E não é que is­to é mes­mo de co­mer?

Publico - Fugas - - CRÓNICA - Au­ré­lio Mo­rei­ra

Que par­ti­da es­ta, a de con­vi­da­rem um apre­ci­a­dor de co­mi­da tra­di­ci­o­nal a vi­si­tar um tem­plo de co­mi­da ex­pe­ri­men­tal e ino­va­do­ra! Já se vê que a dis­cre­pân­cia não cha­mus­ca nem po­de cha­mus­car a ar­te e sa­ber de quem pre­ten­de es­tar na van­guar­da da co­zi­nha. Por is­so vou es­for­çar-me por não dei­xar que a inép­cia do crí­ti­co cau­se pre­juí­zo ou in­jus­ti­ça ao cri­ti­ca­do.

Pri­mei­ro o lu­gar, no am­bi­en­te ro­mân­ti­co da Quin­ta da Ma­ci­ei­ri­nha, on­de se ins­ta­lou em tem­pos o So­lar do Vi­nho do Por­to. Bo­ni­tas ar­ca­das fe­cha­das a vi­dra­ças que nos dão o jar­dim e o con­ce­lho de Gaia de além-rio. A aten­ção aos por­me­no­res cons­trói a qua­li­da­de: to­a­lhas, guar­da­na­pos, ta­lhe­res, mú­si­ca am­bi­en­te, mas, an­tes e du­ran­te a en­tra­da em ce­na dos pra­tos, a ati­tu­de dos fun­ci­o­ná­ri­os, es­ses in­ter­me­diá­ri­os tão im­por­tan­tes en­tre nós e aqui­lo que fo­mos bus­car, é de­ter­mi­nan­te. Pas­sa­ram com dis­tin­ção: aco­lhe­do­res, aten­ci­o­sos, pres­tá­veis, sim­pá­ti­cos, co­nhe­ce­do­res. Sem to­que de uma cer­ta so­bran­ce­ria que por ve­zes afas­ta can­di­da­tos a cli­en­tes cer­tos.

Ini­cia-se o des­fi­le de ex­pe­ri­ên­ci­as com um pra­to bran­co no cen­tro do qu­al exis­te um pe­que­no re­ser­va­tó­rio com água. O fun­ci­o­ná­rio, com uma pin­ça, pe­ga no que pa­re­ce ser uma pas­ti­lha bran­ca al­ta, com­pac­ta, e põe-na cui­da­do­sa­men­te no cen­tro do re­ser­va­tó­rio. Quan­do, in­tri­ga­do, ob­ser­va­va eu o que po­de­ria sair da­li de co­mes­tí­vel, avi­sou-me, mes­mo a tem­po, que era uma to­a­lhi­nha pa­ra lim­par as mãos. De fac­to, em con­tac­to com a água, a pa­re­cen­ça de pas­ti­lha in­chou, cres­ceu e trans­for­mou-se num ro­li­nho de te­ci­do que cum­priu a sua fun­ção.

En­tre­tan­to, aju­dam-me, sim­pa­ti­ca­men­te, a en­con­trar o meio co­po de vi­nho que, além da in­dis­pen­sá­vel água, se­rá com­pa­nhia na sequên­cia de sa­bo­res: Quin­ta Val­le de Pas­sos, tin­to. Gos­tei.

Lo­go de se­gui­da, dois pe­que­ni­nos pra­tos de en­tra­das inau­gu­ra­ram os pro­ce­di­men­tos. Mas não eram pra­tos: uma bo­la em por­ce­la­na bran­ca com a par­te de ci­ma ele­gan­te­men­te côn­ca­va re­ce­bia — nes­sa re­en­trân­cia on­de a co­lher re­don­da que me aguar­da­va em ci­ma da me­sa mal ca­bia — uma os­tra dis­pos­ta nos tons de ver­de dos mo­lhos; nu­ma ta­ça, bo­ca­di­nhos de chi­char­ro em mo­lho de gua­ca­mo­le, to­ma­tes-ce­re­ja. O olhar es­tá con­quis­ta­do, pois a apre­sen­ta­ção vai à fren­te, a de­mons­trar a qua­li­da­de de quem con­ce­beu com tan­ta fe­li­ci­da­de es­té­ti­ca e con­fec­ci­o­nou com es­me­ro. Os sa­bo­res são su­a­ves.

Tra­zem-me pão, em pra­tos se­pa­ra­dos: uma fa­tia de fo­cac­cia

de ale­crim, ain­da quen­te, mui­to boa, e um pe­da­ci­nho de broa de Avin­tes, que re­co­nhe­ci com ale­gria, sem ser pre­ci­so es­pe­rar pe­la ex­pli­ca­ção. Sen­ti-me mais acom­pa­nha­do.

