O gran­de su­ces­so da pri­mei­ra Douro We­ek

Publico - Fugas - - ELOGIO DO VINHO VINHOS -

Na se­ma­na pas­sa­da, o Douro con­ver­teu-se no cen­tro do vi­nho em Por­tu­gal. Du­ran­te se­te di­as, a pri­mei­ra Douro We­ek le­vou até à re­gião mi­lha­res de vi­si­tan­tes e cer­ca de uma cen­te­na de im­por­ta­do­res e jor­na­lis­tas de todo o mun­do. “Um enor­me su­ces­so”, re­su­mia, eu­fó­ri­co, o pre­si­den­te do Ins­ti­tu­to dos Vi­nhos do Douro e Por­to (IVDP), Ma­nu­el Ca­bral.

Todas as gran­des re­giões vi­tí­co­las do mun­do or­ga­ni­zam anu­al­men­te even­tos de pro­mo­ção global. São fa­mo­sas as pro­vas en pri­meur de Bor­déus ou a se­ma­na de pro­vas em Cham­pa­nhe, por exem­plo. No ca­so do Douro, ape­sar da sua his­tó­ria se­cu­lar e da im­po­nên­cia da pai­sa­gem, clas­si­fi­ca­da co­mo Património Mun­di­al, não exis­tia na­da se­me­lhan­te. Umas pe­que­nas fei­ras con­ce­lhi­as e o Por­to Wi­ne Day, que o IVDP or­ga­ni­za em Gaia, a 100 qui­ló­me­tros da re­gião de onde sa­em os vi­nhos, era tudo o que ha­via.

Des­ta vez foi di­fe­ren­te. Da Régua a Vila No­va de Foz Côa, quin­tas re­no­ma­das e pro­du­to­res me­nos co­nhe­ci­dos es­ti­ve­ram de por­tas aber­tas para mos­trar e ven­der os seus vi­nhos. As gran­des ca­sas de vi­nho do Por­to, ci­en­tes de que o fu­tu­ro do sec­tor pas­sa pelo in­cre­men­to das ca­te­go­ri­as es­pe­ci­ais e não pelo vi­nho ba­ra­to, não pou­pa­ram a gastos para re­ce­ber os seus clientes num am­bi­en­te de lu­xo e so­fis­ti­ca­ção. A Tay­lor’s, por exem­plo, re­a­li­zou na Quin­ta da Roê­da, jun­to ao Pi­nhão, uma mo­nu­men­tal pro­va dos seus me­lho­res vin­ta­ge dos úl­ti­mos dois sé­cu­los para 40 con­vi­da­dos de todo o mun­do, muitos de­les CEO de gran­des em­pre­sas. Al­guns dos con­vi­da­dos vi­e­ram em avião pri­va­do. Na vi­zi­nha Quin­ta do Bonfim, a fa­mí­lia Sy­ming­ton con­se­guiu reu­nir 20 das per­so­na­li­da­des asiá­ti­cas mais in­flu­en­tes na área do vi­nho para uma pro­va de cin­co Tawny ve­lhís­si­mos (o mais no­vo é de 1920 e o mais an­ti­go de 1882). Es­tes cin­co vi­nhos vão ser co­mer­ci­a­li­za­dos num úni­co e ex­clu­si­vo es­to­jo ao preço de 40 mil euros cada. Um pou­co mais acima, na Quin­ta do No­val, dez dos me­lho­res so­mel­li­ers fran­ce­ses pu­de­ram pro­var to­dos os Por­to Vin­ta­ge Na­ci­o­nal, in­cluin­do o len­dá­rio 1963 (cus­ta mais de cin­co mil euros). Nou­tro re­gis­to, a So­gra­pe le­vou cer­ca de três de­ze­nas de con­vi­da­dos, na­ci­o­nais e es­tran­gei­ros, num passeio de bar­co pelo Douro. A vi­a­gem ter­mi­nou com uma pro­va ver­ti­cal de Bar­ca Ve­lha, na Quin­ta da Le­da (Al­men­dra, Vila No­va de Foz Côa), onde é fei­to o mais fa­mo­so vi­nho tin­to por­tu­guês.

A Douro We­ek es­ti­mu­lou tam­bém o apa­re­ci­men­to de no­vos gru­pos in­for­mais, que apro­vei­ta­ram o even­to para se pro­mo­ver em con­jun­to. Em Vila No­va de Foz Côa, por exem­plo, os “Pro­du­to­res da Úl­ti­ma Fron­tei­ra” (Du­o­rum, Quin­ta da Le­da, Pa­la­to, Mon­te Xisto, Du­as Quin­tas, Gran­des Quin­tas, Quin­ta da Tou­ri­ga Chã, entre ou­tros) fi­ze­ram do be­lís­si­mo Museu do Côa a sua sa­la de pro­vas. Em Fa­vai­os, a “Tra­di­ção Mos­ca­tel”, que agru­pa um con­jun­to de pro­du­to­res de vi­nhos do­ces e se­cos da­que­la cas­ta, as­so­ci­a­ram-se às pa­da­ri­as lo­cais para, entre umas fa­ti­as do fa­mo­so bo­lo de car­ne, da­rem a pro­var as su­as me­lho­res co­lhei­tas. E, na Régua, a “Ge­ra­ção Fresh”, for­ma­da por di­ver­sos pro­du­to­res do Bai­xo-Cor­go, ins­ta­lou-se na es­ta­ção da CP, para mos­trar o enor­me po­ten­ci­al dos vi­nhos des­ta sub-re­gião, a me­nos ári­da do Douro.

