Ain­da de mo­chi­la às cos­tas no Vi­et­na­me

Publico - Fugas - - AS FUGAS DOS LEITORES -

A vi­a­gem de Ha­long Bay até Sa­pa são ho­ras em au­to­car­ros que fa­zem cur­vas aper­ta­das em pre­ci­pí­ci­os sem pro­tec­ção la­te­ral. Che­ga­mos às três da ma­nhã, mas aguar­da­mos no seu in­te­ri­or. Des­li­gam o ar con­di­ci­o­na­do. O ca­lor faz-se no­tar e eu en­cos­to o cor­po ao vi­dro da ja­ne­la pa­ra ar­re­fe­cer.

Os mi­nu­tos ar­ras­tam-se pe­lo re­ló­gio. Quan­do ama­nhe­ce, há mu­lhe­res em tra­jes tí­pi­cos do la­do de fo­ra. Saí­mos. So­mos três. Há cin­co que nos ro­dei­am e per­gun­tam-nos se qu­e­re­mos fi­car na ca­sa de­las. Di­zem, es­co­lhe­mos-vos atra­vés da ja­ne­la. Não te­mos hos­tel mar­ca­do, por is­so in­ter­ro­ga­mos o pre­ço e on­de fi­ca a ca­sa. Di­zem-nos, no meio dos ar­ro­zais e a mi­nha ca­sa é a mai­or da al­deia.

Acei­ta­mos. A Mao, que en­tre­tan­to se apre­sen­tou e que é a úni­ca que fa­la in­glês, li­ga pa­ra o ma­ri­do e ou­tros ho­mens, que nos le­vam de mo­ta até à al­deia. Quan­do che­ga­mos, a ca­sa, afi­nal, é po­bre. O só­tão, on­de va­mos dor­mir, tem qua­se tan­to es­pa­ço co­mo o res­to da ha­bi­ta­ção, mas en­quan­to nós te­mos um col­chão pa­ra ca­da um, exis­tem três pa­ra o res­to da fa­mí­lia que é o tri­plo de nós. Há uma lâm­pa­da na sa­la, on­de exis­te tam­bém um te­le­mó­vel que es­tá sem­pre a car­re­gar, e que é usa­do pe­los miú­dos pa­ra jo­ga­rem jo­gos à vez.

Na co­zi­nha, é o lu­me no chão com uma pa­ne­la em ci­ma que acla­ra a di­vi­são. Há elec­tri­ci­da­de às ve­zes. Há uma ca­sa de ba­nho lá fo­ra: tem uma por­ce­la­na acha­ta­da com um bu­ra­co e um tup­perwa­re que ser­ve de au­to­clis­mo, e que são três pa­re­des e uma quar­ta que é um plás­ti­co cor­ri­do co­brin­do a en­tra­da, mas que tem que es­tar afas­ta­do pa­ra se ver al­gu­ma coi­sa lá den­tro. Atrás, a vis­ta é bo­ni­ta: são mon­ta­nhas de ar­ro­zais.

Pou­sa­mos as mo­chi­las. Há uma me­ni­na e uma avó a co­zi­nha­rem­nos o pe­que­no-al­mo­ço. Acer­co-me da co­zi­nha e es­ten­dem-me uma pan­que­ca ti­ra­da da fri­gi­dei­ra. Sa­be de­li­ci­o­sa­men­te. En­ten­de­mo-nos por pa­la­vras em lín­guas di­fe­ren­tes e por ges­tos e ex­pres­sões que têm mui­tos sor­ri­sos e al­gu­ma ver­go­nha. Aca­bo por cha­mar Ma­ma à Ma­ma, por­que ela apon­ta al­ter­na­da­men­te pa­ra si e diz Ma­ma e pa­ra nós e diz Pe­pi. Mas­sa­ja a bar­ri­ga e le­va a mão à bo­ca nu­ma men­sa­gem pa­ra co­mer­mos o que qui­ser­mos. Diz ou­tras coi­sas com a bo­ca e com os bra­ços e ri-se, e nós, ri­mo-nos tam­bém. De­pois, há um ges­to que diz, vão dar uma vol­ta e re­gres­sem só pa­ra al­mo­çar. E as­sim fa­ze­mos.

A me­ni­na faz de guia de trek­king e mos­tra-nos qui­ló­me­tros de ar­ro­zais. Fa­lo com ela, mas pou­co nos en­ten­de­mos. Diz-me o no­me, Sao. Tem 15 anos, es­tá grá­vi­da de 7 me­ses e es­tá a apren­der in­glês com a Mao. An­tes de sair­mos, a Ma­ma ti­nha-nos ata­do à ca­be­ça os len­ços da­que­la ter­ra, e por ca­da ca­sa por on­de ago­ra pas­sa­mos as mu­lhe­res fi­cam a olhar-nos, e há até quem di­ga com as mãos que o meu é mui­to bo­ni­to.