Se­gue-se es­tur­jão fu­ma­do em mo­lho de man­ga e mos­ca­tel em gel. Agri­do­ce, mas não en­jo­a­ti­vo. Exó­ti­co, mas não ame­a­ça­dor.

Pra­to de pei­xe: pre­ga­do em ter­ri­na de por­co com mo­lho de fun­cho e pu­ré de ai­po. Bom sa­bor. Sub­til. Mas eu, por uma ques­tão prá­ti­ca, des­car­ta­ria o pra­to de bor­das ex­ces­si­va­men­te al­tas, que es­tor­vam os ta­lhe­res no seu tra­ba­lho.

Pra­to de car­ne: pre­sa de por­co com es­pi­na­fres, co­gu­me­los, ri­sot­to

de ce­va­di­nha e mo­lho de vi­nho tin­to. Pa­re­mos um pou­co: ri­sot­to é ita­li­a­no pa­ra di­zer “um ar­roz de”. Gos­to de ar­roz. Mas es­te ri­sot­to

en­ga­na-nos, por­que não tem ar­roz, mas ce­va­di­nha. Ora, quan­do che­ga à lín­gua, em vez da­que­les grãos de que te­mos me­mó­ria, sur­gem uns ba­gos in­cha­dos, le­ves, se­pa­ra­dos, que es­cor­re­gam uns so­bre os ou­tros e brin­cam con­nos­co. Con­fun­di­ram-me. Gos­to de ar­roz na ar­ro­za­da. Além dis­so — eu sei que sou só eu — não te­nho, dos co­gu­me­los, a ideia de se­rem a mais in­te­res­san­te tex­tu­ra pa­ra se co­mer. De os fo­to­gra­far, já gos­to...

Agar­ro-me à broa de Avin­tes pa­ra sa­ber on­de es­tou. Ao con­trá­rio da fo­cac­cia, agra­dá­vel, mas tal­vez um pou­co sal­ga­da, a per­fei­ção da broa de Avin­tes sal­va­me, re­con­for­ta-me. Dá-me de vol­ta o Nor­te.

So­bre­me­sa: “smi­le” de pan­na cot­ta de ma­ra­cu­já so­bre uma bo­la­cha. O amar­go li­gei­ro da pan­na cot­ta em for­ma de ca­ri­nha sor­ri­den­te é con­tra­ri­a­do pe­lo do­ce da bo­la­cha. Um bo­ca­di­nho de ge­la­do de li­mão se­la a re­fei­ção.

Con­fir­mo o meu pro­ble­ma: não sou per­se­gui­dor de sa­bo­res di­fe­ren­tes pa­ra além dos de um ca­bri­to as­sa­do no for­no que me pro­vem re­al­men­te que o que eu não gos­ta­va era de mau ca­bri­to as­sa­do. Te­nho um li­mi­te, tal­vez bai­xo, pa­ra o nú­me­ro de sa­bo­res no­vos ou com­bi­na­ções ra­ras que ad­mi­to nu­ma re­fei­ção. Ul­tra­pas­sa­do, co­me­ça a to­car um alar­me que pas­sa do estô­ma­go pa­ra o fí­ga­do. Não foi o ca­so.

Fi­cou tu­do em paz com a sub­ti­le­za das com­bi­na­ções e a mes­tria da con­fec­ção e da apre­sen­ta­ção. As quan­ti­da­des não fo­ram aci­ma nem abai­xo do ne­ces­sá­rio, com a sen­sa­ção de uma di­ges­tão tran­qui­la.

Nes­te re­quin­te de al­mo­ço, sou o úni­co por­tu­guês. Um ca­sal jo­vem ja­po­nês vai fo­to­gra­fan­do os pra­tos e al­ter­nan­do de lu­gar, não sei porquê, ao lon­go da re­fei­ção. Atrás, uma ra­pa­ri­ga faz per­gun­tas em in­glês, tal­vez pa­ra um blo­gue. Do ou­tro la­do da sa­la, um fran­cês dos seus 70 anos apre­cia os pedidos de seu va­gar. Ao meu la­do, uma jo­vem ja­po­ne­sa, so­zi­nha, op­ta pe­lo mes­mo que eu: “me­nu exe­cu­ti­vo” com pra­to de pei­xe e pra­to de car­ne. O res­tau­ran­te é, de fac­to, uma boa em­bai­xa­da de Por­tu­gal.

LARA JA­CIN­TO/NFACTOS

NEL­SON GAR­RI­DO

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