IVV es­ti­ma pro­du­ção igual à de 2017 no Dou­ro. E o gra­ni­zo e o míl­dio, se­nho­res?

Publico - Fugas - - VINHOS - Pedro Gar­ci­as

1. To­dos os anos, há dois mo­men­tos cir­cen­ses no ci­clo da vi­nha e do vi­nho no Dou­ro: um acon­te­ce na Pri­ma­ve­ra, quan­do a Ad­vid - As­so­ci­a­ção pa­ra o De­sen­vol­vi­men­to da Vi­ti­cul­tu­ra Du­ri­en­se anun­cia as su­as pre­vi­sões de pro­du­ção.

São sem­pre es­tra­tos­fé­ri­cas e os jor­nais re­pro­du­zem-nas em gran­des pa­ran­go­nas. To­da a gen­te es­fre­ga as mãos de con­ten­te.

Es­te ano é que vai ser! Al­guns me­ses de­pois, a re­a­li­da­de co­lo­ca tu­do no seu de­vi­do lu­gar e vem o mea cul­pa: “Afi­nal, a pro­du­ção vai ser in­fe­ri­or, o nos­so mé­to­do ba­seia-se na quan­ti­da­de de pó­len exis­ten­te na al­tu­ra da flo­ra­ção e não con­tá­va­mos com a ge­a­da, o gra­ni­zo, o míl­dio, o oí­dio…”. Re­su­min­do: pa­ra que ser­vem tais pre­vi­sões? Não fa­zia sen­ti­do in­tro­du­zir ou­tras va­riá­veis?

O segundo mo­men­to có­mi­co sur­ge no fi­nal do ano, quan­do o Ins­ti­tu­to dos Vi­nhos do Dou­ro e do Porto (IVDP) pu­bli­ca a pro­du­ção de­cla­ra­da pe­los vi­ti­cul­to­res da re­gião. Po­de não atin­gir as pre­vi­sões da Ad­vid, mas tam­bém nun­ca re­flec­te as per­das ocor­ri­das. Há sem­pre mais vi­nho de­cla­ra­do do que aque­le que saiu re­al­men­te das uvas co­lhi­das. Co­mo é pos­sí­vel? Pois, é ca­so pa­ra se in­ves­ti­gar, por­que es­ta dis­pa­ri­da­de só po­de ter uma ex­pli­ca­ção: hou­ve gen­te que apro­vei­tou o quan­ti­ta­ti­vo má­xi­mo de pro­du­ção au­to­ri­za­do por hec­ta­re (que é su­pe­ri­or à pro­du­ção mé­dia da re­gião) pa­ra le­ga­li­zar vi­nhos não de­cla­ra­dos, re­for­çar con­tas­cor­ren­tes e até fa­zer en­trar no cir­cui­to dos DOC Dou­ro vi­nhos com­pra­dos nou­tras re­giões e fo­ra do país. Quem per­de com is­to? A re­gião to­da, que con­ti­nua pre­sa aos pre­ços bai­xos. Nem em anos ob­jec­ti­va­men­te maus os pre­ços dos vi­nhos, e, so­bre­tu­do, das uvas, so­bem pa­ra va­lo­res acei­tá­veis (va­lo­res que paguem, no mí­ni­mo, os cus­tos de pro­du­ção).

Se a lei do mer­ca­do fun­ci­o­nas­se, es­te ano as uvas do Dou­ro de­ve­ri­am ser bem pa­gas, por­que há uma ele­va­da que­bra de pro­du­ção, de­vi­do so­bre­tu­do ao gra­ni­zo e ao míl­dio. Quem vi­ve e pro­duz na re­gião sa­be que as per­das são gran­des. Mas é pou­co pro­vá­vel que a lei do mer­ca­do fun­ci­o­ne. No Dou­ro, a lei do mer­ca­do só fun­ci­o­na pa­ra al­guns — pa­ra o gros­so dos vi­ti­cul­to­res vi­go­ra a lei do “re­ce­bes o que eu qui­ser pa­gar”. Na mai­o­ria dos ca­sos, os pre­ços são de­ci­di­dos ape­nas pe­lo com­pra­dor e ape­nas após a vin­di­ma. Já ima­gi­na­ram o que se­ria en­trar nu­ma lo­ja de uma gran­de em­pre­sa de vi­nhos, pe­gar em vá­ri­as gar­ra­fas de Porto Vin­ta­ge ou de DOC Dou­ro e di­zer ao fun­ci­o­ná­rio “Vou le­var o vi­nho e de­pois de o be­ber ve­nho cá pa­gar-lhe aqui­lo que eu acho que o vi­nho va­le”? É exac­ta­men­te is­to que faz a mai­o­ria dos com­pra­do­res de uvas no Dou­ro. Tra­ta-se de um sis­te­ma meio me­di­e­val cu­ja raiz es­tá nas gran­des de­si­gual­da­des so­ci­ais que ain­da sub­sis­tem no Dou­ro, no tra­di­ci­o­nal ser­vi­lis­mo dos mais hu­mil­des pe­ran­te os mais po­de­ro­sos e no ir­res­pon­sá­vel con­for­mis­mo do IVDP e dos re­pre­sen­tan­tes do co­mér­cio e dos vi­ti­cul­to­res.