As nu­vens es­tão bai­xas, mas nem as­sim a paisagem dei­xa de ser des­lum­bran­te. Avis­ta-se gen­te de cos­tas do­bra­das no meio dos ar­ro­zais. Às ve­zes, são cri­an­ças. Há ou­tros pe­que­nos pe­lo ca­mi­nho que sur­gem com pul­sei­ras na mão e que di­zem “buy for me”, “two for fi­ve”, “fi­ve for ten”. Eles têm aque­la len­ga­len­ga de­co­ra­da e es­ti­cam os bra­ços e a voz re­pe­te uma e ou­tra vez aque­las pa­la­vras. De­pois, há uma pon­te que pa­re­ce ins­tá­vel e uma cas­ca­ta mai­or que te­nho que in­cli­nar a ca­be­ça bem pa­ra trás pa­ra vê-la em con­di­ções. Ca­mi­nha­mos qui­ló­me­tros, mui­tos, an­tes de vol­tar­mos à ca­sa e a um al­mo­ço tar­dio.

De­pois, com a chu­va lá fo­ra, brin­ca­mos com os me­ni­nos nu­ma apa­nha­da em cír­cu­los ou às es­con­di­das em es­con­de­ri­jos pe­que­nos. Di­ze­mos os no­mes de­les e eles gri­tam um ri­so que nos faz rir. As ho­ras pas­sam e che­ga mais gen­te da fa­mí­lia que se sen­ta à es­pe­ra. De­pois, di­zem pa­ra jan­tar­mos. En­chem-nos de no­vo os pra­tos e eu no­to a di­nâ­mi­ca fa­mi­li­ar e as ti­ge­las que che­gam à bo­ca chei­as de ar­roz e que são de­vo­ra­das a uma ve­lo­ci­da­de in­des­cri­tí­vel. A Mao con­ver­sa con­nos­co e per­gun­ta-nos coi­sas. Vai tra­du­zin­do pa­ra a fa­mí­lia e às ve­zes sur­gem gar­ga­lha­das em co­ro que não en­ten­de­mos.

As ho­ras ar­ras­tam-se e há quem te­nha que ir a pé pa­ra ca­sa pe­las ru­as sem luz, por is­so, eles dão o dia por en­cer­ra­do. La­va­mos os den­tes na co­zi­nha num bar­ril que tem água que vem do cam­po, e di­ze­mos boa noi­te. Os miú­dos es­tão em­pi­lha­dos nas ca­mas e há al­guns já de olhos fe­cha­dos. Pas­so por eles e pen­so no pou­co que têm, mas nos ri­sos que são fá­ceis. Su­bo as es­ca­das. Dei­to-me. En­ta­lo a mos­qui­tei­ra. Faz-se si­lên­cio, e, en­quan­to há sons que exis­tem lá fo­ra, pen­so, es­tou aqui nu­ma al­deia no meio do na­da, dei­ta­da num col­chão no só­tão de uma fa­mí­lia que não co­nhe­ço, que é po­bre, mas que nos abriu os bra­ços nu­ma sim­pa­tia que ul­tra­pas­sa a bar­rei­ra da lín­gua.

Quan­do no dia se­guin­te se­gui­mos ca­mi­nho, a Ma­ma agar­ra­se nu­ma des­pe­di­da com bei­jos e pa­la­vras que não en­ten­do, mas tra­du­zem-mas e di­zem-me que se­rei sem­pre bem-vin­da a es­ta ca­sa. Que ela gos­ta mui­to de mim. Is­to fi­ca tão co­la­do na me­mó­ria que de­pois pou­co fi­xo as ru­as que Sa­pa em si tem pa­ra ofe­re­cer. É que a ex­pe­ri­ên­cia do dia an­te­ri­or e aque­la fa­mí­lia fi­ca­ram agar­ra­das ao cor­po nu­ma cer­te­za de que não é pre­ci­so mui­to pa­ra ser fe­liz, e de ain­da mui­to me­nos pa­ra se dar. Pa­trí­cia Ca­ei­ros @cris­ti­nams­reis “Já por aqui pas­sei inú­me­ras ve­zes, já vi e re­vi es­ta ca­sa em to­das as es­ta­ções do ano. No en­tan­to, nun­ca aqui ti­nha pa­ra­do. Um dia após o al­mo­ço saí­mos pa­ra uma ca­mi­nha­da pe­la al­deia, pal­mi­lhá­mos os tri­lhos e as ru­as de sem­pre, até che­gar­mos a ela. Tão sim­ples e tão be­la... Pen­sa­va que lhe co­nhe­cia ca­da tra­ço, mas não. Fo­to­gra­fei a ca­sa e trou­xe-a co­mi­go em pen­sa­men­to — às ve­zes olha­mos mui­to, mas ve­mos tão pou­co!”

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