Vi­nho tin­to a 20 graus? An­tes so­pa

Publico - Fugas - - VINHOS ELOGIO DO VINHO -

Ovi­nho em Por­tu­gal é mui­to fér­til em de­va­nei­os. Na ân­sia de que­rer ser di­fe­ren­te, “in­ven­tam-se” téc­ni­cas de vi­ni­fi­ca­ção, fa­zem­se bran­cos de tin­tos, vi­nhos la­ran­jas e azuis, vin­di­ma-se ao lu­ar, mer­gu­lham-se gar­ra­fas no rio e, de­lí­rio dos de­lí­ri­os, até se es­tra­gam vi­nhos (com brett, com oxi­da­ções ab­sur­das e com o mais que se pos­sa ima­gi­nar) pa­ra sur­pre­en­der.

A tri­bo do vi­nho tam­bém es­tá cheio de ven­de­do­res de ba­nha-da- co­bra e de nar­ci­sis­tas. De pro­du­to­res con­ven­ci­dos que fa­zem o me­lhor vi­nho do mun­do; de no­vos ri­cos que, mes­mo não sa­ben­do na­da de vi­nho, gas­tam for­tu­nas em ade­gas e vi­nhas; de enólogos que se com­por­tam co­mo cra­ques da bo­la; de som­me­li­ers que tam­bém se acham as no­vas es­tre­las do fir­ma­men­to; de jor­na­lis­tas e crí­ti­cos que se jul­gam os do­nos da ver­da­de.

Crí­ti­cos e jor­na­lis­tas. Não de­ve­mos le­var tão a pei­to tu­do o que se diz e es­cre­ve so­bre vi­nho, mui­tas ve­zes tam­bém pa­ra se ser di­fe­ren­te. Há al­gu­mas se­ma­nas, um ví­deo do Con­ti­nen­te so­bre os mi­tos do vi­nho, pro­ta­go­ni­za­do por Aní­bal Coutinho, crí­ti­co de vi­nhos, re­cém-dou­to­ra­do em eno­lo­gia e con­sul­tor da­que­la ca­deia de su­per­mer­ca­dos do gru­po So­nae, a que per­ten­ce o PÚ­BLI­CO, foi te­ma de mui­tos co­men­tá­ri­os nas re­des so­ci­ais. Nes­se ví­deo, Aní­bal Coutinho res­pon­de à per­gun­ta so­bre se o vi­nho tin­to de­ve ser aque­ci­do: “Qual­quer vi­nho tin­to de­ve ser be­bi­do apro­xi­ma­da­men­te a 20 graus cen­tí­gra­dos, pa­ra que o ál­co­ol es­te­ja bem mis­tu­ra­do com a água e os ou­tros com­pos­tos. Nor­mal­men­te, a tem­pe­ra­tu­ra am­bi­en­te é su­pe­ri­or a 20 graus cen­tí­gra­dos. Por is­so, re­co­men­do que to­dos os vi­nhos, in­cluin­do os tin­tos, se­jam re­fri­ge­ra­dos.”

Be­ber qual­quer vi­nho tin­to a 20 graus cen­tí­gra­dos? An­tes so­pa, di­ze­mos nós. Nu­ma pe­na­da, com es­ta sen­ten­ça, Aní­bal Coutinho dei­tou por ter­ra tu­do o que se an­dou a acon­se­lhar so­bre a tem­pe­ra­tu­ra ide­al dos vi­nhos tin­tos. O que pen­sa­rão os alu­nos das es­co­las de ho­te­la­ria que andam a es­tu­dar pa­ra es­can­ções?

Mas há uma ló­gi­ca por trás da sua afir­ma­ção. Uma tem­pe­ra­tu­ra bai­xa ofus­ca o aro­ma do vi­nho e re­al­ça a aci­dez e os ta­ni­nos; uma tem­pe­ra­tu­ra al­ta faz au­men­tar o odor e mi­ni­mi­za a aci­dez e os ta­ni­nos. O pro­ble­ma é que há vi­nhos e vi­nhos. Um tin­to jo­vem e ads­trin­gen­te po­de be­ne­fi­ci­ar se for be­bi­do um pou­co mais té­pi­do. Em con­tra­par­ti­da, um vi­nho en­cor­pa­do de uma re­gião quen­te po­de tor­nar-se in­su­por­tá­vel se for be­bi­do a 20 graus, por cau­sa da vo­la­ti­li­za­ção do ál­co­ol e da di­mi­nui­ção da sen­sa­ção de aci­dez. Por ou­tro la­do, um tin­to mui­to aro­má­ti­co, mas pou­co tâ­ni­co e áci­do, sa­be cer­ta­men­te me­lhor se for ser­vi­do um pou­co mais frio.

Em úl­ti­ma ins­tân­cia, ca­da um be­be o vi­nho à tem­pe­ra­tu­ra que lhe ape­te­cer. Mas, ca­ro lei­tor, se gos­ta mes­mo de tin­tos, nem pre­ci­sa de nos dar ou­vi­dos. Si­ga ape­nas os con­se­lhos da in­gle­sa Jan­cis Ro­bin­son, a mais in­flu­en­te e cre­dí­vel wine wri­ter da ac­tu­a­li­da­de. De acor­do com a sua sen­sa­ta re­co­men­da­ção, os tin­tos le­ves de­vem ser be­bi­dos en­tre os 10 e os 12 graus cen­tí­gra­dos; os tin­tos de cor­po mé­dio en­tre os 14 e os 17 graus; e os tin­tos mais en­cor­pa­dos e tâ­ni­cos en­tre os 15 e os 18 graus. Vai ver co­mo des­fru­ta­rá mais do vi­nho.

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