Lem­bro o al­fe­res Luís Del­ga­do na gu­er­ra co­lo­ni­al

Publico - Inimigo - - O INIMIGO PÚBLICO - VE Por An­tó­nio Lo­bo An­tu­nes

Aqui no hos­pí­cio, ou­vin­do um lou­co ga­ran­tir que é o Vas­co da Ga­ma que vol­tou do Lo­bi­to na pon­te aé­rea, uma en­fer­mei­ra pas­sa co­mo as me­ni­nas dos ca­ba­rets do Cais do So­dré e diz que o Luís Del­ga­do vai com­prar a re­vis­ta on­de es­tou a es­cre­ver es­ta cró­ni­ca co­mo, qu­an­do era cri­an­ça, es­cre­via re­dac­ções pa­ra as mi­nhas ti­as na ca­sa de Ben ca. - O Luís Del­ga­do vai di­zer que so­mos ma­ri­cas di­go à en­fer­mei­ra. E ela res­pon­de - O Jo­sé Sa­ra­ma­go é que era ma­ri­cas e eu con­cor­do e di­go que sim e lem­bro o al­fe­res Del­ga­do em Nam­bu­an­gon­go a brin­car com du­as gra­na­das co­mo eu brin­ca­va em cri­an­ça, no quin­tal do meu avô, em Ben ca, com os ber­lin­des que eram co­mo os olhos dos lu­ná­ti­cos no hos­pi­tal da Luz que se mi­ja­vam e man­da­vam as en­fer­mei­ras mu­dar a fral­da e fa­la­vam de ma­nhãs de ca­ça no Alentejo nas her­da­des que ti­nham an­tes dos co­mu­nis­tas le­va­rem tu­do - O Jo­sé Sa­ra­ma­go era co­mu­nis­ta diz a en­fer­mei­ra e eu con­cor­do e di­go que ele le­vou o mon­te do Zé Car­do­so Pi­res, o Zé, com quem eu des­cia de bra­ço da­do o Chi­a­do e em vez de vi­rar pa­ra a Rua Gar­rett vi­rá­va­mos pa­ra o ou­tro la­do e eu e o Zé ca­mi­nhá­va­mos de mão da­da pe­la Es­tra­da de Ben ca até che­gar­mos à ca­sa do avô no meio do Cen­tro Co­mer­ci­al Fon­te No­va ali pa­ra os la­dos de Ben ca e ele es­ta­va a mor­rer e por is­so re­sol­veu con­tar a his­tó­ria da sua vi­da em Áfri­ca e no mon­te do Ri­ba­te­jo atra­vés da sua voz e da mi­nha voz e da voz do Zé e da voz do Luís Del­ga­do e da voz da en­fer­mei­ra que tam­bém es­te­ve em Nam­bu­an­gon­go e ser­via ca­fés no snack-bar do Fon­te No­va on­de o lou­co que pen­sa­va que era o Vas­co da Ga­ma co­meu uma san­des mis­ta qu­an­do vol­tou das co­ló­ni­as e - Ago­ra vou cho­rar di­go e não é que cho­rei e o Luís Del­ga­do che­gou a Ben ca pa­ra pen­sar em to­das as ex­pe­ri­ên­ci­as de vi­da do meu avô que ele não co­nhe­ce de la­do ne­nhum e apro­vei­tou pa­ra ir mu­dar o ecrã do te­le­mó­vel que trou­xe das co­ló­ni­as ao in­di­a­no do Fon­te No­va e diz - Vo­cês são to­dos ma­ri­cas, meu ca­pi­tão e eu di­go que sim e es­tou em An­go­la e ao mesmo tem­po em Por­tu­gal, es­tou no meio, mais ou me­nos em Da­kar, no Se­ne­gal e acho que vou cho­rar co­mo fa­zem os ho­mens du­ros mas sen­sí­veis que nun­ca es­que­cem a gu­er­ra do Ul­tra­mar e cho­rei e - Não cho­re que ecrã de te­le­mó­vel ca co­mo no­vo diz o in­di­a­no e eu en­tre­go-lhe o te­le­mó­vel e co de vir bus­cá-lo ama­nhã de­pois das 16h00, de bra­ço da­do com o Zé.

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