Quan­do os deu­ses che­ga­ram a Go­zo (e Mal­ta)

Publico - Fugas - - GOZO -

são ain­da 10h quan­do os pri­mei­ros au­to­car­ros de ex­cur­sões co­me­çam a che­gar a um dos mais fas­ci­nan­tes mo­nu­men­tos de Go­zo, de Mal­ta, na ver­da­de, os Tem­plos de Ggan­ti­ja. Quem aqui tra­ba­lha está pre­pa­ra­do para es­ta on­da ini­ci­al – a nos­sa guia tam­bém, por is­so es­ta­mos a ter­mi­nar a vi­si­ta a es­tes “tem­plos de gi­gan­tes”, tra­du­ção li­te­ral, já que os go­zi­ta­nos acre­di­ta­vam que ha­vi­am si­do cons­truí­dos por uma ra­ça de gi­gan­tes. Não eram gi­gan­tes, mas dei­xa­ram para trás as que du­ran­te mui­to tem­po se acre­di­tou se­rem as mais antigas es­tru­tu­ras hu­ma­nas ain­da de pé (en­tre­tan­to, ul­tra­pas­sa­da, em seis mil anos, pelo tem­plo de Gö­be­kli­te­pe, na Tur­quia): um com­ple­xo de dois tem­plos, da­ta­do de cer­ca de 3600 a.C. a 3000 a.C..

No cen­tro de in­ter­pre­ta­ção, que guar­da có­pi­as de pe­ças en­con­tra­das na zo­na – res­tos de ce­râ­mi­ca, ob­jec­tos de adorno (ve­jam-se os co­la­res de os­so e de con­chas) e im­pres­si­o­nan­tes es­ta­tu­e­tas das quais se des­ta­ca a “mu­lher gor­da” – te­mos a in­tro­du­ção. De­pois, um pas­sa­di­ço de madeira con­duz-nos pela co­li­na até aos tem­plos on­de se ado­ra­va a deu­sa­mãe. São as tra­sei­ras que ve­mos pri­mei­ro, enor­mes mo­nó­li­tos (che­gam aos seis me­tros, mas pen­sa-se que a parede po­de­ria ser três ve­zes mais al­ta) e a per­ple­xi­da­de pe­ran­te a sua (im)pos­si­bi­li­da­de (du­ran­te o Ne­o­lí­ti­co, on­de as úni­cas fer­ra­men­tas eram a pe­dra po­li­da). Con­tu­do, é a fa­cha­da que nos dá a no­ção da imen­si­dão do con­jun­to, 40 me­tros de lar­gu­ra vi­ra­dos a les­te com uma gran­de esplanada di­an­te que te­rá si­do uti­li­za­da para as ce­ri­mó­ni­as prin­ci­pais. Ca­da um dos tem­plos tem um cor­re­dor, flan­que­a­do por ab­si­des, que de­sem­bo­ca num al­tar: o mais an­ti­go, o do sul, é o mais decorado – ain­da se vêem es­pi­rais gra­va­das e pe­dras que man­têm um té­nue tom ocre. “Pen­sa-se que to­do o in­te­ri­or es­ta­ria pin­ta­do de ocre, que se­ria tam­bém usa­do co­mo pig­men­to cor­po­ral”, ex­pli­ca Au­drey – e daí vi­rá a ob­ses­são mal­te­sa com o ocre. No tem­plo nor­te, com o al­tar mais pe­que­no e uma se­gun­da ca­pe­la, en­con­tra­ram-se ves­tí­gi­os de que o fo­go te­rá si­do uti­li­za­do (“cre­ma­ções?”) e em am­bos ta­ças es­ca­va­das na ro­cha pro­va­vel­men­te para li­ba­ções.

Mal­ta é mui­tas ve­zes as­so­ci­a­da a sol e praia, mas é a his­tó­ria que a dis­tin­gue. Vi­si­tar a Mal­ta e só ir à praia é uma espécie de he­re­sia – e, sim, es­ta­mos a pis­car olho à re­li­gião. Se a re­li­gião é uma re­li­gião em Mal­ta, é pre­ci­so lembrar que aqui já se ado­ra­ram vá­ri­os deu­ses – e são re­li­gi­o­sos os mais an­ti­gos ves­tí­gi­os de ocu­pa­ção hu­ma­na da ilha. Há 24 tem­plos me­ga­lí­ti­cos no país, qua­tro de­les, in­cluin­do Ggan­ti­ja, pa­tri­mó­nio da UNESCO. É possível fa­zer um ro­tei­ro ape­nas pré-his­tó­ri­co, mas as ten­ta­ções para des­vi­os tam­bém são mui­tas. A ca­mi­nho dos tem­plos de

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