o seu dis­co de es­treia cri­ou um ál­bum tri­plo, con­tou com du­as ba­te­ri­as, dois bai­xos, pi­a­nos e te­cla­dos, uma or­ques­tra de 32 ele­men­tos e um co­ro de 20 pes­so­as. Só po­dia cha­mar-se “The Epic”, cer­to? (ri­sos) Quis con­den­sar o ál­bum só num dis­co. Mas en­quan­to tra­ba­lha­va nis­so, co­me­cei a so­nhar com uma his­tó­ria que ti­nha to­das as mú­si­cas em si. Foi es­se so­nho que me fez dei­xar fi­car o dis­co com as mú­si­cas to­das. “The Epic” é mais por cau­sa des­sa his­tó­ria. O que é que via nes­se so­nho?

Tam­bém ou­via sons? Am­bos! Co­me­çou com a can­ção “Chan­ge of Gu­ard”. A mú­si­ca era co­mo uma ban­da so­no­ra de um fil­me (ri-se). Ti­ve o so­nho de um ti­po que es­ta­va a guar­dar um por­tão no to­po de uma mon­ta­nha on­de ha­via uma al­deia com pes­so­as que pas­sa­vam a vi­da a trei­nar pa­ra de­sa­fi­ar es­se gu­ar­da. Era um so­nho re­cor­ren­te. Qu­an­do aca­bei de tra­ba­lhar nes­sa mú­si­ca, co­me­cei a tra­ba­lhar em “The Mag­ni­fi­cent 7” e que­ria ter a mes­ma ex­pe­ri­ên­cia! E an­da­va a for­çar-me a ter so­nhos, pa­ra se trans­for­mar nu­ma his­tó­ria in­ter­li­ga­da, em que to­das as can­ções se en­con­tram. Foi as­sim que per­ce­bi que es­tas can­ções ti­nham de ser dis­po­ni­bi­li­za­das as­sim, in­tac­tas. Mas cla­ro que es­ta­va pre­o­cu­pa­do com um dis­co tão lon­go. Mas foi um si­nal! Só fa­zia sen­ti­do edi­tar des­ta for­ma, num tra­ba­lho de 172 mi­nu­tos? Sim, sen­ti que era só uma afir­ma­ção da mi­nha par­te e não três ou qua­tro. Po­dia ter edi­ta­do tu­do em se­pa­ra­do, mas acho que iria per­der be­le­za e a ex­pe­ri­ên­cia de ou­vir tu­do em con­jun­to. Por ou­tro la­do, de­mo­rou bas­tan­te tem­po a aca­bar: só que­ria era ver is­to na rua! (ri­sos). Qu­an­to tem­po de­mo­rou até fi­na­li­zar es­ta obra-pri­ma? Co­me­cei em de­zem­bro de 2011 e aca­bei em mar­ço de 2014. Fo­ram três anos. Tam­bém não cos­tu­ma­mos, di­go eu, ou­vir um dis­co de jazz com ta­ma­nho vo­lu­me e or­ques­tra­ção. É a pro­va de que no jazz po­de fa­zer-se o que se qui­ser? No jazz e em tu­do! Co­mo mú­si­cos, es­ta­be­le­ce­mos mui­tas re­gras, res­tri­ções, de que não pre­ci­sa­mos. Po­de­mos ser li­vres e fa­zer o que nos ape­te­ce! E is­so é o me­lhor que se po­de fa­zer. O dis­co foi bas­tan­te elo­gi­a­do pe­la crí­ti­ca e elei­to um dos me­lho­res dis­cos do ano pas­sa­do. To­da es­ta di­men­são de “The Epic” aju­dou ao re­co­nhe­ci­men­to? A mú­si­ca dos di­as de ho­je es­tá mui­to com­par­ti­men­ta­da em pe­que­nos ex­cer­tos, sin­gles. E já não se fa­zem coi­sas as­sim: obras que nos per­mi­tam ti­rar um dia pa­ra nos dei­xar­mos imer­gir ne­las e há pú­bli­co pron­to pa­ra is­so. De­pois, mes­mo sen­do três dis­cos, qu­an­do os ou­ço sin­to que há uma co­e­rên­cia, que é só uma pe­ça! Acho que as pes­so­as per­ce­be­ram o que eu que­ria. Co­mo é to­car es­te “The Epic” ao vivo? Tam­bém vem fa­zer con­cer­tos de três ho­ras? Não! Ca­da con­cer­to é uma ex­pe­ri­ên­cia pró­pria. Ten­to man­ter a mú­si­ca fres­ca a ca­da dia que pas­sa. O que fi­ze­mos on­tem, não mar­ca o que fa­ze­mos ho­je. Ten­to dar vi­da à mú­si­ca, dar-lhe es­pa­ço pa­ra res­pi­rar pa­ra que pos­sa ser o que pre­ci­sa ou quei­ra ser na­que­le dia. A mú­si­ca fa­la com ca­da um de nós de for­ma di­fe­ren­te. Uma can­ção po­de ser óti­ma on­tem... mas po­de já não ser ama­nhã (ri­sos). Pre­fi­ro ler a ener­gia que ilu­mi­na a sa­la e to­car as mú­si­cas pa­ra que nos sai­bam bem. Não é pos­sí­vel for­çar a mú­si­ca a ser aqui­lo que ela não é – mas ten­ta­mos por ou­tros ca­mi­nhos! E vi­a­ja com mui­tos mú­si­cos? Vi­a­jar é com­pli­ca­do. São mú­si­cos mui­to re­qui­si­ta­dos. So­mos uma ban­da de oi­to [o dis­co foi gra­va­do com um nú­cleo de dez]. Mas é mui­to fi­xe, por­que per­mi­te ao ou­vin­te re­ce­ber mais de ca­da mú­si­co. É di­ver­ti­do to­car com um gru­po mais pe­que­no, pa­ra dar ain­da mais es­pa­ço à mú­si­ca. E o que lhe pas­sa pe­la ca­be­ça no fu­tu­ro? Gos­ta­ria de fa­zer um dis­co mais “le­ve”? Es­tou a pla­ne­ar grandes coi­sas pa­ra um pró­xi­mo dis­co. Já te­nho mui­tas can­ções. Mas nun­ca se sa­be até se ir pa­ra es­tú­dio e co­me­çar a gra­var. A mú­si­ca, co­mo dis­se, é que me vai di­zer on­de quer es­tar. Mas na mi­nha ca­be­ça, ou­ço al­go ain­da mai­or do que o “The Epic”! Tem tra­ba­lha­do tam­bém em mui­tos pro­je­tos pa­ra­le­los. Um dos mais co­nhe­ci­dos foi a par­ti­ci­pa­ção em “To Pimp a But­ter­fly”. A sua pre­sen­ça na Brain­fe­e­der – edi­to­ra de Flying Lo­tus – apro­xi­ma-o mais des­te ti­po de pro­je­tos pró­xi­mos do hip hop? Ain­da não sei. Te­nho an­da­do mui­to em di­gres­são, des­de o ano pas­sa­do. Te­nho fa­la­do com di­fe­ren­tes pes­so­as, mas tu­do o que te­nho é só con­ver­sas e na­da de con­cre­to. Mas es­pe­ro que sim!

DR

Os bi­lhe­tes pa­ra o con­cer­to da Ca­sa da Mú­si­ca cus­tam en­tre os €30 e os €35. Em Lisboa, pa­ra o Ti­vo­li, os in­gres­sos cus­tam en­tre os €20 e os €35.

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