Era tão bom, não era?

Oque é que um ho­mem do vi­nho Ma­dei­ra be­be? No meu ca­so, be­be mais vi­nhos tin­tos do que vi­nho Ma­dei­ra. Douro, Dão, mas o Douro é a mi­nha praia. E vi­nho do Por­to tam­bém be­be? Sim, cla­ro. Quan­do an­da­va na fa­cul­da­de, em Lis­boa, co­me­çá­va­mos qua­se sem­pre as noites de sábado com uma vi­si­ti­nha ao so­lar do vi­nho do Por­to. En­quan­to es­tu­dan­te, be­bi mais Por­to do que Ma­dei­ra. No Na­tal tem só Ma­dei­ra ou be­be tam­bém ou­tros for­ti­fi­ca­dos? No al­mo­ço de Na­tal le­vo sem­pre uma gar­ra­fa de vi­nho Ma­dei­ra e ou­tra de vi­nho do Por­to. No ano pas­sa­do le­vei o Bar­bei­to Mãe Manuela e um Quin­ta do Pas­sa­dou­ro Por­to Vin­ta­ge 1997, que es­ta­va es­pec­ta­cu­lar. Foi uma das gar­ra­fas que re­cu­pe­rei dos tem­po­rais de 2010 [que des­truí­ram a gar­ra­fei­ra da fa­mí­lia, a Di­o­gos, no cen­tro do Fun­chal] Faz sen­ti­do di­zer “gosto mais de Ma­dei­ra “ou “gosto mais de Por­to”? Não acho pi­a­da ne­nhu­ma. São vi­nhos com­ple­ta­men­te di­fe­ren­tes e cada um tem a sua oca­sião. Qu­em gos­ta de li­co­ro­sos, apre­cia tão bem um co­mo o ou­tro. Sem­pre ti­ve es­sa aber­tu­ra. Em cer­tas oca­siões, sei que o vi­nho do Por­to vai ser me­lhor do que um Ma­dei­ra. E vi­ce-ver­sa. Qual foi o vi­nho Ma­dei­ra mais ve­lho que já be­beu? Foi um Ter­ran­tez de 1795, um vi­nho que a mi­nha mãe ti­nha. E foi o me­lhor? Não. O me­lhor que já be­bi, se fa­lar­mos por cas­tas, foi um Ter­ran­tez Ac­ci­a­oly 1802 [cada gar­ra­fa, se ainda exis­ti­rem, cus­ta mais de cin- co mil euros]; de­pois um Mal­va­sia Quin­ta do Ser­ra­do 1830, sim­ples­men­te fa­bu­lo­so. De Bo­al, foi um ou­tro Ac­ci­a­oly, de 1837; de Ver­de­lho, não me lem­bro de ne­nhu­ma que me te­nha en­chi­do as me­di­das; e de Ser­ci­al foi um 1870, dos Vas­con­ce­los, que era ma­ra­vi­lho­so. Qual o es­ti­lo Ma­dei­ra que mais gos­ta? Ini­ci­al­men­te, era o Bo­al. Mas a ca­be­ça muda e a for­ma de fa­zer o vi­nho tam­bém. Ho­je, é a cas­ta me­nos in­te­res­san­te para mim. As que mais gos­tam são a Ser­ci­al e a Ver­de­lho. A Ver­de­lho dá vi­nhos es­pec­ta­cu­la­res. E a Ter­ran­tez? Há pou­co. To­da a gen­te do vi­nho Ma­dei­ra es­tá tão con­cen­tra­da na Ter­ran­tez que, em 2007, re­sol­vi co­me­çar tra­ba­lhar a Bas­tar­do, uma cas­ta que es­ta­va com­ple­ta­men­te ex­tin­ta na Ma­dei­ra. Co­me­cei a tra­ba­lhá-la com um vi­ti­cul­tor, o ac­tu­al pre­si­den­te da Câ­ma­ra de San­ta­na. Qua­se não te­nho Ter­ran­tez, mas já te­nho 15 mil li­tros de Bas­tar­do e em bre­ve es­pe­ro mos­trar al­gum. Acho que vai ser um vi­nho fo­ra da cai­xa. Te­nho uns 300 e tal li­tros de Bas­tar­do ve­lhos e pos­so fa­zer uns lo­tes in­te­res­san­tes.

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