“Te­nho um de­fei­to hor­rí­vel: te­nho de ter ter­ra”

Publico - Fugas - - ESPECIAL -

Enó­lo­go con­sa­gra­do, em­pre­sá­rio que eri­giu um gru­po que fac­tu­ra 20 mi­lhões de eu­ros no Alen­te­jo, Dou­ro e nos Vi­nhos Ver­des, João Por­tu­gal Ramos é um dos prin­ci­pais íco­nes do vi­nho por­tu­guês con­tem­po­râ­neo. Num ano de da­tas re­don­das da sua vi­da pro­fis­si­o­nal, deu-nos con­ta das su­as vi­sões e das que per­ma­ne­cem in­có­lu­mes. “O Alen­te­jo é a re­gião mais con­sis­ten­te do país”, ga­ran­te. Há 25 anos fez a sua pri­mei­ra vin­di­ma em Es­tre­moz. Se pro­vas­se ho­je es­se vi­nho, de­pois de tu­do o que mu­dou no país e no Alen­te­jo re­via-se ne­le?

É um vi­nho mar­ca­do pe­la ta­lha, um vi­nho de pri­mei­ro ano, um vi­nho en­gra­ça­do. Ho­je acho que te­nho me­lhor. Tu­do evo­lui, tu­do me­lho­ra. Mas es­se vi­nho ain­da es­tá mui­to be­bí­vel. Vis­to es­te tem­po em pers­pec­ti­va, deu os pas­sos co­mo enó­lo­go que de­via ter da­do?

Eu acho que dei os pas­sos que as con­di­ções re­que­ri­am. Dei os pas­sos pos­sí­veis com as con­di­ções exis­ten­tes. Os pas­sos ao prin­cí­pio eram ób­vi­os. Es­ta­va tu­do por fa­zer. Era tu­do cla­ro co­mo água. Ho­je em dia es­ta­mos nou­tro ní­vel, com mais co­nhe­ci­men­to, com mais op­ções. Qu­an­do che­guei ao Alen­te­jo, em 1981, fui a pri­mei­ra pes­soa a com­prar um sis­te­ma de frio. Não ha­via frio no Alen­te­jo. Eram os tais pas­sos ób­vi­os: a di­mi­nui­ção de sul­fu­ro­so, cor­ri­gir os so­los pa­ra evi­tar tan­to áci­do tar­tá­ri­co… Ques­tões que do­mi­na­va pe­la sua for­ma­ção téc­ni­ca, mas que na re­gião eram des­co­nhe­ci­dos.

Pois, ou me­nos bem apli­ca­dos. O frio sem dú­vi­da, era des­co­nhe­ci­do, daí as do­ses de sul­fu­ro­so al­tís­si­mas. Ti­ve a sor­te de tra­ba­lhar mui­tos anos com a pes­soa mais im­por­tan­te na vi­ti­vi­ni­cul­tu­ra mo­der­na do Alen­te­jo, o en­ge­nhei­ro Pau­lo Lou­ren­ço. Ain­da te­nho as se­ben­tas de­le e é mui­to en­gra­ça­do ver o que di­zem. Por exem­plo, co­mo ele não ti­nha tem­po, an­da­va de mota de ade­ga em ade­ga, fa­zia tu­do aqui­lo por ta­be­las. Pri­mei­ra se­ma­na de vin­di­ma: do­se de sul­fu­ro­so, tan­to; do­se de áci­do tar­tá­ri­co, tan­to… Se ha­via vin­di­mas mais chu­vo­sas, a úni­ca for­ma de se de­fen­der era com sul­fu­ro­so ao má­xi­mo. É mui­to gi­ro ver a vi­são e os ape­tre­chos téc­ni­cos que ha­via nes­sa al­tu­ra e ver o que acon­te­ceu dos anos 60 até ago­ra. Nes­se tem­po a qua­li­da­de não era um fac­tor crí­ti­co?

Sa­be o que era a qua­li­da­de no Alen­te­jo? A qua­li­da­de es­ta­va no ex­tra­or­di­ná­rio po­ten­ci­al da re­gião es­pe­lha­do por uma sé­rie de vi­nhas ve­lhas que nas­ce­ram, não com o es­pí­ri­to de ne­gó­cio, en­tre as­pas, mas pa­ra pro­du­zir vi­nho pa­ra casa. As cas­tas, o ter­re­no, a ida­de das vi­nhas, as pro­du­ções, era tu­do bai­xo. O Alen­te­jo vi­veu até à dé­ca­da de 80 com pro­du­ções de 25 a 30 hl por hec­ta­re. É ao ní­vel dos gran­des cha­têaux da Bor­go­nha. Por­tan­to, o vi­nho era sem­pre bom, des­de que a fer­men­ta­ção fos­se até ao fim. De­pois, o Alen­te­jo pas­sa por um bo­om em que há uma gran­de pres­são e ur­gên­cia de plan­tar, e aí a mal­ta re­cor­ria a qual­quer ma­te­ri­al ve­ge­ta­ti­vo. De­pois qu­an­do es­sa pro­du­ção che­ga ao mer­ca­do, aí por me­a­dos dos anos 90, a qua­li­da­de cai um bo­ca­di­nho. Mas ho­je em dia is­so es­tá com­ple­ta­men­te ul­tra­pas­sa­do. Is­so re­ti­rou ca­rác­ter ao es­ti­lo dos vi­nhos que co­me­çou a pro­var nos anos 80?

Re­pa­re: há sem­pre um ba­lan­ço que tem um la­do ne­ga­ti­vo e um la­do po­si­ti­vo. Es­se é o la­do me­nos po­si­ti­vo. Mas o la­do po­si­ti­vo é mais co­nhe­ci­men­to, ade­gas me­lhor ape­tre­cha­das, clo­nes me­lhor es­co­lhi­dos, cas­tas me­lho­ra­do­ras. Tu­do is­so veio dar uma mo­der­ni­da­de ao Alen­te­jo. Po­de-se di­zer que afec­tou li­gei­ra­men­te a ti­pi­ci­da­de dos vi­nhos dos anos

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