De­pois do vi­nho de ta­lha, a nova mo­da po­de­rá ser o vi­nho ru­pes­tre

Publico - Fugas - - VINHOS - Pe­dro Gar­ci­as

Ti­ve um gran­de pro­fes­sor de His­tó­ria no en­tão ci­clo pre­pa­ra­tó­rio, o equi­va­len­te ho­je ao 5º e 6º ano. Cha­ma­va-se Plá­ci­do e era pa­dre em Car­lão, al­deia do con­ce­lho de Ali­jó, na re­gião do Douro. O pa­dre Plá­ci­do foi o ho­mem que mais des­co­ber­tas ar­que­o­ló­gi­cas fez em to­do o con­ce­lho. Com ele, fi­quei a co­nhe­cer an­tas, pin­tu­ras ru­pes­tres, cas­tros, cas­te­los ro­ma­nos e tam­bém la­ga­res es­ca­va­dos em ro­chas de gra­ni­to.

A me­ra exis­tên­cia des­tes la­ga­res, as­so­ci­a­da a diversos ves­tí­gi­os ce­râ­mi­cos, pro­va a lon­ga his­tó­ria vi­ti­vi­ní­co­la de Ali­jó e de ou­tros con­ce­lhos do Douro e de Trá­sos-Mon­tes (e de mais re­giões na­ci­o­nais). Es­ses la­ga­res di­zem­nos que já se faz vi­nho por ali des­de o tem­po dos cel­tas ou, no mí­ni­mo, dos ro­ma­nos. Nu­ma épo­ca de gran­de de­sen­vol­vi­men­to tec­no­ló­gi­co e de gran­de con­cor­rên­cia no ne­gó­cio do vi­nho, es­te olhar so­bre o pas­sa­do não tem ape­nas um va­lor nos­tál­gi­co e cul­tu­ral. O pas­sa­do po­de ser o fu­tu­ro de mui­ta gen­te. É só ver o que se pas­sa no Alentejo, com o res­sur­gi­men­to dos vi­nhos de ta­lha, uma tra­di­ção ini­ci­a­da pe­los ro­ma­nos.

“Ampho­ra” trans­for­mou-se na pa­la­vra má­gi­ca dos vi­nhos alen­te­ja­nos. A ca­da ano que pas­sa sur­gem no­vos vi­nhos de ta­lha na re­gião. Da Her­da­de do Es­po­rão à Her­da­de do Ro­cim, da Ca­sa Ale­xan­dre Rel­vas à Her­da­de do Ro­cim ou à Her­da­de Cor­tes de Ci­ma, não faltam exemplos de pro­du­to­res que já ade­ri­ram à nova mo­da. O que an­tes es­ta­va con­fi­na­do a pe­que­nos pro­du­to­res ar­te­sa­nais, a algumas ade­gas e a uma ou ou­tra ca­sa com mais his­tó­ria, co­mo é o ca­so da Ade­ga Jo­sé de Sou­sa, que pos­sui a mai­or colecção de ta­lhas da re­gião, co­me­ça ho­je a ge­ne­ra­li­zar-se a to­do o Alentejo.

Ain­da bem, por­que o ca­mi­nho “Novo Mun­do” que a re­gião, de um mo­do ge­ral, es­ta­va a se­guir, com vi­nhos de­ma­si­a­do in­ter­na­ci­o­nais, não era mui­to exal­tan­te. Com os vi­nhos de ta­lha, o Alentejo está a rein­ven­tar-se e a fa­zer vi­nhos mais ori­gi­nais, ape­sar de ve­lhos na tra­di­ção. Ao mes­mo tem­po, a re­gião dá uma se­gun­da opor­tu­ni­da­de a cas­tas locais que foram sen­do aban­do­na­das, co­mo a Mo­re­to e a Tin­ta Gros­sa, nos tin­tos, e a Per­rum, a Rabo de Ove­lha, a Man­teú­do e a Di­a­gal­ves, nos bran­cos.

