Dre­gu­lhos”

Publico - Ipsilon - - Sumário -

En­tre José Pedro Croft e a sua obra, iden­ti­fi­ca­ção to­tal: “Quan­to eu e to­da a mi­nha ge­ra­ção de­ci­di­mos ser ar­tis­tas, as­su­mi­mos um sen­ti­do de vi­da” ria con­vo­ca­da, mes­mo que não evi­den­te. Por­tan­to, com um vo­ca­bu­lá­rio pe­que­no e sem sair do mes­mo ges­to re­pe­ti­do, de ca­da vez es­tou a fa­zer uma história com­ple­ta­men­te di­fe­ren­te.

No fun­do é o que se tam­bém pas­sa com os es­pe­lhos nos tra­ba­lhos de es­cul­tu­ra. Jun­tar, se­pa­rar, so­bre­por, des­truir, pin­tar. É co­mo se fos­se sem­pre o mes­mo ges­to. Acho que es­tou sem­pre a tra­ba­lhar na mes­ma coi­sa, des­de as mi­nhas pri­mei­ras es­cul­tu­ras de sem­pre, em már­mo­re. Eram uns pa­ra­le­li­pí­pe­dos em már­mo­re que pas­sa­ram a ser cai­xas de ma­dei­ra e, de­pois, es­tru­tu­ras em vi­dro, mas con­ti­nu­am a ser sem­pre pa­ra­le­li­pí­pe­dos. Acho que há ape­nas uma pe­que­na nu­an­ce: no ca­so do de­se­nho há o re­gis­to da mão a pas­sar so­bre o pa­pel — nes­se sen­ti- do, aque­le ges­to já traz a mi­nha pre­sen­ça, uma pre­sen­ça hu­ma­na que num de­ter­mi­na­do mo­men­to e a de­ter­mi­na­da ve­lo­ci­da­de se des­lo­ca so­bre o pa­pel, que vai de ci­ma a bai­xo, ou da es­quer­da pa­ra a di­rei­ta. Quan­do pego em mó­veis, que em ge­ral são usa­dos — nun­ca mó­veis no­vos —, agar­ro em me­mó­ri­as de ter­cei­ros, que des­co­nhe­ço e que uso a meu fa­vor. São sem­pre re­la­ções an­tro­po­mór­fi­cas que exis­ti­ram em to­dos os ges­tos, do de­se­nho à es­cul­tu­ra. Re­la­ções mui­to cla­ras, por­que as me­sas, as ca­dei­ras, são ob­jec­tos que ser­vem pa­ra uso hu­ma­no e têm a nos­sa me­di­da. E [nas mi­nhas es­cul­tu­ras] são sem­pre ob­jec­tos que es­tão de­sen­qua­dra­dos, trans­for­ma­dos em ob­jec­tos inú­teis. E que ao se­rem inú­teis ga­nham uma li­ber­da­de que, an­tes, não ti­nham. Tu­do o que é fun­ci­o­nal de al­gu­ma ma­nei­ra es­tá re­fém, da sua fun­ção. Tu­do o que não tem fun­ção é mais li­vre — es­sa é tam­bém a be­le­za da po­e­sia. Já as por­tas tra­zem-me a pre­sen­ça da ar­qui­tec­tu­ra. É ou­tra coi­sa. Uma por­ta que an­tes ser­via pa­ra fe­char ou abrir, dar pas­sa­gem ou im­pe­dir pas­sa­gem, quan­do se vê li­ga­da a uma ca­dei­ra ou me­sa pas­sa a ser li­vre. Me­sa, ca­dei­ra e por­ta, fi­cam a ro­dar li­vres. “A ro­dar li­vres”: soa a co­re­o­gra­fia, a dan­ça. E é. Uma por­ta que não es­tá li­ga­da a uma ar­qui­tec­tu­ra é co­mo uma fi­gu­ra sem som­bra pro­jec­ta­da. É co­mo se fos­se Pho­toshop. Mas eu não te­nho bem no­ção [do pro­ces­so de trans­for­ma­ção]. Vou pa­ra o ate­li­er tra­ba­lhar di­a­ri­a­men­te. To­dos os di­as têm con­ti­nui­da­des e des­con­ti­nui­da­des e eu, em ca­da vez, en­tre­go-me ao trabalho. Acho que me po­nho lá den­tro. É um sen­ti­do de vi­da. O que é que quer di­zer um “sen­ti­do de