Os se­gre­dos mal guar­da­dos do Dão

Publico - Fugas - - ESPECIAL -

Ore­nas­ci­men­to do Dão es­tá em cur­so há uns 20 anos, mas en­tre os que avan­çam a gran­de ve­lo­ci­da­de e os que se ar­ris­cam a fi­car pe­lo ca­mi­nho há um enor­me ca­tá­lo­go de opor­tu­ni­da­des pa­ra quem gos­ta de vi­nhos fiéis à na­tu­re­za da re­gião, de boa qua­li­da­de e de pre­ços al­ta­men­te re­co­men­dá­veis. En­tre as gran­des em­pre­sas com mar­cas que pro­du­zem mi­lhões de gar­ra­fas e se en­con­tram na ge­ne­ra­li­da­de das pra­te­lei­ras dos su­per­mer­ca­dos dos prin­ci­pais des­ti­nos de ex­por­ta­ção e os pe­que­nos cri­a­do­res de bou­ti­que que só se en­con­tram nas gar­ra­fei­ras mais so­fis­ti­ca­das, há fa­mí­li­as de pro­du­to­res que con­ti­nu­am a re­sis­tir às pres­sões dos mer­ca­dos e há ade­gas co­o­pe­ra­ti­vas que va­le a pe­na re­des­co­brir.

Nu­ma pe­que­na vi­a­gem pe­la re­gião, fo­mos à pro­cu­ra des­ses se­gre­dos mal co­nhe­ci­dos e en­con­trá­mos a Quin­ta do Per­di­gão, a Co­o­pe­ra­ti­va de Sil­guei­ros, a Ade­ga da Cor­ga e a Co­o­pe­ra­ti­va de Man­gual­de. Num ma­pa pul­ve­ri­za­do por pe­que­nos pro­du­to­res é sem dú­vi­da pos­sí­vel en­con­trar mui­tas ou­tras pro­pos­tas de gran­de ní­vel, mas es­tes qua­tro exem­plos são su­fi­ci­en­tes pa­ra ga­ran­tir a te­se: o Dão é ho­je em dia a re­gião do país on­de é pos­sí­vel en­con­trar com mais fa­ci­li­da­de uma re­la­ção en­tre a qua­li­da­de dos vi­nhos e os seus pre­ços mais fa­vo­rá­vel. E só por des­co­nhe­ci­men­to, por pre­con­cei­to e por fal­ta de um tra­ba­lho de mar­ke­ting que ele­ve a ima­gem glo­bal do Dão é que não há mais pro­cu­ra pa­ra os seus vi­nhos me­nos co­nhe­ci­dos. Nin­guém tem cul­pa – há ape­nas que apro­vei­tar as opor­tu­ni­da­des.

No Dão, não fal­ta bi­o­di­ver­si­da­de de pro­du­to­res. Mui­tos são de lá ori­gi­ná­ri­os e pro­jec­ta­ram-se à es­ca­la in­ter­na­ci­o­nal, co­mo Nu­no Can­ce­la de Abreu. Ou­tros fi­ze­ram-se atra­vés da pro­cu­ra das di­fe­ren­ças que o ter­roir úni­co da re­gião pro­pi­cia, co­mo Ál­va­ro de Cas­tro. Em ca­sos co­mo o dos Ca­mi­nhos Cru­za­dos, hou­ve em­pre­sá­ri­os de su­ces­so ori­gi­ná­ri­os do Dão que ga­nha­ram di­nhei­ro em ou­tros ne­gó­ci­os e de­ci­di­ram rein­ves­tir uma par­te no vi­nho. Há ain­da es­tran­gei­ros co­mo a bra­si­lei­ra Ju­li­a­na Kel­man ou o suí­ço Pe­ter Ec­kert, da Quin­ta das Ma­ri­as. De­pois, há uma ou­tra ca­te­go­ria de in­ves­ti­men­tos fa­mi­li­a­res que, sem dis­po­rem do mes­mo bri­lho me­diá­ti­co, fa­zem par­te des­sa va­ga de fun­do que tor­na o Dão uma re­gião em cres­ci­men­to.

Ve­ja-se o ca­so da Quin­ta do Per­di­gão. Uma pe­que­na pro­pri­e­da­de de oi­to hec­ta­res de vi­nha num va­le su­a­ve no pla­nal­to de Sil­guei­ros, uma das mais con­sa­gra­das sub-re­giões do Dão, é a ba­se da cri­a­ção de um En­cru­za­do de gran­de clas­se e de vi­nhos tin­tos que ao con­ser­va­rem um cer­to per­fil mais tra­di­ci­o­nal os tor­nam mui­to ape­te­cí­veis pa­ra quem pro­cu­ra al­ter­na­ti­vas à ame­ni­da­de do­mi­nan­te. A pro­pri­e­da­de foi ad­qui­ri­da no fi­nal dos anos 90 do sé­cu­lo pas­sa­do por Jo­sé Per­di­gão e é ho­je con­du­zi­da pe­la sua fi­lha, Ma­fal­da, que se li­cen­ci­ou em eno­lo­gia na Uni­ver­si­da­de de Trá­sos-Mon­tes, e por Va­nes­sa Chrys­tie, mais vo­ca­ci­o­na­da pa­ra a área do mar­ke­ting.

Os vi­nhos da Quin­ta do Per­di­gão en­tra­ram já no ra­dar da im­pren­sa na­ci­o­nal e in­ter­na­ci­o­nal, mas o seu per­fil e a sua re­la­ção cus­to/qua­li­da­de es­tá ain­da num pa­ta­mar mui­to ten­ta­dor. Da­li, pa­ra lá de um En­cru­za­do de gran­de clas­se que cus­ta no­ve eu­ros e é pro­du­zi­do nu­ma vi­nha alu­ga­da em Car­re­gal do Sal (a quin­ta aca­ba de plan­tar um hec­ta­re com es­ta cas­ta), sai ain­da um Re­ser­va e um le­que de vi­nhos mo­no­va­ri­e­tais fei­tos com Ja­en, Al­fro­chei­ro e, ob­vi­a­men­te, Tou­ri­ga Na­ci­o­nal dis­tin­tos e ori­gi­nais. O que dis­tin­gue a casa é a per­sis­tên­cia em co­lo­car os seus vi­nhos no mer­ca­do após anos de ma­tu­ra­ção na gar­ra­fa. Por exem­plo, o Re­ser­va que es­tá ago­ra á ven­da é da vin­di­ma de 2006 e, ape­sar da sua já mui­to ra­zoá­vel ida­de, cus­ta 19 eu­ros; o Al­fro­chei­ro é de 2011; o Ja­en de 2010; e o Tou­ri­ga Na­ci­o­nal de 2009.

Pa­ra os con­su­mi­do­res ca­da vez mais su­jei­tos a uma cer­ta ti­ra­nia da fru­ta jo­vem, os vi­nhos dos Per­di­gão são co­mo bál­sa­mos. A sua gar­ra tâ­ni­ca per­sis­te após mui­tos anos, mas a gar­ra­fa con­ce­de-lhes o po­li­men­to pa­ra que se be­bam com gran­de pra­zer. Ma­fal­da, uma jo­vem que dá os seus pri­mei­ros pas­sos na sua car­rei­ra, não tem dú­vi­das so­bre a bon­da­de da he­ran­ça pa­ter­na: “Fui cri­a­da com es­te per­fil de vi­nhos e é o per­fil que eu gos­to”, ex­pli­ca. De res­to, é o

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