Os­to de man­gas

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ba­ten­tes da Gui­né, à qual o meu pai tam­bém per­ten­ceu. An­tó­nio Sil­va, “ami­go do pei­to do Mar­ques da Cos­ta”, de quem tem “mui­tas sau­da­des”, emo­ci­o­na-se com o meu pe­di­do e pro­me­te aju­dar. Na se­de dos Ron­cos, con­sul­ta a fi­cha de só­cio do meu pai e atra­vés de­la per­ce­be­mos que es­te­ve em Bis­sau por “ren­di­ção in­di­vi­du­al” — ou se­ja, não in­te­gra­do num ba­ta­lhão.

É mais uma pis­ta. Pas­so qua­se to­das as noi­tes em fren­te ao com­pu­ta­dor, con­sul­to blo­gues de ex­com­ba­ten­tes, com­pa­ro as fo­to­gra­fi­as que aqui te­nho com ou­tras que apa­nho na In­ter­net. Eu des­te lado, o Luís às ve­zes em Lis­boa a se­guir ou­tras pon­tas sol­tas des­ta his­tó­ria. Por es­ta al­tu­ra, já sa­be­mos que o meu pai es­te­ve num de dois sí­ti­os: ou no Qu­ar­tel Ge­ne­ral ins­ta­la­do na For­ta­le­za de São Jo­sé da Amu­ra ou no Qu­ar­tel de San­ta Lu­zia.

Até que o te­le­fo­ne to­ca e traz no­vi­da­des. É Má­rio Cos­ta. “O qu­ar­tel do teu pai era mes­mo em fren­te ao qu­ar­tel do 600 [do Ba­ta­lhão 600], es­ta­vam só se­pa­ra­dos por uma estrada. Ha­via ou­tro qu­ar­tel em Bis­sau com uns ca­nhões vi­ra­dos pa­ra o mar [a For­ta­le­za da Amu­ra], não era es­se.” Is­so le­va-nos, en­tão, ao Qu­ar­tel de San­ta Lu­zia — on­de é hoje o Ho­tel 24 de Se­tem­bro. É se­gun­da-fei­ra, 15 de Maio — o Pa­pa já es­te­ve em Por­tu­gal, Salvador já ga­nhou a Eu­ro­vi­são — e eu par­to da­qui a três di­as.

Já se­pa­rei as fo­to­gra­fi­as que que­ro le­var co­mi­go, le­vo tam­bém a ca­der­ne­ta mi­li­tar, que li ve­zes sem con­ta. Já sei que o meu pai em­bar­cou pa­ra Bis­sau a 20 de Abril de 1966, ten­do lá che­ga­do a 25. Era es­sa a da­ta que ti­nha ta­tu­a­da no bra­ço es­quer­do: Gui­né, 25-4-1966, e por ci­ma o de­se­nho de um car­ro e de um par de fer­ra­men­tas en­tre­la­ça­das. Es­cre­vo is­to de cor, cres­ci com aque­la ta­tu­a­gem azu­la­da a in­char-lhe no bra­ço con­so­an­te en­gor­da­va. Con­fir­mo, ain­da as­sim, na ima­gem de fun­do de ecrã do meu te­le­mó­vel, on­de o ve­jo a rir-se, de tron­co nu, com cha­péu de pa­lha na ca­be­ça e um bi­go­de

pai­xo­nou por aque­le país de ter­ra ver­me­lha. Tem sol e mui­to ca­lor, fru­tas e lá­gri­mas, co­lo.

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