vi­da”? Quan­do eu e to­da a mi­nha ge­ra­ção de­ci­di­mos ser ar­tis­tas, a pos­si­bi­li­da­de de po­der­mos vir a vi­ver do nos­so trabalho era uma coi­sa di­fí­cil e re­mo­ta. Não ha­via mu­seus, não ha­via fun­da­ções, não ha­via ga­le­ri­as, não ha­via co­lec­ci­o­na­do­res. Quan­do de­ci­di­mos que que­ría­mos fa­zer dis­to a nos­sa vi­da, as­su­mi­mos um sen­ti­do de vi­da. Mas es­ta­va a as­so­ci­ar es­sa ex­pres­são ao próprio ac­to de en­trar no ate­li­er, ao trabalho em si. Quan­do te me­tes no trabalho, mes­mo que se­ja um de­se­nho pe­que­no, na ver­da­de, é co­mo en­trar num mun­do pa­ra­le­lo. Quan­do olhas pa­ra uma pá­gi­na em bran­co e te pro­pões fa­zer al­gu­ma coi­sa — um pri­mei­ro ges­to, que é uma li­nha, que de­pois é uma man­cha, que le­va a ou­tra li­nha... —, é co­mo se fos­ses olhan­do pa­ra fo­ra pa­ra te ires afi­nan­do por den­tro. Ou co­mo se te fos­ses afi­nan­do por den­tro pa­ra po­der re­gis­tar fo­ra. É um jo­go de den­tro e fo­ra. Es­sa pers­pec­ti­va im­pli­ca uma iden­ti­fi­ca­ção de 100% en­tre cri­a­dor e cri­a­ção, ar­tis­ta e obra. Cla­ro que sim. Não há dis­tân­cia, dis­so­ci­a­ção? Não. E o que é cu­ri­o­so é que por ve­zes há re­jei­ção. Mui­to fre­quen­te­men­te os de­se­nhos são ges­tos frus­tra­dos, que não le­vam a la­do ne­nhum. O que eu fa­ço é pôr de par­te. Às ve­zes, cin­co ou seis anos de­pois ve­jo coi­sas que não con­se­gui ver na al­tu­ra. Ou se­ja, é co­mo se o meu in­cons­ci­en­te e a mi­nha mão sou­bes­sem coi­sas que eu ain­da não te­nho ca­pa­ci­da­de de per­ce­ber. Uma pres­ci­ên­cia? Não. A cons­ci­ên­cia que te­mos da­qui­lo que fa­ze­mos tem tan­tas gre­lhas e pe­sos em ci­ma que mui­tas ve­zes blo­queia um la­do au­to­má­ti­co que tem uma for­ça que não re­co­nhe­ce­mos. E o que é que faz de de­ter­mi­na­da obra um ges­to fra­cas­sa­do? O jul­ga­men­to. Que é mui­to fre­quen­te­men­te per­ver­so, por­que acei­ta có­di­gos so­bre o que é bom ou mau. Por is­so é que é im­por­tan­te o ba­nho-ma­ria. Mui­tas ve­zes acon­te­ce-me com a es­cul­tu­ra. Não con­si­go per­ce­ber ime­di­a­ta­men­te se o que fiz é in­te­res­san­te ou não. Te­nho de dei­xar as es­cul­tu­ras no ate­li­er até elas ga­nha­rem di­rei­to a exis­tir. Ou não? Ou não. O que faz com as es­cul­tu­ras que não ga­nham es­se di­rei­to? Des­truo-as. E al­gu­mas que ga­nham di­rei­to a exis­tir pas­sa­dos uns anos aca­bam tam­bém des­truí­das. O de­se­nho guar­da, mas a es­cul­tu­ra des­trói. Só por­que o de­se­nho é fá­cil de ar­ru­mar e a es­cul­tu­ra não. Mas não te­nho ne­nhu­ma nos­tal­gia. Às ve­zes há fo­to­gra­fi­as, re­gis­tos. Fa­lou nas con­ti­nui­da­des ou des­con­ti­nui­da­des de ca­da dia. O que que­ria di­zer com is­so? A con­ti­nui­da­de é ir to­dos os di­as ao ate­li­er — eu trabalho co­mo os ope-

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