Quem faz pre­vi­sões de co­lhei­ta não tem cul­pa ne­nhum, mas as pre­vi­sões exa­ge­ra­das tam­bém não aju­dam na­da — só be­ne­fi­ci­am os com­pra­do­res. Ora, co­mo se já não bas­tas­sem as pre­vi­sões da Ad­vid e a fal­ta de con­tro­lo so­bre a pro­du­ção do IVDP, es­ta se­ma­na o Ins­ti­tu­to da Vi­nha e do Vi­nho (IVV) veio dar mais uma aju­di­nha, ao anun­ci­ar uma de­li­ran­te pre­vi­são de ze­ro per­das pa­ra o Dou­ro. Ze­ro per­das? Não é ne­nhu­ma pi­a­da? É mes­mo pa­ra le­var a sé­rio? Que­rem ver que os vi­ti­cul­to­res ain­da vão ter que ven­der as uvas mais ba­ra­tas!...

2. Co­me­ça a ser di­fí­cil es­cre­ver so­bre os vi­nhos e as vi­nhas dos Aço­res, mes­mo com tan­tos elo­gi­os. De­pois da sa­ga do Pi­co (“Os vi­nhos do Pi­co e os pe­ri­gos do gli­fo­sa­to”), es­ti­mu­la­da pe­la ma­ni­pu­la­ção e o in­te­res­se de ape­nas uns quan­tos, hou­ve quem des­co­bris­se mais er­ros e mal­da­de no ino­cen­te tex­to da se­ma­na pas­sa­da so­bre as vi­nhas de San­ta Ma­ria. Her­nâ­ni H.Jor­ge, com e-mail do Go­ver­no dos Aço­res, es­cre­veu-me is­to: “Nas úl­ti­mas se­ma­nas, tem an­da­do a es­cre­ver so­bre as vi­nhas dos Aço­res e, la­men­ta­vel­men­te, tem

No Dou­ro, a lei do mer­ca­do só fun­ci­o­na pa­ra al­guns — pa­ra o gros­so dos vi­ti­cul­to­res vi­go­ra a lei do “re­ce­bes o que eu qui­ser pa­gar”

acer­ta­do pou­co. Se­rá que cus­ta mui­to con­fe­rir a in­for­ma­ção an­tes de es­cre­ver, pa­ra não de­tur­par a re­a­li­da­de e en­ga­nar os lei­to­res? Es­te tex­to so­bre as vi­nhas de San­ta Ma­ria é mais um exem­plo dis­so. Os apoi­os pú­bli­cos à re­a­bi­li­ta­ção e à ma­nu­ten­ção das pai­sa­gens de vi­nha são exac­ta­men­te os mes­mos pa­ra to­das as ilhas dos Aço­res.”

Des­ta vez, o meu “pe­ca­do” foi ter es­cri­to es­ta fra­se: “Co­mo não há apoi­os pa­ra es­tes vi­nhos (de cas­tas ame­ri­ca­nas, só há pa­ra cas­tas eu­ro­pei­as) e fal­ta mão­de-obra, a vi­nha tem vin­do a ser aban­do­na­da.” Es­cre­vi, co­mo me­ra cons­ta­ta­ção, uma ver­da­de cris­ta­li­na: não há apoi­os pa­ra vi­nhos de cas­tas ame­ri­ca­nas.

Nem po­dia ha­ver, por­que a co­mer­ci­a­li­za­ção de vi­nhos de cas­tas ame­ri­ca­nas ain­da é proibida na União Eu­ro­peia. Só há apoi­os pa­ra a plan­ta­ção de vi­nha com cas­tas eu­ro­pei­as. No Pi­co, es­tes apoi­os ron­dam os 29 mil eu­ros o hec­ta­re — daí te­rem sur­gi­do tan­tos pro­jec­tos de re­es­tru­tu­ra­ção nos úl­ti­mos anos. O que exis­te em San­ta Ma­ria e em to­das as ilhas são apoi­os pa­ra a ma­nu­ten­ção dos cur­rais de pe­dra, guar­dem eles vi­dei­ras, fi­guei­ras ou ou­tras ár­vo­res de fru­to. Coi­sa to­tal­men­te di­fe­ren­te e com va­lo­res mui­to mais bai­xos.

Em San­ta Ma­ria o gros­so da vi­nha ain­da exis­ten­te es­tá plan­ta­da com cas­tas ame­ri­ca­nas, cu­jo vi­nho (o po­pu­lar mo­ran­guei­ro) se des­ti­na ao au­to­con­su­mo. Co­mo es­te vi­nho não ge­ra qual­quer ren­di­men­to, e co­mo há ca­da vez me­nos gen­te pa­ra tra­ba­lhar nas vi­nhas, a mai­or par­te dos cur­rais de vi­nha já foi co­mi­da pe­la ve­ge­ta­ção. Her­nâ­ni H. Jor­ge e o Go­ver­no pa­ra quem tra­ba­lha de­vi­am in­ter­ro­gar-se por que ra­zão ain­da não foi apre­sen­ta­da em San­ta Ma­ria ne­nhu­ma can­di­da­tu­ra ao pro­gra­ma de apoio à ma­nu­ten­ção dos so­cal­cos. E por que ra­zão não há nin­guém a in­ves­tir na vi­nha, co­mo no Pi­co, e a subs­ti­tuir as cas­tas ame­ri­ca­nas pe­las cas­tas eu­ro­pei­as. De­vi­am in­ter­ro­gar-se e, já ago­ra, fa­zer al­gu­ma coi­sa, pa­ra ten­ta­rem sal­var, en­quan­to é tem­po, es­ta ex­tra­or­di­ná­ria paisagem vi­nha­tei­ra, sob pe­na de se­rem de al­gum mo­do co­ni­ven­tes de um cri­me con­tra o pa­tri­mó­nio.

PAU­LO PI­MEN­TA

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