“VARIAÇÕES, DE ANTÓNIO”

En­tre­vis­ta com o en­ce­na­dor e au­tor Vi­cen­te Al­ves do Ó

Metro Portugal (Lisbon) - - PRIMEIRA PÁGINA - BRUNO MAR­TINS

O re­a­li­za­dor de “Flor­be­la” é o au­tor e en­ce­na­dor do mo­nó­lo­go “Variações, de António”, que o ator Sér­gio Praia le­va ao pal­co do Te­a­tro São Luiz, em Lis­boa, a par­tir de ho­je.

O ím­pe­to de me­xer na his­tó­ria de António Variações veio do pró­prio ator. Foi Sér­gio Praia que, de­pois de ver o tra­ba­lho de Vi­cen­te Al­ves do Ó no fil­me so­bre Flor­be­la Es­pan­ca, o de­sa­fi­ou a es­cre­ver es­te mo­nó­lo­go que vai es­tar a par­tir de ho­je no Te­a­tro São Luiz. Uma ten­ta­ti­va de mer­gu­lhar na ca­be­ça, al­ma e so­li­dão do íco­ne mai­or da his­tó­ria da pop por­tu­gue­sa. As variações de António, os me­dos, as an­gús­ti­as, a co­ra­gem, a ou­sa­dia e ir­re­ve­rên­cia, o co­ra­ção e al­ma chei­os do bar­bei­ro mi­nho­to ho­ras an­tes de par­ti­lhar o pal­co com a rai­nha Amá­lia. O pú­bli­co, em tra­ços ge­rais, co­nhe­ce a his­tó­ria de António Variações. Po­de­mos, even­tu­al­men­te, não co­nhe­cer nem o ho­mem nem as su­as mo­ti­va­ções ar­tís­ti­cas. O que é que o Vi­cen­te foi à pro­cu­ra nes­te es­pe­tá­cu­lo? Fas­ci­nam-me mui­to es­tas pes­so­as que se in­ven­tam, que nas­cem em paí­ses e em ter­ras on­de as pers­pe­ti­vas de ser di­fe­ren­te e de vin­gar com idei­as pró­pri­as são mui­to pou­cas e que, mes­mo as­sim, con­se­guem fa­zê-lo de uma for­ma tão glo­ri­o­sa, que 30 anos de­pois ain­da es­ta­mos aqui a fa­lar de­las. O António ti­nha tu­do con­tra ele e, ain­da as­sim, pe­gou nis­so e trans­for­mou-o na sua he­ran­ça icó­ni­ca. Ele ain­da es­tá mais à fren­te do que o tem­po que es­tou a vi­ver ago­ra (ri­sos). O António era um gajo do futuro, lá da fren­te. Al­gu­ma vez che­ga­re­mos a es­se futuro? Acho que não, por­que as pes­so­as não es­tão ha­bi­tu­a­das a li­dar con­si­go pró­pri­as. O António era mui­to fo­ca­do em si, no que de­se­ja­va e am­bi­ci­o­na­va. Não ti­nha mui­tos pro­ble­mas em re­la­ção ao que pen­sa­vam so­bre ele. Só era de­di­ca­do ao seu so­nho. E nós ain­da nos pre­o­cu­pa­mos mui­to com o que di­zem de nós. Por nor­ma, usa­mos to­dos uma gran­de más­ca­ra so­ci­al. Não é a pri­mei­ra fi­gu­ra que abor­da no seu tra­ba­lho cri­a­ti­vo com es­sas ca­ra­te­rís­ti­cas – já o ti­nha fei­to com Flor­be­la Es­pan­ca. Só con­se­gui­mos per­ce­ber es­tas pes­so­as de­pois de mor­re­rem? Acho que sim. É co­mo o vi­nho: é pre­ci­so tem­po. Mas o António te­ve sor­te de ter co­nhe­ci­do o su­ces­so em vi­da. Ele te­ve no­ção do su­ces­so de­le! Du­ran­te dois anos, foi uma lou­cu­ra to­tal, nu­ma mis­tu­ra en­tre fas­cí­nio e cho­que. O António era um ho­mem do Mi­nho. A Flor­be­la era uma mu­lher de Vi­la Vi­ço­sa, do in­te­ri­or alen­te­ja­no. O fac­to de te­rem vin­do da pro­vín­cia pa­ra a ci­da­de tam­bém os de­fi­ne? Com­ple­ta­men­te, e o meu in­te­res­se pas­sa pe­lo fac­to de eu ter fei­to exa­ta­men­te o mes­mo – ain­da que sem a in­ven­ti­vi­da­de do António e a lou­cu­ra da Flor­be­la! São pes­so­as que vêm da pro­vín­cia e tor­nam-se no po­lo mais in­te­res­san­te da ci­da­de! São fi­gu­ras com mui­tas se­me­lhan­ças –e a ci­da­de dá-lhes fo­co. Na­da as dis­trai. Vêm com um pro­pó­si­to mui­to gran­de e nun­ca se des­vi­a­ram do seu ca­mi­nho.

© ESTELLE VALENTE

© BRUNO COLAÇO/CM

Variações do Mi­nho; Sér­gio de Ovar e Al­ves do Ó de Si­nes: um tri­ân­gu­lo ar­tís­ti­co pro­vin­ci­a­no que se­rá do do­mí­nio do aca­so?

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