Dois mil anos de­pois, o es­sen­ci­al do mé­to­do de vi­ni­fi­ca­ção em ta­lha pou­co mu­dou. E é usa­do tan­to para tin­tos co­mo para bran­cos. De­pois de de­sen­ga­ça­das as uvas (agora mais com o re­cur­so a de­sen­ga­ça­do­res eléc­tri­cos, em­bo­ra em algumas ade­gas ain­da se usem ri­pa­dei­ras, tabuleiro ou me­sa for­ma­do por uma gra­de de ri­pas pa­ra­le­las de madeira on­de se faz o “ri­pan­ço” ma­nu­al, ou seja, o de­sen­ga­ce das uvas), as mas­sas são co­lo­ca­das nas ta­lhas (podem ser em bar­ro pu­ro ou re­ves­ti­das, com ce­ra de abelha ou pez, por exem­plo). A fer­men­ta­ção ocor­re de for­ma es­pon­tâ­nea. Quan­do as mas­sas co­me­çam a su­bir à su­per­fí­cie, são me­xi­das e sub­mer­gi­das com um ro­do de madeira, de mo­do a evi­tar a sua oxi­da­ção e ex­trair o má­xi­mo de cor, aro­ma e sa­bor.

A fer­men­ta­ção du­ra en­tre oi­to a 15 dias e, de­pen­den­do do pro­du­tor, o vi­nho po­de fi­car em con­tac­to com as mas­sas du­ran­te mais uns dias, se­ma­nas ou até mes­mo me­ses. Uma espécie de ma­ce­ra­ção pós-fer­men­ta­ti­va. Nas ta­ber­nas alen­te­ja­nas é tra­di­ção ser­vir o vi­nho di­rec­ta­men­te da ta­lha. Mas há pro­du­to­res que tras­fe­gam o vi­nho para ân­fo­ras mais pe­que­nas (a ta­lha comum tem uma ca­pa­ci­da­de de 600 li­tros, mas tam­bém são usa­das, so­bre­tu­do para es­tá­gio, ân­fo­ras de 150 li­tros, as antigas Do­lia). No iní­cio da Pri­ma­ve­ra, o vi­nho co­me­ça a ser con­su­mi­do ou é en­gar­ra­fa­do. O tem­po de es­tá­gio, tal co­mo as cas­tas ou o ti­po de ta­lha usa­do, va­ria de pro­du­tor para pro­du­tor.

Os vi­nhos fei­tos em ta­lha são menos ex­traí­dos e, por is­so, mais se­do­sos, fi­nos e fá­ceis de be­ber. Por tra­di­ção, são tam­bém menos al­coó­li­cos, o que os tor­na mo­der­nos. São vi­nhos de be­ber e para be­ber ce­do. Por tra­di­ção co­me­çam a ser con­su­mi­dos no dia de São Mar­ti­nho, que é quan­do são aber­tas as ta­lhas. É já no pró­xi­mo do­min­go e vale a pe­na dar um sal­to até ao Alentejo, à zo­na da Vi­di­guei­ra, por exem­plo, para as­sis­tir a es­ta ce­le­bra­ção co­lec­ti­va.

O res­sur­gi­men­to dos vi­nhos

O res­sur­gi­men­to dos vi­nhos de ta­lha no Alentejo é uma das me­lho­res no­tí­ci­as do vi­nho por­tu­guês nos úl­ti­mos anos

de ta­lha no Alentejo é uma das me­lho­res no­tí­ci­as do vi­nho por­tu­guês nos úl­ti­mos anos. A próxima boa no­tí­cia po­de vir, quem sa­be, de Trás-os-Mon­tes, on­de a Co­mis­são Vi­ti­vi­ní­co­la Re­gi­o­nal já pe­diu au­to­ri­za­ção ao Ins­ti­tu­to da Vinha e do Vi­nho para co­me­çar a cer­ti­fi­car vi­nhos vi­ni­fi­ca­dos em la­ga­res ru­pes­tres. Um de­va­neio? Não. Num ne­gó­cio em que a di­fe­ren­ça e a ori­gi­na­li­da­de são va­lo­res de­ci­si­vos, os vi­nhos “ru­pes­tres” podem ser uma boa apos­ta, até por­que o le­ga­do de vi­ni­fi­ca­ção ru­pes­tre em Trás-os-Mon­tes é enor­me.

Val­pa­ços é, pro­va­vel­men­te, o con­ce­lho com a mai­or con­cen­tra­ção de la­ga­res ru­pes­tres do país (cer­ca de uma cen­te­na).

E é tam­bém o que tem es­ta­do na di­an­tei­ra da va­lo­ri­za­ção des­te le­ga­do. Em 2017, aco­lheu o I Sim­pó­sio Ibé­ri­co de La­ga­res Ru­pes­tres, de que re­sul­tou a de­ci­são de cri­ar uma as­so­ci­a­ção em Por­tu­gal e ou­tra em Es­pa­nha para pre­pa­ra­rem a can­di­da­tu­ra dos la­ga­res ru­pes­tres a Pa­tri­mó­nio Mun­di­al. A As­so­ci­a­ção Por­tu­gue­sa dos La­ga­res Ru­pes­tres é cons­ti­tuí­da ho­je mes­mo em Val­pa­ços, on­de, no ano pas­sa­do, a CVR de Trás-os-Mon­tes pro­du­ziu o pri­mei­ro vi­nho em la­gar ru­pes­tre, sem fins co­mer­ci­ais, a que cha­mou Cal­ca­to­rium, um tinto aber­to de cor, fres­co e mui­to agra­dá­vel de be­ber. A ex­pe­ri­ên­cia vol­tou a ser re­pe­ti­da na vin­di­ma des­te ano.

Cal­ca­to­rium é, co­mo o pró­prio no­me in­di­ca, o tan­que de gra­ni­to on­de as uvas eram pi­sa­das. Fi­ca­va na par­te mais al­ta e pla­na da ro­cha. O lí­qui­do ver­tia de­pois para a la­ga­re­ta (la­cus), si­tu­a­da mais abai­xo. Ao con­trá­rio do vi­nho de ta­lha, que é um vi­nho de cur­ti­men­ta, o vi­nho ru­pes­tre era de bi­ca aber­ta. O mos­to fer­men­ta­va à par­te, em va­si­lhas de cas­ta­nho, em ta­lhas (mais no sul) ou em odres (fei­tos com pe­les de ani­mais).

Os la­ga­res ru­pes­tres não fa­zem vi­nhos me­lho­res do que os la­ga­res de gra­ni­to ac­tu­ais, co­mo é ób­vio, mas são mais ape­la­ti­vos e têm uma mai­or es­pes­su­ra his­tó­ri­ca. O enó­lo­go Ma­teus Nicolau de Almeida foi um dos pri­mei­ros a per­ce­ber o po­ten­ci­al des­tes la­ga­res e ins­ta­lou um Cal­ca­to­rium na sua nova ade­ga de Vi­la Nova de Foz Côa. Quan­do lan­çar o seu pri­mei­ro vi­nho “ru­pes­tre” no mer­ca­do, de cer­te­za que ou­tros o se­gui­rão. Não há mal ne­nhum. Pe­gan­do, a nova mo­da aju­da­rá, pelo menos, a man­ter vi­vo um pa­tri­mó­nio his­tó­ri­co mui­to im­por­tan­te e com gran­de po­ten­ci­al tu­rís­ti­co e, des­sa for­ma, a va­lo­ri­zar um ter­ri­tó­rio en­ve­lhe­ci­do e de­ser­ti­fi­ca­do. O pa­dre Plá­ci­do iria gos­tar de sa­ber dis­to.

RI­CAR­DO LO­PES

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